sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

um copo de beckett

sopa. caldo
prato. colher
cavo prato colher
caldo sorver
boca. caldo
lábio. colher
sorver caldo colher
quente no frio
mesa
dia que finda
noite não
côdea de pão
lã de manga
veio de mão
tábua
silêncio. sorver
caldo. sal
quente no frio
sorver
Todos os rumos foram tomados. Deram em nada. Todas as saídas foram testadas. Foram frustradas. Todas as possibilidades foram experimentadas. Não deram em nada.
Agora aqui com a mão sobre a mesa é ver como é que acaba.
Se é que acaba.
O que é que acaba.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

há mil dias aqui
travessia e deserto
eixo da solidão:
frente às frentes
nem blusa nem vela nem lençol balançam
porque não há vento
entaipado entorpecido
cavo o momento
onde estou, mesmo?
essa fagulha, aresta,
farpa por onde escorrego os dedos
essa escarpa desço
onde estou?
mar adentro

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

vamos jogar o jogo do jaguar?


Jaguar
Jaguatirica
Jaguapé
Jararaca
Jacarandá
Jaca mole
Jacutinga
Jaculelê
Jaguadarte
Jangada
Jangada
Já gandaia
Gianduia
Gian Giulia
Giancarlo
Gianocarlyle
Giancoforte
Giacometti
Gioconda
Jucunda
Jocosa
Jugular
Jumenta
  Junge  
Javali
Janaína
Jaguanum
Já na Justa
Jiu em jítsu
Jauaretê

domingo, 21 de novembro de 2010

todas as areias eras havidas

O martírio. A tortura. O calvário. O prego a lança o cravo. Laceração. Musgo do riso. A pele a pêlo a couro a escalpelo. Vaca atavia horda da tarde desde o começo. Colina colina e o campanário de gesso. Ruas e o barro-som excremento. Toda a vigorosa vida de onde não quando. Que entranhada não cessa. Aqui. A ilusão de tempo. O passado, passando. O passado tremeluzindo na carne o que vivemos. Golfada de lava. Passos no visgo preso às pernas. Algaravia. Arrastam-se as bolas. Sempre prisioneiros.

Ser um covarde e viver o mês. E viver o espaço calendário que não cessa de abrir. O dia, esse não conheço. As horas. Os minutos. Os segundos inteiros, que eu só perco. Os ponteiros, amputados. Os passados. Os antes passados. Os que não se passaram ainda que aparentemente vivos. Ainda que visivelmente claros. Ainda que objetivos. Ainda que gravados. Ainda que anotados. Ainda que com toda toda toda a abotoadura e o pregão da tarde. Esse é o círculo o que da areia vem. E todas as areias vêm.

Trombas d'água. Ontem era assim. Hoje já não sei mais o que é de mim. De quando em quando mim. Ainda um aqui. Ainda um imenso. Mas o que é verdadeiramente mim eu desconheço. Uma palavra. Uma rima. Um verso. E nada de canto. É pura música dita aqui ligeira. Surda aos aflitos. Surda aos amenos. Surda aos malditos. Surda aos pequenos. Eixos sonoros. Não diga nunca se esqueça. Venta a golfadas mas o mar o mar o mar vaga e a nau não mais afunda. O fundo lama azul destroços. Tudo é um dia o sentir de outros troços. Ouvir dizer esbarrar membranas de ouvidos. Ser in-matéria bordoar as carnes dentro os já sentidos. Esgueiram-se as priscas eras. Era assim. É de um com menos. Todas as tardes e ainda os camelos. Isso só arde isso só plange isso é viver ao bater das côvadas de tempo. Mesmo que arda trata primeiro. Devir é o esquecer intenso com todas as carnes que já viveram.
(extraído do livro "um mundo outro mundo".)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

jornada nas estrelas -- o episódio que nunca foi ao ar

“... audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.”
  
Agora você está sendo chamado na ponte. Ao entrar no elevador olha para cima e percebe algo de estranho entre as luzes, como se uma delas estivesse fora do lugar. Agora você, despreocupado, percebe que o elevador chegou finalmente à sala de comando; olha novamente para a lâmpada e vê que ela parece ainda mais afastada, deslocada, do que antes.
Você é recebido pelo seu oficial de Ciências. O seu navegador e o piloto estão atônitos olhando a tela, com a imagem à sua frente. Parece que há só e somente o breu, o escuro, o inconcluso, como se ali não houvesse estrelas. Um imenso imperceptível, inescrutável breu que você não sabia o que era ou onde é que ia dar. Você dirige um olhar ao seu oficial de Ciências que levanta as sobrancelhas e afirma estar diante de algo insondável, não perscrutável por nenhum de seus instrumentos. Não parece uma barreira porque é evidente que a nave avança. Não parece ser um túnel porque o espaço em todos os sentidos já foi examinado com raios-sonda que você ordenou da sala das máquinas que fossem lançados em todos os sentidos. Que espécie de aquilo era isso? O incognoscível? Não era crível. Não: o seu oficial de Ciências guardava ainda uma explicação. Poderia ser que fosse a borda dimensional da qual falara Callier? Callier havia destituído todas as teorias terrenas ao formular a hipótese do ponto obtuso onde tudo se fecha enclausura e tritura; o ponto da não-criatura. Obturação escura que repousa sem absolutamente nenhuma informação plausível para o cérebro. O indistinto escuro. Ponto de oclusão. A teoria do ponto obtuso você conhecia bem. Havia recebido inúmeras informações nos seus últimos cursos de aperfeiçoamento. Era completamente implausível imaginar que nenhuma das ferramentas gnosiológicas de todos aqueles povos da federação conseguira plausir mais qualquer fórmula além do aquilo que ora se apresenta. Aquilo. Também conhecido como isso ou coisa. Multiverso que abarca traga engancha a atenção de todo aquele que se aproxima. Mais, muito mais, do que se poderia supor que fossem no século XXI do planeta Terra os buracos negros. Muito além do que supusera a hipótese da colcha atemporal que a tudo abarca dos vagosianos. Era finalmente o ponto obtuso, aquela multifacetada forma de não ser coisa alguma. Nada acumulava, nada recebia, tudo era um permanecer indo aonde não se sabia. Não havia tempo naquele aquilo, coisa, isso, nem velocidade, nem se consumiam os combustíveis, nem as imensidades, nada apreensível com nenhuma sonda, não reagia, nem regurgitava, não expelia, nem recebia. Não era o vácuo, como alguns poderiam pensar. Aquele aquilo era também chamado de tampa ou ponto dimensional para onde prosseguiram inúmeras naves que nunca sequer foram porque não se teve notícia de jamais terem chegado. Aquilo era aquilo que se vivia. A tampa, cláusula escura de onde não se saía, porque jamais se entrara. Ponto do qual não se retorna, posto que nunca para o qual ninguém fora. Aquilo era aquilo e você, você e toda a tripulação de sua nave estavam experimentando esse isso sem poder sequer saber que afinal era aquilo a experiência do isso abissal do qual não se fugia, para o qual não se ia, se apartava, aportava. A borda, a borda dimensional do incognoscível ponto de não-retorno para o qual não se ia. Era aquilo, aquilo era, era aquilo. Breu do brilho escuro, tampa sem tempo estrela distância localização aquilo daquilo do qual não se falava. Somente Callier ousou conceber o que não se concebe; o inconcebível o inescrutável isso.
Diário de bordo, data estelar: um quase quase ponto outro ponto o quê...
(extraído do livro "uns tantos outros".)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

cordas

no silêncio obscuro
das cordas
o que é mim
minúscula
película
em divisa
do que não é mim
no silêncio obscuro
dos tons
o que é mim
entrementes
tremidos
intervalos
onde não é mim
o silêncio obscuro
silêncio
no vazio mim
aborda
a borda
indizível
corda
do que don't mean

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

a sala

 A sala é um esquadro vazio. No escuro. A iluminação vem das janelas as janelas alheias. A sala é um piso liso e sem risco ou taco. Imita madeira escura e não brilha ou soa ao pisar de nenhum sapato. As paredes são brancas nuas. Numa delas se pendura somente um quadro. Branco com moldura preta e no meio dele um rosto enquadrado. Não há sofá ou poltrona. Não há uma só lâmpada pendurada. As tomadas estão livres. Não há tapetes ou mesas, nenhum móvel vem se intercalar no estar desta sala.
Nela. No canto. Uma perna esticada a outra dobrada junto ao corpo. Sentado com as costas apoiadas na parede que faz noventa graus com a janela. Está posto. Suposto um ser seja lá o que ele pode ser. A sala está vazia em esquadro. Nada nela se mira além daquele corpo sentado. Ali, e o retrato enquadrado. E as sombras e o piso meio de lado iluminado. Mas tudo está escuro deste lado. Ainda que as luzes ocupem o piso com sua sombra ao contrário. Tudo é um silêncio vazio escorrido o vento o tempo os ângulos que esquadram a sala. Tudo é um duro e reto e seco e exato quadrado retângulo cantos em quatro por todo o lado. Silêncio escorrido anotado. Escuro esquadrinhado. Na sala vazia em que havia só um quadro.
Mas a sala estava cheia de um outro modo de estar. Tropeçavam-se ali constantemente pés em pés de poltronas em pés de mesa em tapetes em panos em almofadas. Todas as luzes quando acesas estavam sempre acesas. Todos os panos cristais objetos todas as pequenas estátuas. E os relógios os de mesa os de pulso os de parede. Tudo era um cuco a cada quarto de hora o tempo. E livros e louças e ferramentas de lareira em brasa. E mantas por sobre os estofados e xales a abraçar os braços das poltronas e centros de mesa e bandôs e cortinas e um sufocar dos tecidos atopetava aquela surda esvazia sala que dos mesmos olhos é testemunha muda daquele ente que arde.
(extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar".)

domingo, 17 de outubro de 2010

vinte e cinco horas em Paris

Para ler ao som de Erik Satie
Espremia cada uma das marcas da mão com cuidado, a ver se havia algum suco de sair. Olhava para as unhas detalhadamente, examinando as incrustrações de sujeira, o pó das coisas. Cuidava da aparência. A cada vitrina que passava, olhava de soslaio com os cantos dos olhos para mirar o refletir dos vidros... e constatava contente os andrajos transformados em farrapos, a figura transformando-se em tiras, as passadas, dadas largas, fazerem-se em sombra. Sorrateira, esgueira pela calçada.
Drink.
Um copo de aguardente, dedos negros segurando. Quase graxa dentro as unhas. Bebia o álcool transparente: desinfetava a alma. Ao mesmo tempo, trazia-a mais limpa após o escurecer da pele das mãos, da pele do rosto. A crosta de sujeira e o mau cheiro limpavam todo o oculto oco dos órgãos que borbulhavam agora num gorgorejar de água descendo, castelo de Granada.
Eu era o miserável, a sombra de que têm medo. A sombra que não conversa. Olhos soslaiam a olhar, a olhos ocultos. Olhos de soslaio vidro e farpa. Olhos a olhar o mundo sem as farpas quando sendo só o limpo aqui de dentro. Aguardente.
Quase gota a tecla ao piano
(Extraído do livro Babel, é claro, 2002.)




sexta-feira, 15 de outubro de 2010

verso

nestes talos tocos vivos
maleável corpo dócil
verga ao vento
verga o líquido brilhuminoso
entre ar cortada seiva que jorra
vida a vir por entre escarpas
correnteza vigorosa em fogo

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

o halo

Se pegava ávido pelos rótulos pelos papéis deixados nos cantos dos becos. Pelos papelinhos que restaram nos bueiros. Poucos eram os que os viam. Poucos eram os que os liam. Se pegava rápido a roubar os rasgados esquecidos no intervalo dos trilhos, a cascavilhar os textos abandonados nos vãos. Se pegava e atinha naquelas linhas que mais ninguém lia que mais ninguém via, agora que o mundo era o que havia de mais arrumado; o que eu ocupava o teu dentro e via. O que eu que roubava o teu íntimo fazia.
Aqueles como ele que se faziam na contra-luz eram os procurados. Os que não se davam a ver. Os escuros. Os esquivos. Os ocultados. Aqueles que iam pelos extensos caminhos que ninguém jamais tivera coragem de ver ou dizer. Se pegava ávido a querer ler porque as letras eram objetos escusos, corredores e curvas que ninguém mais podia entender. Tudo o em que elas haviam tinha sido banido tinha sido proscrito. Tudo o que se quedava em papel em construção de dizer com letras articulas era matéria de somenos era matéria de pequenos era matéria de perdidos. Todos não mais precisavam dizer. Todos não mais precisavam escrever o que por dentro lhes ia porque agora todos ocupavam essa membrana comum que se hauriu no unívoco entrelaçar de auras que se engastou na captura da alma alheia. Esse não-dentro que agora se dava na pretensa harmonia do compartilhar uníssono com o que não se curva mais ao que curva ao que imprime dígito, as voltas de linhas vírgulas da ponta do dedo.
Agora era o perder membrana. Todos a invadir o dentro a conviver com corpos a captar as almas a capturar os silêncios o oco do eco uivo, o obcluso de cada um.
Luz que ocupava os cérebros. Filtro que pretendia que os olhares pudessem apreender os mútuos pelo que nos vai por dentro. Agora era o olhar aquele halo por toda parte e ter roubado o seu laivo de singularidade. Hagiometria de ventos. Ralo que subvertia os entres. Raio a desfigurar os entes, a solapar os solos e varrê-los para o mesquinho elo do nenhum. Circuitos internos a confinar a todos no lugar comum.
Agora o mundo era esse contínuo de cérebros cavos. Esse diário contemplar do halo. Esse nirvana dos que não tinham sombras arestas ramagens, não tinham o fundo das florestas e dos lagos. Terra dos agarrados, obstinados a não se deixar perder a não se deixar perder.
Se quedava silente a olhar as letras, pelo menos as letras, que erigiam grades por entre as quais se podia esconder. Entremeava-se no camuflar de fios, no perpetuar dos traços, no rabiscar das rasuras desmesuradas.
Se pegava ávido a soletrar com os olhos a conjurar o murmúrio a palavra o gutúrio agoria do instante entoado da úvula convulado na voz na corrente infinita do permanente dizer. 
(Extraído do livro "uns tantos outros".)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

dezembros

Vermelho turvo espelho, preparam-se as bolas para o grande dia. O dia que será o dia em que se enfeitarão as pessoas em que se arranjarão as louças sobre a mesa em que se partirão as castanhas e nozes em que se comerão as tâmaras os figos em que se tomará o vinho tinto o vinho claro o vinho bolha embaixo da árvore pinheira.
Vermelho turvo espelho, erguem-se as bolas uma a uma pregadas grampo a grampo naquilo que são os galhos da árvore da sala. Vermelho turvo vermelho saem das caixas as bolas e o cheiro que delas emana fustiga as narinas convida o passado a vir. Vermelho turvo arma-se a árvore arruma-se o menino dispõem-se os presentes em beira.
Vermelho turvo espelho das conchas dos convivas as conchas ocultadas de cada um dos dias que vindos passados a contrapelo fazem daquilo um ressurgir de sombras esgueiras.
Vermelho turvo o movimento das mãos a segurar as bolas organizar na árvore o uma a uma até o descuido de uma das mãos que deixa cair sobre o piso num espatifar de susto num descuido de cacos o cada um dos cacos em que se transforma aquela tarde sombra dos dias todos passados pelos cada um daqueles que estavam ali.
Vermelho vermelho um presságio um augúrio de cacos. Estilhaçar estridente silvo. Cacos que fazem ímpar as dúzias de bolas maçãs casca de ovo espelho.
Vermelho turvo o que do passado veio. O que com aguda certeza do passado vinha. Cacos vermelho espelho espalhando-se por todas as tardes daquele dia.

domingo, 26 de setembro de 2010

rayuela no labirinto

Armar a colcha e me deitar sobre ela. Ou sob ela? A colcha de casas. Empurrar as pedrinhas casa a casa. Sobre as linhas. Ver o ver daquela que joga. Mas daquele que tece. Teseu teceu sobre as casas sobre cada uma delas. Pedras. Falar em cifras porque afinal tudo é língua e quem é que garante que seremos entendidos? Que seremos lidos? Universo de vidro que não separa de nada. Estamos aqui matéria pequeninos. Fibra a fibra de um tecido vivo que se deslinda que se conforma que se engendra em linhas em linhas que se reconfigurarão se as deixarmos ali. Só de as deixarmos ali. Só pelo fato de as fazermos linhas de encontros e desníveis e patamares e outras colchas-tapete arquitetadas por outros Odisseus-Penélopes.
Somos vincos ou vínculos em um desconfigurar permanente.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

nheco-nheco de nhenhenhém

A cadeira de balanço fazia nheco pela quarta vez nesta tarde. E ela não moveu uma palha para ouvir aquilo. A cadeira de balanço se mexendo sozinha na sala mas ela via somente o tapete. O tapete de franjas absurdas que ela havia encontrado na rua. Havia lavado. Havia secado. Havia colocado na sala. Agora ali o correr das tábuas se via interrompido por um tapete absurdo... O sol queimava a parede onde se pendurava um quadro pintado por ela um dia. Não que ela pintasse, mas esse num dia ela pintou e pendurou ali na parede para ver o que é que ia. E ele ficara ali. Desde esse dia. Fazia anos já. O relógio da sala, parado, estancava as horas uma a uma.

Ali era que ela só tinha olhos para as franjas do tapete enquanto a cadeira de balanço estalava em balanço pela quinta vez nesta tarde.

As sobras da sua paralisia ocupando-lhe a sala e ela nem percebia que o balanço da cadeira já virara cadência certa de seguidos um dois três estalos. A cadeira estalava em seu assento de treliça de palha e ela não movia uma só de sua parte para olhar para aquilo. A cadeira que agora fazia um nheco-nheco seguido a cada um dois minutos. A cadência cadência da cadeira de balanço e ela nem de soslaio olhava.

O xale do sol da tarde começava a verter labaredas laranja nos edifícios vizinhos. E ela ali. A cadeira de balanço vazia que agora ia e vinha e ela nem se dava conta disso. Estalava estalava estalava num balanço de ritmo que aos poucos a abraçava, mas ela ainda não se dava conta disso.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

quadrante

        Estrato de curvas e matérias-vento. Verbos com fusos. Solidar com pesar cavar véu. Coisas no coisas. Algo em que bato a cabeça quando passo. Na passagem deixo a camisa e me transformo na miragem. Nem há momento. O discernir daqui já é uma golfada de tempo. Verbos com fusos. Quadrante secante almofadar da existência.
(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

a fresta

Esqueça de cada fagulha agulha aguda picando sua lembrança. Esqueça qualquer sensação vivida instante a instante cada momento do vir a ser. Cada minuto cada movimento picado do relógio tique-taque marcando o que você vai ser. Esqueça dos gestos passados. Remotos momentos passados cada toque que pode lhe entrar por todos os sentidos. Esqueça até mesmo aquilo que não te foi perceptível, até a fagulha agulha aguda picando seu ser. Nada nesses próximos gestos deverá lembrar o de que você foi constituído. Esqueça a partir desse momento todo o passado e todo o futuro que você pretendia ser. Esqueça. Este é o lapso, o momento instante. Supremo fecundo abismo abstruso por onde descem as certezas e as dúvidas. Este é o instante, o supremo infinito que te arranca da roda que te arrasta pra vida que te remete ao limite fronteira inaudita o que estava lá fora o momento de agora que ninguém pode ver. Esqueça. 
(Extraído do livro Uns tantos outros.)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

as coisas

conversar sobre as coisas?
falar sobre elas
falar como as coisas
estar por dentro delas
estar nas coisas
derivar delas
devir com as coisas
devir coisa
como coisa nelas

terça-feira, 7 de setembro de 2010

fechadura

mas ele ouviu dizer hoje de manhã que a fechadura da porta de entrada esteve emperrada durante uma semana. E nem por isso escutou. Ficou ali ouvindo.

Quando?

De manhã quando ouviu dizer que a fechadura da porta de entrada esteve emperrada durante uma semana.

Quando?

Hoje de manhã.

Mas quando, na semana passada?

Não, hoje de manhã. A semana essa semana ele não ouviu quando. Só ouviu hoje de manhã sobre a fechadura. Isso.

O quê?

Que a fechadura esteve estragada durante uma semana. Emperrada. A porta de entrada. Ele ouviu. Quando hoje de manhã disseram isso da fechadura.

Quando?

Durante uma semana.

Mas quando

hoje de manhã é o que ele tem seguro. Que ele ouviu dizer que a fechadura da porta de entrada da casa esteve emperrada durante uma semana. Mas só ouviu isso hoje de manhã, não ouviu quando.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

vir(a)tual

mil gramas de sem sentido em milionésimos de des-segundos
navios da onda de andar para trás
de andar para o nunca
para o espaço duvido do oculto oco
o fundo
o da tumba do desgosto
o quê da angústia
eco do agudo
o caroço
.

.

.

mas da duna ver o horizonte em veias
o horizonte em cheio
o horizonte de areia de escalda maré
o que vir through da aquinosfera
o que vir(a)tual
onda da duna
o que vir
o que vir
o que vir

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

aos que passam

Escrevo o texto esquivo a modo de conjurar o abismo a vertigem a voragem. Escrevo para o que vem sempre vem está vem vulto da aparição. Escrevo para o que fulgura, o que não houve para o que não é e efetivamente não quer ser.
E ainda que isso tudo pareça um prévio pesadelo. Não revogo as frases. Não revirgulo o sintagma. Mesmo que esprema o claro texto, o que se mostra estará sempre concluído pelo meio.
Escrevo para os que passam para os que se passaram. Para o que nunca estará morto. Escrevo para o nenhum para o que não se aloja no futuro ou no passado para o que não chega a se consumar.
Meu momento é o lugar algum é o ninguém suposto ou posto é o nenhum rosto. Meu lugar é o que se inaugura no instante de cada instante. 

(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)