quinta-feira, 26 de maio de 2011

por vir


Não encontrar mais que pessoas. Não poder dizer assim assomam-se as ondas. Nem chegar a senti-las todas. Ficar ali na pequena cadeira em que se sentava e ficar e ficar e ficar aguardando ainda algo que está por vir. Por vir.
Com um mesmo sorriso toda tarde cumprimentar quem por ele passa. E dizer sempre, comentar, as mesmas coisas. Como se vinte e quatro horas bastassem para sempre o mesmo parecer outra coisa. Estar no meio do caminho. A meio caminho de nada para ser nenhum. E ainda queria. Ele queria seja lá o que fosse. Todos os dias eram a primavera de seus desejos novos. Os mesmos de sempre. Os que lhe davam a ilusão de mudar todos os dias. Mas os mesmos.
Isso era um seu lado. Por outro lado nele havia aquele bater de outra esfera. Seja o que fosse isso. Ou não fosse. Ele dizia do eterno o que não queria ver mas sentia sentia sentia isso todos os dias e nem a força de toda a sua pessoa se sobrepunha a esse motor que já lhe que desde antes do sempre lhe rugia.
Isso nas mínimas coisas. Quando convivia e quando não convivia. Quando estava tranquilo e quando o medo lhe batia. No pegar de uma lauda. No colocá-la na máquina para operar a cópia. No atender ao telefone. No chegar em casa à noite e deitar-se na poltrona. No manusear do controle remoto, esse eterno já lhe ardia tanto quanto quanto quanto lhe fugia. Fugia.
(extraído do livro "um mundo outro mundo".)

terça-feira, 17 de maio de 2011

o momento instante


Lendo o jornal de manhã. Grave como um semblante que vê nas notícias o que vai pelo mundo mas o que está por acontecer. Grave porque no fundo para ele aquilo pouco importa; isso é o que o papel da notícia lhe revela.
Ele está em casa. No sétimo piso de uma armação de cimento e arame que se chama prédio. Ele larga lá as notícias como elas estavam e vai até a janela ver o que é ver o que está será ali a acontecer. Nada na verdade está a acontecer é o que sei o que posso sentir. Nada é verdade nem o estrondo do prédio em frente penetrado pela aeronave. Nem as ondas que abalam o dia de muitas inteiras cidades. Nem a guerra que bomba a bomba colocada ora ali ora ali bem ali nunca no lugar onde ela deveria estar. Eu sei que vivo apartado desse mundo esse mundo inconcluso que se erige sem nenhum outro sentido do que ser movido por forças de borrascas que arrancam o que se prescrevia como sendo o caminho.
Ele nem tinha tomado o café da manhã quando ouviu a porta ressoar a campainha. Aquilo era um barulho estranho antes das sete. Não foi abrir. Ficou lá na sala em pé. Roupão aberto com o pó do café a recender o cheiro torrado pela sala. Ele ali e a campainha a tocar e acordar o dia de um outro modo, estranho e diferente do que ele sabia. Ficou parado ali o jornal largado ao lado. O café a recender e era lá do outro lado da porta o quê? a me interpelar a me querer ver? Era o quê? Ficou ali cara de grito esperando que aquilo passasse que aquilo terminasse por acontecer do outro lado da porta sem ter de me envolver. Mas era a campainha da minha porta que insistia em me fazer ver. Era aquele som que agora soava e me aguardava para averiguar o que é que seria. Ele ali em pé sem ter aonde ir mais o que fazer o que cumprir pra onde fugir sem nem ver o quê. Esperava curvo no silêncio branco que aquilo não fosse nada nada a me acontecer.
(extraído do livro uns tantos outros.)