segunda-feira, 30 de agosto de 2010

vir(a)tual

mil gramas de sem sentido em milionésimos de des-segundos
navios da onda de andar para trás
de andar para o nunca
para o espaço duvido do oculto oco
o fundo
o da tumba do desgosto
o quê da angústia
eco do agudo
o caroço
.

.

.

mas da duna ver o horizonte em veias
o horizonte em cheio
o horizonte de areia de escalda maré
o que vir through da aquinosfera
o que vir(a)tual
onda da duna
o que vir
o que vir
o que vir

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

aos que passam

Escrevo o texto esquivo a modo de conjurar o abismo a vertigem a voragem. Escrevo para o que vem sempre vem está vem vulto da aparição. Escrevo para o que fulgura, o que não houve para o que não é e efetivamente não quer ser.
E ainda que isso tudo pareça um prévio pesadelo. Não revogo as frases. Não revirgulo o sintagma. Mesmo que esprema o claro texto, o que se mostra estará sempre concluído pelo meio.
Escrevo para os que passam para os que se passaram. Para o que nunca estará morto. Escrevo para o nenhum para o que não se aloja no futuro ou no passado para o que não chega a se consumar.
Meu momento é o lugar algum é o ninguém suposto ou posto é o nenhum rosto. Meu lugar é o que se inaugura no instante de cada instante. 

(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

reações químicas

imaginar que não há um deus ou o Deus e que a matéria escura do universo continuará sendo escura ainda, tanto quanto se pode dizer do infinito que ele não é apreensível ou crível


ao crivar cada um dos neurônios em sinapses organizadas, o que descobrimos, o onde chegamos, é que nem biologia nem química nem física nem quântica nem astroquímica nem teogonia mitos nada nada parece aplacar a aqui indivídua consciência de estar no meio de sabe-se-lá-o-quê

passo

mais canoas? andar à-toa... juntar semillas? carpir carmas ler a linha da mão usar cromoterapia acidoterapia aspartame ciclamato vidro quebrado – que diferença faz? é a que o que venho a dizer? que infinita inexplorável indiferença essa no mar do nada através do qual erguemos a nossa trama? mantras órgãos que tremulam repetem mantras e esperam pr'além do corpo, da carne, do espírito encontrar um pairar consciente amplo que acalente e abarque o que cada um somos

bolas de cristal de quartzo de silício qualquer que seja a praia, senda, vereda, seara, qualquer que seja a máscara procuramos mantras que levem ao que ao que ao quê? ao quê?

cada um terá de ver por si
bemol

terça-feira, 10 de agosto de 2010

o ato ator

visitar a criatura
em ato e gesto
as membranas curvas
as cavas universo
visitar o hálito
o quente o úmido
o vulto além do oculto
o ainda sem rumo
visitar na criatura
o que vibra
antes de ser órgão
antes de ser vão


de espelhos.

Melhor seria dizer, de lâminas. Todas as pessoas todas as pessoas com quem encontrava, falava, convivia, altercava, instava, plausia, intercomunicava, todas todas todas com que deparava eram nada mais que lâminas reflexas de uma quase que sua camada. Uma que ainda não sentia e que havia de recuperar reviver refazer regurgitar de seu íntimo. Labirinto vivo de imagens de si que lhe escapavam e horripilavam que lhe ardiam.
Esse era o seu sempre mundo. Mundo limite formado dos reflexos do seu desconhecido de si cenho.

sábado, 7 de agosto de 2010

H

Ele vivia em Nova York, ou coisa assim. Ou coisa assim? Em Hong-kong em Pequim ou Tóquio em Baden-Baden Estocolmo em Dubain. Ele vivia ao meio dia de sua janela e o que vivia via por través dela o que se consumia diante dos seus olhos as folhas de zinco átomos de silício pétalas de fuligem pregas de vigas erguidas desde o horizonte até suas pestanas que ora ardiam.

Ele tomava um café com seus punhos brancos e seu nó atado e seus cabelos engomados e seu esguio ereto a sua estatura perfeita.

Por trás dele se faziam miríades de coisas de que não se vale a pena falar. Faziam-no miríades de coisas de que não presta falar. Só o que neste instante tem sentido é vê-lo ver o quanto aquilo que lhe ia pelas costas e até ali o mantivera erguido nesse dia se lhe afigurou o conjunto daquele triste horizonte que agora lhe atravessava a íris e todas as suas camadas e lhe trazia o que lhe começava a desmoronar.

Foi pro fone:

– Não volto mais.

A secretária demorou uma semana inteira para entender o sentido daquele aviso.

não está

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

no modo livre

se cada um puder ser em si, 
o que será do mi, que busca seguidores? 
o que será do lá, que se construiu em meta? 
o que será do dó, que se erigiu da pena? 
o que será do ré, que se submeteu à lei dos outros? 
o que será de fato 
se cada um puder ser em si e de per si o sol?

pensamento em distensão


escrever

— Não. Porque não é assim que se começa.

— Mas você disse uma palavra.

— Às vezes mais de uma. Às vezes uma frase inteira. Como um sopro. Tom de sono. Mas não é disso que se trata.

— Então é como?

— E eu é que vou saber? Não há saber. Se eu o faço ou se eu faço do modo que consideram como louvável.

— O fato é que ninguém lê.

— Ninguém lê.

— Todo o mundo escreve.

— Todo o mundo.

— E que razão então há para continuar a fazê-lo?

— Nenhuma. É que escrever não está preso a nenhuma razão.

— Não?

— Como eu disse: escrever não se trata de escrito.

— Então de quê?

— Escrever se trata do inaudito.
(extraído do livro uns tantos outros.)