quarta-feira, 29 de setembro de 2010

dezembros

Vermelho turvo espelho, preparam-se as bolas para o grande dia. O dia que será o dia em que se enfeitarão as pessoas em que se arranjarão as louças sobre a mesa em que se partirão as castanhas e nozes em que se comerão as tâmaras os figos em que se tomará o vinho tinto o vinho claro o vinho bolha embaixo da árvore pinheira.
Vermelho turvo espelho, erguem-se as bolas uma a uma pregadas grampo a grampo naquilo que são os galhos da árvore da sala. Vermelho turvo vermelho saem das caixas as bolas e o cheiro que delas emana fustiga as narinas convida o passado a vir. Vermelho turvo arma-se a árvore arruma-se o menino dispõem-se os presentes em beira.
Vermelho turvo espelho das conchas dos convivas as conchas ocultadas de cada um dos dias que vindos passados a contrapelo fazem daquilo um ressurgir de sombras esgueiras.
Vermelho turvo o movimento das mãos a segurar as bolas organizar na árvore o uma a uma até o descuido de uma das mãos que deixa cair sobre o piso num espatifar de susto num descuido de cacos o cada um dos cacos em que se transforma aquela tarde sombra dos dias todos passados pelos cada um daqueles que estavam ali.
Vermelho vermelho um presságio um augúrio de cacos. Estilhaçar estridente silvo. Cacos que fazem ímpar as dúzias de bolas maçãs casca de ovo espelho.
Vermelho turvo o que do passado veio. O que com aguda certeza do passado vinha. Cacos vermelho espelho espalhando-se por todas as tardes daquele dia.

domingo, 26 de setembro de 2010

rayuela no labirinto

Armar a colcha e me deitar sobre ela. Ou sob ela? A colcha de casas. Empurrar as pedrinhas casa a casa. Sobre as linhas. Ver o ver daquela que joga. Mas daquele que tece. Teseu teceu sobre as casas sobre cada uma delas. Pedras. Falar em cifras porque afinal tudo é língua e quem é que garante que seremos entendidos? Que seremos lidos? Universo de vidro que não separa de nada. Estamos aqui matéria pequeninos. Fibra a fibra de um tecido vivo que se deslinda que se conforma que se engendra em linhas em linhas que se reconfigurarão se as deixarmos ali. Só de as deixarmos ali. Só pelo fato de as fazermos linhas de encontros e desníveis e patamares e outras colchas-tapete arquitetadas por outros Odisseus-Penélopes.
Somos vincos ou vínculos em um desconfigurar permanente.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

nheco-nheco de nhenhenhém

A cadeira de balanço fazia nheco pela quarta vez nesta tarde. E ela não moveu uma palha para ouvir aquilo. A cadeira de balanço se mexendo sozinha na sala mas ela via somente o tapete. O tapete de franjas absurdas que ela havia encontrado na rua. Havia lavado. Havia secado. Havia colocado na sala. Agora ali o correr das tábuas se via interrompido por um tapete absurdo... O sol queimava a parede onde se pendurava um quadro pintado por ela um dia. Não que ela pintasse, mas esse num dia ela pintou e pendurou ali na parede para ver o que é que ia. E ele ficara ali. Desde esse dia. Fazia anos já. O relógio da sala, parado, estancava as horas uma a uma.

Ali era que ela só tinha olhos para as franjas do tapete enquanto a cadeira de balanço estalava em balanço pela quinta vez nesta tarde.

As sobras da sua paralisia ocupando-lhe a sala e ela nem percebia que o balanço da cadeira já virara cadência certa de seguidos um dois três estalos. A cadeira estalava em seu assento de treliça de palha e ela não movia uma só de sua parte para olhar para aquilo. A cadeira que agora fazia um nheco-nheco seguido a cada um dois minutos. A cadência cadência da cadeira de balanço e ela nem de soslaio olhava.

O xale do sol da tarde começava a verter labaredas laranja nos edifícios vizinhos. E ela ali. A cadeira de balanço vazia que agora ia e vinha e ela nem se dava conta disso. Estalava estalava estalava num balanço de ritmo que aos poucos a abraçava, mas ela ainda não se dava conta disso.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

quadrante

        Estrato de curvas e matérias-vento. Verbos com fusos. Solidar com pesar cavar véu. Coisas no coisas. Algo em que bato a cabeça quando passo. Na passagem deixo a camisa e me transformo na miragem. Nem há momento. O discernir daqui já é uma golfada de tempo. Verbos com fusos. Quadrante secante almofadar da existência.
(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

a fresta

Esqueça de cada fagulha agulha aguda picando sua lembrança. Esqueça qualquer sensação vivida instante a instante cada momento do vir a ser. Cada minuto cada movimento picado do relógio tique-taque marcando o que você vai ser. Esqueça dos gestos passados. Remotos momentos passados cada toque que pode lhe entrar por todos os sentidos. Esqueça até mesmo aquilo que não te foi perceptível, até a fagulha agulha aguda picando seu ser. Nada nesses próximos gestos deverá lembrar o de que você foi constituído. Esqueça a partir desse momento todo o passado e todo o futuro que você pretendia ser. Esqueça. Este é o lapso, o momento instante. Supremo fecundo abismo abstruso por onde descem as certezas e as dúvidas. Este é o instante, o supremo infinito que te arranca da roda que te arrasta pra vida que te remete ao limite fronteira inaudita o que estava lá fora o momento de agora que ninguém pode ver. Esqueça. 
(Extraído do livro Uns tantos outros.)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

as coisas

conversar sobre as coisas?
falar sobre elas
falar como as coisas
estar por dentro delas
estar nas coisas
derivar delas
devir com as coisas
devir coisa
como coisa nelas

terça-feira, 7 de setembro de 2010

fechadura

mas ele ouviu dizer hoje de manhã que a fechadura da porta de entrada esteve emperrada durante uma semana. E nem por isso escutou. Ficou ali ouvindo.

Quando?

De manhã quando ouviu dizer que a fechadura da porta de entrada esteve emperrada durante uma semana.

Quando?

Hoje de manhã.

Mas quando, na semana passada?

Não, hoje de manhã. A semana essa semana ele não ouviu quando. Só ouviu hoje de manhã sobre a fechadura. Isso.

O quê?

Que a fechadura esteve estragada durante uma semana. Emperrada. A porta de entrada. Ele ouviu. Quando hoje de manhã disseram isso da fechadura.

Quando?

Durante uma semana.

Mas quando

hoje de manhã é o que ele tem seguro. Que ele ouviu dizer que a fechadura da porta de entrada da casa esteve emperrada durante uma semana. Mas só ouviu isso hoje de manhã, não ouviu quando.