sexta-feira, 29 de abril de 2011

ante o passado

Filtrar todas as linhas que passam pelos meus olhos. Semblar-me às cores aos picos de ar às gotículas. Vapor da terra poro do espírito corporificar.
Pela madeira do piso eu conhecia quando ele chegava. Parava diante do espelho da entrada. Depositava a carteira e o molho de chaves sobre o aparador. Pela madeira do piso eu conhecia no que ele pensava. Sapatos gastos. Suspensórios altos. Chapéu pousado ao lado do espelho.
Pela madeira do piso eu desvendava todo o seu dia, raspas de ferro, roldanas fuligem e o barulho do motor. E depois colocar a gravata atada ao colarinho colado no pescoço. Entrar no automóvel e vir para a casa. Pela madeira do piso eu conhecia tudo o que o esperava a casa vizinha a sopa e a cozinha o corredor e as fotografias penduradas.
Pela madeira do piso eu conhecia quando era dele a passada.
Mas isso na verdade não era ele e nem nunca aconteceu. Eu dele nunca soube nada. Só o que conheci foi a madeira do piso que eu soube que por ele um dia havia sido pisada.
 (extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

domingo, 24 de abril de 2011

omem na estrada

O o na estrada. No céu gema de ovo estrelada. O omem vindo é um nenhum que passa. Omem não na estrada. Salto no vazio, universo frio, ando a passo passo cada um dos passos. Venta e não deixo pegadas. O que não veio, nem ficou no meio do cheio. Atravessar de ponte sombra projetada no curso da água, no fundo de areia, nas pedras roladas. Venta nomem cabelo e não penteio para não se me despregarem os fios. Calva cabeça ovo de osso e carne e muito sangue rio. Azul é o céu de dia. Ventam alguns fiapos de nuvem enquanto passo os olhos pelo ar. Estou nenhum.
Passo a passo a distância conseguida é o nenhum também do caminho. Não na estrada. Nem na floresta, nem um sulco que seja deixado, nem leito de rio, nem correnteza na vaga. Turbilhão de vazio o que preenche o peito. Deixar-me a nau do desconcerto. A viga que sustentava cedeu faz tempo. Agora é casa desmoronada, desmorada. Agora é um o na estrada. Que se construam todos os barcos para atracar em muitos portos, eu irei nas velas.
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Desci o caminho traçado pela beira. Não alcancei ninguém que estava adiante de mim. Não tive paciência para esperar os retardatários. O passeio, algo longo, estava finalmente se tornando solitário. Os da frente eu via pelas costas, cavavam com as solas cada caminho adiante. Não paravam. Os passados parados a contemplar as folhas e as interessâncias que a natureza pode interpor no minuto adiante. Isso eu pretendia se não estivesse repleto de tanto vazio. Andava, seguindo somente, sem olhar ou ver. Só seguia aquelas costas voltadas para mim, aquelas costas e seu empenho intenso de chegar ao final da trilha. E na estrada.
De repente comecei a enxergar o impossível de segui-los, detê-los no meu caminho. Nem mais um passo parado eu dei. Enxerguei que nada me faria atravessá-los com a minha voz, eles que estavam tão distantes, eles que se precipitaram à frente do grupo. E nem para trás minha voz seguia, estava acolchoada dentro do meu peito num silêncio de zin. De repente comecei a ver o que de mim fazia, ali no meio. Entre a frente e as costas. Intercalado no momento. Estive a ver que ali do diante de meu corpo era o ímpeto de alcançá-los. E do de trás de mim era um querer parar. Mas não parava, prosseguia, nesse silêncio zin que em meu peito se paria. Parto do o, do ovo do vazio. Parto traçado como brecha, vão entre o qual e o qualquer que ora se fazia entre a fenda ventada. Parto da frincha. Ninguém na estrada.
O lado que se me começou a sentir ardia ardia do Sol daquela hora da manhã. Um sentir quente, que me completava a vida, mas que me fazia no contraponto sentir o quanto a outra mão (a da sombra) estava fria. Encontrava o calor e precisava mudar de lado. Assim inaugurei de andar ora para a frente ora para trás. E aquilo era um exercício e tanto; temperar o corpo sem chegar aos da frente e aos ficados. Na distância do tempero de esquentar as mãos ao Sol daquele dia frio. Andava andava e sempre estava a meio caminho. Ali do riso do que consegui pude viver o o da brecha. Criar do momento a cada momento de calor conseguido me fez sentir que navegava ao sabor do que era para mim o sentido da estrada. Calor das mãos e calor do corpo.
E foi assim que aqueles que passados encontraram-me ao final de algum tempo: "O que era que você fazia?" "Esquentava minhas mãos e o corpo." "E nos esperava?" "Talvez esse tivesse sido o meu modo de dizer sim", ainda que não à sua estrada. Seguimos juntos e o Sol erguendo-se ao alto e o calor dos passos e as pequenas frestas que se acham e as fagulhas que se enredam e as cortinas que se levantam para o que é que parado aqui posso ir esquentaram-me a alma. Agora omem a vagar vadio em nenhuma estrada.
(extraído do livro "uns tantos outros".)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

com a palma da mão


O que é ver com a palma da mão? O que é ver? Autoestrada. Areia e terra misturada. Veios de asfalto e nenhum guard-rail. O que é ver começo da mão? Com a ponta do dedo libertada do chão?
O que é ver começar de matéria a matéria. Começar de molécula a molécula. Deitar olhos virgens olhos que não são olhos.  Olhos que não olham que tateiam o plano do que se dá ali a ver.
O que é ver com o começo da carne? Os lados da fronte o viajar do sangue por toda toda aquela matéria. Aquela que não é só um. Aquela que nem é inteira. Aquela que só se completa quando em causa em coisa em coligamento. Aquela em vir que não se atém na pessoa. Aquela que não tem nome.
O que é ver com a matéria? O que é ver como matéria? Essa que toca irrompe. Essa que não está presa na comissura dos lábios dos olhos do nariz na comissura da fronte.
Algo que bate em mim e não me deixa tranqüilo. Algo que trouxe. Algo que trouxe. Ver agora agora aqui desde a pequena parte desde o pequeno ver desde os olhos que ardem desde o que desde o início não estava previsto ser possível de acontecer.
Como um corpo. Como poros. Como pólen-esporos. Pousar por todo lado como algo que está em algo como algo que emerge do ubíquo como o que novo modo de estar desse lado.
As dimensões do onde. Não se contam dez e seis seis e cinco onze? Onze? Somente como um assim. É preciso ter corpo para ver.
Agora que tudo se implica exprime-se a frase primeira ‘gora última a dizer: ele era músico ou físico e contra tudo isso que inequaciona de improviso não há nada nada nada que se possa fazer. Ou dizer.

(extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar".)