quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

de passagem


Eu poderia contar uma história ou uma dúzia de histórias de seres entre a poltrona e a mesinha de centro da sala. Ir até a janela, abrir os vidros, contemplar a paisagem. E o que eu vejo? Vejo o cada um transformado no muitos todos os que trafegam minuto a minuto perante a minha janela. Olhar de mosca. Ver em hexágonos e estarrecer o pêlo à pele de viver esquadrinhado escandido indivíduo no tempo. Perceber o diminuto na passagem de cada passante e seus todos sentidos sentidos entre. Sangue a sangue sentir-lhes o pulsar das fibras para sustentar o corpo erguido no tempo. Solo pisado com ambas as plantas do pé. Esqueleto ereto erigido diante do parapeito da janela. Colho os minutos. Passam os passantes como areia a esfregar-me a pele.
Isso é viver à raiz do avesso. Isso é pausar pela vida. E o que acontece é incompatível com o que se conta em anos. Isso é o desterro. Isto é o silêncio. E todos os momentos.
E não há o que contar, oras. Habitar ubíquo entre a pia e a porta. Prato toalha na mão. Passar café. Adoçar café. Tomar café. Beber café. Lavar a xícara. Habitar o presente do gesto que se expressa. Ultrapassar o tempo é o tempo todo passar.
 (extraído do livro "uns tantos outros".)

sábado, 17 de dezembro de 2011

babel, é claro


        Lia. Lia. Lia. Eu sei que parece nome de mulher, mas era só o que eu fazia. Lia. Lia. Lia. De um jeito, num caldo de rio tão denso, que cada palavra atava-se dentro de mim num circuito, antes, numa corrente, cadeia infinita que dizia muitos sentidos para mim. Dentro daqueles sentidos todos amplos, vastos, poderia dizer infinitos, eu ficava vendo até onde poderia ficar, pois era insuportável os mil sentidos que cada uma das palavras fazia dentro daquele circuito que se não desatava, que se não cumpria. Muitos sentidos, gordos sentidos, inchados de fato, vários que não me levavam a lugar algum. Então, com todos aqueles armários de portas em faces, o que é que eu podia esperar? O que é que eu poderia querer? Aquilo de tantos circunscritos sentidos a se atarem e se desatarem num dentro e fora foi me causando o estranho de olhar para tudo e pensar não dizer. Foi aí que calei. Não, antes, foi aí que desvesti. Foi quando num ato de expressão tão simples como qualquer ato desses mais simples, eu dizia muito do tudo o que eu via estranho desse estranho ato de juntar as palavras. E a coisa vinha, cada vez mais forte, a coisa vinha cada vez mais golfo, me invadindo as ventas, me trazendo o mar, me trazendo o rio, me trazendo o rodamoinho. E eu ainda lia. Lia. Lia. Agora era sempre isso de querer dizer e muitos eram os sentidos e fluxos para onde ia o muito em tudo o que eu queria dizer. E eu só fazia cilindros. Só fazia cilindros. Melhor, só fazia poliedros, porque tinham arestas, isso é geometria? Tinham arestas e faces e multifacetadas formas que às vezes construíam prismas, outras construíam cacos, muitas construíam enigmas a sub-incutir dentro, quase em degraus, essa forma de polifonia. Cacofania. Eu fiquei lá presa. Eu fiquei desdita. Eu fiquei tão só no meu afã de escrever à infinita. Então foi que eu fiz, isso que todos aqui estão a me inquirir. Eu fiz, fiz, farei, farei sempre e faço de novo, como se no tempo, como seno tempo, como que sem tempo estarei fazendo isso de derrubar os livros das estantes.
-- Peço, por favor, que a senhora fale com um pouco mais de calma e seja mais explícita, porque o nosso escrivão está tendo problemas para transcrevê-la.
-- E é o que eu digo! Pois que também tenho esse caos em mim, e ele só o tem no ouvido e no passar para os dedos. É preciso que o seu escrivão entenda?
-- É preciso que a senhora, por favor, diga.
-- Mas é digo, disso, digo dizer do que se trata, antes, trato, nem trato diria porque vem em ondas essa onda fria.
-- Fale com mais calma, quem sabe a senhora não se aflita. Digo, aflija.
-- Percebe? É disso que falo, do que se não diz. O indizível aqui está chegando, esteve sempre aqui conosco.
-- Peço, por favor, que então a senhora se limite a responder perguntas.
-- Como? Não poço! Quer dizer, não posso.
-- A senhora por favor se cale.
-- Isso é o que me aflige, pois que estou calada há muito tempo muda, muda e modificada, estou aqui sem nada.
-- Mas se a senhora ficasse mais calma, será que não conseguiria concatenar melhor as idéias e dizer aquilo que estamos querendo saber de si?
-- Mas o que não... Quem. Está bem. Está bem, vamos ver se eu consigo. O que quer saber?
-- A senhora ouviu minha pergunta: Na noite do dia 13, às vinte horas, onde a senhora estava?
-- Na biblioteca, era o que eu dizia, ou pelo menos tentava, estava fechada dentro da biblioteca.
-- E como foi que a senhora se deixou fechar num lugar a que está habituada, segundo declarou há pouco, a freqüentar? A senhora não sabe o horário em que a biblioteca fecha?
-- Pois é disso que falo, que sei, que sabia. Estava ali fechada, mas fechada mesmo já havia dias.
-- Mas a senhora não disse que chegou à biblioteca para o encontro semanal com seus amigos, às dezesseis horas?
-- Isso eu disse, mas foi uma forma pequena de dizer não dizendo.
-- Então a senhora está declarando que mentiu?
-- O que deito ao seu ouvido é que não posso nada declarar que o faça saber sentido.
-- A senhora, por favor, não comece. Limite-se a responder.
-- Mas é disso que tento falar, é tudo o que tentei procurar; o que me vem sempre em vagalhão, cada vez que procuro responder, é um levantar perguntas.
-- A senhora quer dizer o quê?
-- Agora não quero dizer mais nada, quero emudecer.
-- A senhora por favor responda, então, o que estava fazendo na biblioteca às vinte horas, na noite do dia 13, após o encerramento das atividades.
-- Estava fechada lá. Birinto.
-- Mas isso foi o que acabei de dizer. A senhora por favor responda: o que estava fazendo?
-- Estava fechada, não conseguia sair. Olhava e olhava. Cada capa, lombada, cada livro escrito, cada página virada era um escrever infinito. E por que tantos ditos, tantos dígitos? Um para dizer não digo, outro para falar não falo. Outro para dizer impossível. E, de repente, estavam todos à noite, nas estantes, fechados, cada mundo encerrado entre capas de abrigo. Pensei. Aquilo era mais não dizer. O que seriam, sem a ordem clara, dada dia a dia, pelo bibliotecário? O que seria o avesso da regra, o sem ordem nem vínculo, o que se abre ao acaso e deixa escapar o sentido? Todos ao mesmo tempo abertos, todos ali colocados no chão. Todos misturados derrubados. Deitar fogo naquilo? Não. Deixá-los ao acaso, em desabrigo? Abrir as palavras ao tudo. Cada página em contato com outra experiência de quem sabe-se pouca. Mas, pensei, será que se cortar cada um dos números de catalogação na fonte, mudar a ordem, trazer o caos, espalhar volumes, eles vão querer ler? Arrancar os rostos, arrancar cabeços, destruir os números das bordas, bordas roer. Extrair daquilo só o que cada um poderia sozinho, sem vínculo ou lastro, sem histórico no espaço, poderia dizer.
-- A senhora está afirmando que deliberadamente promoveu o caos, destruiu as obras, arrancou as margens?
-- Não, porque nada em mim delibera, não cálculo, digo pedra, digo fiz e não ficou pedra sobre pedra, livro.
-- A senhora por favor construa uma frase que faça sentido.
-- Para quem?
-- Para mim, digo, para o tribunal.
-- Como posso saber o seu sentido, o do tribunal? Vocês têm tantos livros, procurem o sentido no que eles dizem. Para que precisam da minha frase com sentido? Será que o senhor não vê que só do que trato, só o que chega, são essas conchas, são esses seixos dentro, em correntes, que nos fazem só dizer?
-- A senhora está querendo se fazer passar por louca?
-- Se eu conseguisse ao menos me fazer passar, já seria algo. A loucura é a sua forma de querer me abrigar. Mas por que deveria eu aceitar?
-- Basta!
-- Não descanso louca nem para mim mesma. O que aqui o senhor sociedade declara não me faz sentido.
-- A senhora não compreende?
-- O senhor finalmente entendeu que o que só quis dizer é que não, não compreendo.
-- A senhora, então, quer dizer que não estava em perfeito estado quando criou o caos na biblioteca?
-- Não.
-- A senhora queira por favor proferir a sentença, digo...
-- O senhor está me pedindo o que busco: eu não sei a sentença, que sentença, que sentido? Que corrente, meu amigo!
-- A senhora por favor respeite este tribunal.
-- E por que deveria?
 (extraído de babel, é claro. lançado em 17 dez. 2002.)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

o oco do ocaso (texto na íntegra)


Um ou dois caminhos a seguir. Ficar só diante da encruzilhada. E depois ver desfazer toda linha todo traço toda estrada trilhada. Desfazer na paisagem ficar num entre sem nenhuma quina.
Em pé circunstante.
Esbarrar no nada no nada no nada no vazio vazio no o do nada no nenhum do nada o do coisa alguma nem tela vazia nem areia nem camada nem atmosfera nem um solo onde o pé se deita. Nem um pingo de coisa. Um tão abaulado oco que sequer há o que se possa ver ou dizer. O lugar do nenhum lugar o lugar do nenhum momento o lugar do nenhum estar o lugar do nenhum ser o lugar do nenhum dizer.
E depois ver com as costas das mãos. Ler com a curva dos pés. Cantar com a interseção das pernas e do tronco. Ouvir com o cônvulo da voz. Gritar com a pupila dentro a íris. Gozar com o tampo da cabeça.
Do nenhum, oco do oco do corpo, escapa o oco do corpo prende o oco do corpo um vão que abriga a viga vento irrompido vácuo da vida. O oco do corpo brisa que vibra como camada vazia onda de luz e calor eco das cores do que seja o oco do ocaso sol nascendo cordas tremidas.
(extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar".)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

eu desisto: o prefácio


Eu desisto.
Essa me parece a melhor forma de começo.
Um navio? Um navio o vento e todo todo o mar. E eu vendo. Balançando da janela do meu quarto. Lá de longe. Nenhuma rua, todas as que havia, entre mim e o mar e eu dentro.
Eu desisto, é assim que corre a fita e o silêncio. Tac-tac da máquina duas cores. Eu prefiro o preto. Mas o vermelho se interpõe desde que um dia quis experimentá-lo. E o meu silêncio. Tac-tac de todas as palavras teclas e letras a bater na página imprimir sua marca obsoleta. Eu desisto.
Sempre há uma janela e algo sendo escrito. Sempre há um algo que nunca parece ter sido dito. Sempre fica para frente esse momento em que se captura o mosquito com a pinça dos dedos e dele escorre o sangue vermelho como uma espécie de ungüento. Sempre há uma lâmpada e alguém de pijama. Sempre há um carro lá fora e um inconcluso aqui dentro. Sempre um copo d'água colocado sobre a mesinha. E a chuva e a vala e alguns jornais espalhados. E óculos. Estes não podem não devem não devem nunca faltar. Colocados sobre o nariz de quem quer menos enxergar.
Eu desisto. E a vela. O talvez cigarro o certeiro isqueiro. E a luz que amarela dando um ar de cortina encobrindo toda a sala.
Eu desisto.
É aqui estar sempre sempre o mesmo. O inacabado, o que pede o vínculo, o que calcula traço a traço e cruza largura e altura num trajeto de captura do ultra-pequeno. Eu desisto.
Um ponto é pouco e obstrui; antes um furo um furo um profundo furo na superfície que eu não ainda vi mas que eu invento. Eu desisto; é enfim o meu melhor começo. 
(extraído do livro "um mundo outro mundo".)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

arrastada

Só via cinturas. Das pernas para cima só via o vinco das calças os cintos as formas sem pernas das saias barrigas os vincos dos cruzamentos das pernas as virilhas vindas vindo em sua direção. Só via cinturas cruzando a sua frente a sua mão presa na mão da mãe suspensa tropeços dos seus passos pequenos de pés que eram arrastados no chão carregados pelos pés da mãe. A mão presa o braço suspenso olhar de pernas e virilhas que se encontram nas esquinas que se fecham que se abrem num cruzar trocado de tesouras da visão; contraluz contrastes dos passos dados passo a passo trocar de pernas cruzados a sua frente. Só via passos e cinturas e alguns cintos passados nos passantes e o deitar disforme das saias nos regaços moles a acoitar acolher seus olhos como ventres como panos peneiras de seu ver. Só via eles a passarem num trocar de pernas e elas a colher seu olho a prender a tropeçar sua visão impedi-la seqüestrar o través o atravessar. Só via saias a lhe roubar a fresta do entre as pernas. Só via deitar o pano a lhe colher a vista recolher seus olhos obliterar.
E depois eram as cadeiras sentadas as duas, ela e a mãe, a esperar nas salas de espera. O barulho das teclas infinito bater de teclas e correr de linhas das máquinas. Algumas vezes lhes ofereciam café ou água. Mas o mais das vezes lhes ofereciam só o silêncio da espera inútil. Do ele não vai poder atender agora. E aí era hora de descer as escadas ou subi-las e ganhar a rua em direção a outro ponto em busca de mais uma sala de espera. E era o ver de cinturas que se interpunha entre uma sala e outra. E o mais das vezes banhada pelo cheiro de lágrimas de sua mãe. Seu rosto escorria suor sua mão escorria suor. Sua mãe chorava lágrimas que não compreendia. Só lhe davam o tempero de que de fato aquilo se tratava de uma busca aflita. E todas aquelas salas de espera e todas aquelas cinturas da rua e todo aquele passeio carregado era uma visita ao que não sabia. E aquilo não tinha mais fim. E era um só chegar que queria. Sentada na mesa da cozinha a estalar a língua com o copo de água gelada que enfim de sua mãe obtinha.
Cartas vencidas. Pastas amassadas. Papelão preto. Livros enormes. Grandes gravatas. E mãos com aliança. Gordas mãos com aliança. Algumas mãos magras e alianças. E dedos enormes a virar páginas, consultar escritos. Aquilo tudo pomposo. E quase sempre uma caneta na mão. Anotar num bloco pequeno ao lado. Fechar de livros, de pastas, dobrar de papéis. Olhar para sua mãe com uma cara indecifrável entre o solícita e o enfadada. Escorregar a cadeira giratória para trás. Alguma ordem dada. Alguma folha datilografada. Carimbada. Assinada e datada. Agora era a bolsa a guardar documento começo de mais uma empreitada.
Dessa vez, contudo, seus olhos não choravam. Os da sua mãe. Mas sua mão suava e suas pernas foram arrastadas por mais quantos degraus abaixo. Mais uma sala de espera. Dessa vez era no mesmo edifício. Enorme com piso espelhado em que o pisar era mais fácil de ir. E no balcão esperando. Olhando os veios da madeira do balcão. A lasca de madeira arrancada. O desenho de casas de amarelinha do piso espelhado. Esperar com os dedos desenhando os veios da madeira. Esperar mais um pouco e o olhar ansioso de sua mãe.
Naquele dia, ela se lembra bem, elas não foram para casa. Numa pastelaria sua mãe sentou-a em outro balcão. E o que lhe veio foi uma doce e gelada limonada. Desde esse dia nunca mais foi arrastada por todas aquelas calçadas.
(extraído do livro "uns tantos outros". dedicado a isa.)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

o refluxo das horas


Tarde e laranja. Mosca e nesga de sol, bagaço-cor-de-laranja, sala de estar. Ventre, ar que entra entre cada célula de fibra do corpo quente. Alto-falante anúncio, esquina e mormaço. Tarde, alguma copa, pio, pássaro e fio. Tenda; o azul da abóbada esgarçado sobre as pálpebras quebra-sol. Vento voeja vapor, menos brisa que calor. Calo. Tem som zumbindo o prestar atenção do ouvido. Tem cabana, esconderijo, pestanas em movimento lento vertical. Tendas. A rua azul e distante abafa a presença, pálpebras no ouvido.
Só os timbres da mosca e do relógio da sala de estar. O zumbe, a mosca na luz do ar da tarde esbarra no tique-taque baque-baque mecânico. Espiral e ritmo. Freio e compasso domando aos poucos a neblina sonora e zumbida z... zzz... zzz... z... z... z... zz... z... zz... z... zz. Baque-baque.
Descansam os olhos pelos objetos da sala, as pestanas vão-e-vêm lambendo a atenção. Pairam, pousam no ponteiro dos minutos que começa a fazer o movimento contrário. Lento pousar atento. Algo para fixar a vista. Ponta ponteiro a andar para trás. Leve, traz consigo as horas passadas. O ponteiro do relógio da sala a rodar para trás. Começa a comer os minutos. Perder, voltar, o refluxo das horas. Lentamente atentamente olhar e ver o retorno. Vem vindo aos poucos, moscamente, o tempo devolvendo os instantes anteriores. O ponteiro do relógio da sala rodando para trás. Instantes vividos, pestana esconderijo. Ouvido atenção zumbido. Surdo. Voejar de vapor. Quebra-sol de pálpebras no azul esgarçado em tenda. Fio, pio, árvore venta. Mormaço sonoro de voz amplificada oferecendo. Respiro, suspiro corpo cor-de-laranja recorte de sol. Pele e estar de tarde, na tarde. Sesta. Sento.    
Membros, cabeça a pouco. Um só recostar. Olhos de areia dentro. Estar de tarde na sala, nesga de sol. Café. Almoço. O relógio dá as duas e meia. Há pouco mesmo eram três e dez. Ponteiro de minutos a rodar para trás. Aqui do sofá cabeça almofada olhos e peso sobre o relógio lento tique-taque sonorizando o ar entre as paredes e o assoalho de tábua corrida. O ponteiro das três e dez indicou as duas e meia agora há pouco. Como?
O ponteiro de minutos a rodar para trás devolveu a hora anterior. Não pode ser! Súbito. Não. Sonhou razão? Não olho para trás porque tenho a certeza de ver os momentos de futuro que já vivi. Acordada. Ao final do almoço. Olho o momento presente com a consciência futura do já vivido. Pausadamente vivido. Nalguma fresta entre a realidade e o que se interpõe nos sentidos. A consciência de que já dera as três e dez. Mas eu estava dormindo? Dormindo, não, recostando. Olhos pregando a sesta, aos poucos vindo, a cochichar  percepção na sala de estar e eram três e dez. Lembro exatamente quando comecei a olhar. A poucos minutos daqui, na verdade quarenta sonolentos minutos não são quantidade de tempo a que se dê valor ao perder a noção de tempo.
Chegaram as três e dez? Não sei bem, começo a ver... Não há certeza de nada que eu possa ter. Mas... Relógio da sala? Quando? Agora vejo. Meu estômago-fome na hora do almoço, na cozinha sem me lembrar de aqui ter vindo. Na sala, relâmpagos atrás, são dez para as duas. Pode ser? Que sentido isso? Não me lembro quando deram as horas aqui. Lembro bem do momento em que vivi serem as dez para as duas, desliguei o telefone, também, você para beijo um. Quê?
Fagulhas meteoro-consciência. Cada instante. Vem. A janela do quarto trepida ao vento, olho. Relógio pequenos ponteiros no pulso a contar doze e trinta, marcando vêm. O passado passando pelos meus olhos e sentidos; onde é que vou parar esse momento? Refluxos de segundos andando depressa, comem os minutos as horas atrás. Vê-las. Lembro com menos esforço porque vivo novamente o que passei há minutos. Repasso, agora. Lembro com a memória que ainda não tenho nesse momento. Passo. Passa. Manhã. Manhã cedinho. Anoitece madrugada adentro. Ficando cedo à noite, comem-me as horas. Crepúsculo é aurora, o dia de ontem nasce às seis e meia da tarde.
Chave.  A porta a soleira a calçada a rua. Degrau escada, esquina. Meu Deus, onde é que pára? Momento rumo, onde não há sentido, aqui. Filme rodando para trás. Vãos. Quase meses? Quantos meses? Mão nos olhos! Vejo dedos, papéis e copos, óculos, buzinas, pernas e pés, corredores e salas, imagens em tubos, sorrisos, vestido vermelho, moedas no balcão, botões de máquinas, água quente, lanternas, mãos, aparelhos, mãos, não as minhas, mãos com pêlos, mãos sem pêlos, ponteiros, anéis, canetas, freios, pianos, placas, folhas e nuvens, letras escritas, risos, bocas, bocas e números digitais, bocas e faróis, bocas e vermelhos, meio-fio, mensagens em letras garrafais, avião, árvore-árvore, dentes e bocas, conchas, línguas e bocas e saliva, cadeira, janela, chuva, cigarro e escuro, rabanetes, cabelos ao vento, chão, chaves e portas, caixa, lâmpada, gatos, pneus, flor, homem, sorriso, livros, mulher, guias, pedra garrafa e cacos, olhos, olhos, olhos, mãos no abdome, cólicas intestinas, lâminas-medo. Luz.
Agora sinto. Pálpebras. Olho escuro. Penso. Pêssego. Pele. Espelho. Meu cabelo de cachos curtos, arranhão perto da boca ardendo, ardendo. Olhos escuros, pele de pêssego. Uma menina no espelho ôlho/olho de dentro dela. Dentes-de-leite, lábios brilhando vermelho-escuro, boca pequena, sorrio careta língua molhada olho para mim, olho para mim. De dentro vejo os meus cinco anos a menina que fui sou ainda sendo.
 Queria ver como eu era quando eu soube serem os meus cinco anos o sonho projetado de lá, daqui, quando eu sou adulta. Sou essa eu que era eu, sempre soube. Vim aqui adulta ver de perto porque sempre soube que o presente, eu aqui criança, não passava de um instante, um pensar sonhado de quando eu já era grande. De quando eu já sou adulta. Quantos anos eu teria quando adulta? Agora eu sei quantos anos eu teria a fio. Teria vivido em vãos a vida a resgatar esse instante/mina a olhar para mim. Vendo só eu mesma e saber ser projeção de meu futuro adulta essa consciência. A fragilidade o tempo a vida.
Agora aqui me reconheço o rosto o arranhão e o sorriso carmim de boca vermelho-baba e pequenos dentes. Sinto aqui de dentro a olhar para ela e ela para mim.
Mas quem mesmo somos essas duas formas que me desconheço? Abismo. Semblante no espelho, vejo a criança, sou-a adulta, dentro aqui num corpo e o que venho a ser? E quem venho a ser essa aqui instante comprimida inteira passado e presente que se corporificam num olhar no espelho? Quem mesmo?
Cada experiência minuto a minuto perdida para sempre dentro de uma caixa escura a guardar memória que transformo e teço a todo o momento. E aquilo que não teço na memória urde-me o corpo, estremece-me o corpo, cada membro quente e o meu sangue dentro a correr nas veias. E não me reconheço.
Olho agudo para o espelho e vejo o corpo que sou estranho corpo de quando sou criança e penso quem sou cada vez que encaro milímetro a milímetro essa cara no vidro. Penso: é o estranho rosto da criança com o qual não consigo me familiarizar, mas é a criança quem olha estranho para si, lembro bem desse momento.
Olha estranho e não se reconhece -- agora é próxima essa experiência que tantas vezes tive e de que tantas vezes tive medo. Olho-me, como me olhava, no espelho e não vejo, como não via, em meu rosto algo conhecido ou alguém a quem reconhecer. Quem era e sou a menina tão pequena? Quem sou e fui essa aqui adulta a me olhar do espelho? Estranha, a ponto de parecer outra pessoa essa que me olho no espelho. Onde é que estou, mesmo? Quem é que sou, mesmo? Abismo.
(extraído de Babel, é claro; publicado em 2002)