quarta-feira, 29 de junho de 2011

ainda um


Tudo está comprimido no pacote que trago nas mãos. E o que trago nas mãos fora o embrulho de mil folhas e volteios que embalam o quase nada de recheio? O que amarro no caminho ao dar meus passos pelos passos na calçada aqui sozinho?
Quilômetros de revoluta matéria. Quase etérea de tão vã. Quilos de descomunais esquinas dobradas vencidas ao desdobrar de um plano. Que menos o meu aviso o que veio o de que me avizinho quando ando pelos cantos pelas beiras sem nada querer encontrar.
Traço da noite e da incerta empresa de viver de seguir de completar esse existido estar.
(extraído do livro um mundo outro mundo)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

a fenda


o que vejo é que
o que antes de tudo sucede é que
Deus olha, muito antes,
Deus olha antes de ver

 
Subindo a escada, degrau a degrau, galgando até encontrar a estrada. Confabular burburinho olhos sorrindo crianças no ninho, crianças rindo, pedra pedrinha da floresta.

 
Eles vêm olhamos juntos e vêm estranhos alienígenas quase sauros línguas compridas bifurcadas eles andam olham-nos e também têm linguagem seres estranhos estranhos seres vivos, conscientes de si como nós confabulam burburinho aqui também ancoraram.
Foram feitos em tribos nascidos criados e crescidos no ventre dos mesmos ancestrais. Sua ciência assemelha-se a uma liturgia que combina as reações químicas às danças e ao cântico das línguas tremidas num ritmo num compasso que desconhecíamos. Dessas combinações inauditas geraram novas vidas que julgamos alienígenas forjadas em longínquas instâncias da Terra.
Em pouco tempo de convívio percebemos que, agudos, eles nos queriam o lugar, nosso ar, atmosfera, eles queriam nossa água, nosso trigo, nosso mel. Percebemos por esbarrares de ombros por caminhos percorridos com o igual objetivo. Configuramos o perigo. Ameaça constante vê-los passar corta-luz ofuscar entrevisto ocupar nossos momentos. Seqüestrar nosso ar, o lugar, a água e a quimera. Eles queriam nós queríamos o mesmo.
E assim entrebatidos encontrões e desafios nossos corpos fomentavam no convívio equívoco o latente inimigo entranhado e sanguíneo esgueirado espremido engendrado no ativo do encontro de corpos em busca do mesmo lugar. O mesmo lugar na malha do espaço; ocupar o O com nossos ossos não os dos outros.
Nesse incitar permanente, adiávamos, nós e aqueles, o conflito final. Até que de um deles, não sei bem ao certo, veio um dia a sugestão da forma como deveria se dar o combate derradeiro. O jogo infantil de brincar de encarar, brincar de sério, quem não baixar os olhos quem por mais tempo sustentar o olhar nos olhos do outro aquele que não recuar é será o vencedor. Acordados quanto ao simples da regra, bastava que todos informados em pares de inimigos conflagrados se pusessem à tarefa de trocar o olhar.
Pouco a pouco vimos caindo fora do jogo todos os que julgávamos humanos, todos os irmãos, todos, um a um, deixaram o campo de batalha vencidos olhares baixados.
Nesse vento do sobráramos dois, um deles eu um deles outro, fiz meu olho no mais lento numa curva o olhar intenso deitando no outro o olhar.

E quando menos esperava e dei por mim no espelho dos olhos do outro, no fundo daquela fenda vi a mim olhando a mim encarando olho a olho, vendo o olho do meu olho, no olho do outro olhado. E quando vi eu vi eu vi um era do outro o olhar.
(extraído do livro "uns tantos outros".)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

o bigode como escova

Ele vinha para mim se arrastando se esgueirando. Apoiava sua mão no meu ombro. Olhava furtivamente para trás. Olhava-me no fundo fundo no mais transcendido do meu olho e dizia: Eu ainda disso não posso falar.
Sussurrava por entre os pêlos do bigode, que usava, parecia, à guisa de cortina. Ele sussurrava no meu ouvido fitando o mais transcendido do meu olho. Sussurrava, voz de suspiro. Voz abafada pelos pêlos de cortina: Eu ainda disso não posso falar.
E depois voltava para o seu canto. O canto em que nenhuma faca de fresta de luz incidia porque era o canto que era um como que não estar ali para que pudesse ser visto. Um canto que só podia saber que havia quem pressentia que nele já vivia.
(extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar")