quinta-feira, 31 de maio de 2012

peregrino


Síncope dos pequenos dias. Vou contar todos os presságios que tive antes de dar o primeiro passo. Síncope das noites encapsuladas das nuvens mal-paridas das estradas mal-encontradas mal-assombradas por pessoas vivas.
Era de um antever toda a sombra que eu via. A longa vista longa longa longitude aquelatude paralelas margens rodovias. E linhas interrompidas e contínuas a seguir infinitas. E o horizonte ao longe do olho. E ao lado do rosto e ao lado ao lado. E isso era uma antevisão do que realmente eu ia.
Começava pelo degrau da porta de casa, atravessava o jardim. Ia por pedras ia pequeno. Depois, era ganhar num passo a calçada. Esse era um pelo menos início. Mas antes de chegar à guia antes de descer no asfalto já toda chuva de agulhas me atingia e sem mais um passo adiante eu estacava. Recuava. Recuava. Voltava ao jardim subia de ré o degrau cerrava a porta dava duas voltas inteiras na chave.
Era sempre assim que eu começava. E nunca era para mim difícil ir à padaria, ao mercado, à praça próxima à quitanda. Nunca era para mim impossível conquistar esquinas e ruas alcançar longas distâncias. Desde que me assegurasse de que não tinha ainda dado início àquela jornada.
(extraído de um mundo outro mundo.)

sábado, 26 de maio de 2012

abordar da cor


Fenda que abriga a matéria. Cratera. Ar de calcário e osso. Absconso. Rosnar de entranha. Saliva de língua que ondula contra os dentes. Captar de micromatéria. Cripta do desolo. Ali era seco e não havia por onde escapar. Era preciso subir ora subir ora descer quase sempre rolar. E a calça repleta do pó bem fino que amarelo tingia tudo. Ali era uma espécie de escarpa. Uma trajetória em garganta. Uma espécie de abismo. Nada era escuro ali. Era tudo colírio de um amarelo cor de ouro ouro seco seco a seco corte seco cor de brilho. Mas de brilho fosco. Ali era o oco do oco. E resfolegava de abismo. Resfolegava de uma espécie de fuligem vertigem cor de pólen amarelo de um amarelo cor de ouro. Cores colírio a ensolarar a vista a linha que havia que distribuía o horizonte em escarpas de planos de amarelo ouro ouro de ouro seco ouro de outro ouro outro de ouro fosco. Ali naquele amarelo sem fim de um ocre gema cor do sal que sai de tanto secar ao sol. Amarelo fuligem a resfolegar aquele pequeno pó que já tingia além das botas das pernas das calças já tingia as mãos. Amarelo ocre quase um quartzo de sol de salícia de solíssimo o solo solo que só poderia secar daquilo. Amarelo cor de pigmento têmpera e chegava até as polpas dos glúteos subia pelo cós da calça transbordava cintura acima e tomava já os antebraços amarelo de um amarelo tanto que não se assemelhava com nada que não se contrastava com nada que dali só havia ele amarelo a tomar até o pescoço todo o rosto os fios fios do cabelo liso. Amarelo de abismo que ora garganta ora escarpa amarelo de chão de piso de pó bem fino que nunca se soube que havia pó tão fino não. Amarelo amarelo de abismo que se rasga no chão amarelo de goh de goh de goh de onde vinha aquele amarelo que já me tomava os frisos dos dedos que já me cobria a mão. Amarelo pó de ouro pó de outro amarelo que me impelia a esfregar as pontas dígitas que se impregnavam por dentro de mim sem deixar espaço para mais nada que não os finíssimos grãos de poeira que imprimem ali cada passo da perna que ora galgava ora descia sempre rolava por toda aquela imensa superfície abismo que ora roubava ora impelia. Seria o amarelo então.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

o que habita no fundo dos homens


Na sarjeta. Estava. Há meses. Não conseguia compor. Não conseguia falar. Assistia ao mundo de dentro de si. Assistia. Só assistia. Os de fora faziam contato feito visitantes de um aquário. Passavam de fora. Dirigiam-lhe umas palavras e ele só via isso e não entendia o que é que podiam querer. Aquela língua não entendia. Nada nos de fora lhe era familiar afora o fato de serem humanos. Afora. Isso, mais nada. Aquele buraco no qual se escondia. Aquela toca em que se via metido. Aquele canto. Escuro. Canto escuro de todos. Aquele silêncio. Aquele oculto em que se metera. Aquele escuro. Aquele aquilo. Um silêncio e um não querer proferir uma palavra sequer. Só rosnar. Babar de quatro no chão. Só virar bicho. Em meio a excrementos. Mijar na sala. Na parede, sem considerar as convenções. Ser à solta. Solto fera animal. Rosnar, grasnar, ricochetear, ranger. Ser a ponta. Bicho desligado do resto do mundo a me supor. Bicho apartado. Comendo gramíneas. Vivendo no estábulo. Eu estou aqui mesmo oculto. No umbigo do migo. Aqui estranho. Quem vem lá? Do lado de fora? Que me reconhece nesse instante agora?
Seus olhos encontram os meus com muita freqüência, no silêncio. Em cheio e não de soslaio, de modo furtivo. Seus olhos me encaram como a indagar-me constantemente quem sou. Essa pergunta algo funda me deixa um tanto desamparada. Preciso de teclas. Meus dedos tremem, você pode ver? Sou na medida em que percebo o que do outro é capaz de me perceber. Eu estava lá e não sei ao certo até que ponto o compreendia. Eu o assistia e recebia com minhas mãos. Queria ver se era possível ele me explicar de onde é que ele vinha. Para onde é que ele fora? O que o impulsionara àquele gesto extremo, o que o levara? Quando tudo é vórtice, voragem, anel. Rodamoinho onde tudo pára e o que quer que sejamos não é capaz de conter. O movimento sem fundo. O ato sem medo de deixar-se escapar pelo ralo. Deixar de ser para fora. Olhar-se dentro, até o avesso, tocar com a planta dos pés, com a ponta do dedo da mão. O que comigo guardei aqui nesses meses foi um rodamoinho bem fundo. O que sei. O de que preciso é sentar-me ao piano. Tocar, tocar, cada uma das teclas ao toque de seu dedo cede, dura, reta, abandonando as vizinhas teclas. As cordas do piano tecladas cedem à imposição de seus dedos. Reconhecia que ali estava inteiro um homem. Constituído de si. Voltado. Um homem acordado como poucos são acordados. Um homem livre. Capaz de sustentar seus sentimentos. Capaz de conter o que sentia e aplicá-lo na ponta dos dedos. Não à pergunta. Eu não poderia agora perguntar-lhe o que lhe ia por dentro. Se ele respondesse era porque iam-lhe idéias, e eu o contemplava ali inteiro entregue aos seus dedos e ao piano. Não à pergunta. Jamais me deixarei conduzir novamente para longe dessas teclas. Era tudo o que eu queria. O que eu queria era supor que houvesse um grau elementar de possibilidade de ele movimentar-se em direção ao seu sustento. Digo como coluna vertebral, como espinha dorsal. Talvez devesse trazê-lo para fora, para a luz. Talvez devesse interpelá-lo. Não precisa de água, não precisa de pão? Não precisa dormir? Dormir é o único movimento que posso fazer para aquém da música. O quanto dormir me ultrapassa? Quero ver o quanto de mim quer essa música antes que eu ceda ao sono. Tocar. Tocar. Tocar. Variar dedos e teclas. Roçar o teclado. Mais que ouvir, tocar como se só tenha dedos para isso. As mãos. Precisas e rápidas passando sobre o teclado. Tocar. Tocar. Piano. Rápido sobre o teclado. Aqui há vãos. Há frestas. Meus olhos encontraram os seus, isso foi o suficiente? Não pensei que fosse. Não pensei que existisse. O quê? O eco! A reverberação dos mil sentidos que pode ter cada um dos gestos. Não há nada aqui que possamos comer. Ele não fala. Ela não diz. Quero ver qual de nós cederá. O que é que nos ultrapassa. O espesso. O fio das teclas a cortar os dedos. As pontas, as palmas. Do pé ao piano aos movimentos lentos. Talvez eu o pudesse compreender. Digo. À sua música. Mas não posso. Nada me atravessa mais nesse momento do que contemplar seu rosto. Acompanhar seu movimento. Ela me olha e eu a vejo. Estou aqui mas a vejo. De fora, a vendo. Vislumbrar o fora, habitar externo. Comunicar é não estar em contato com o outro extremo. Eu tremo. Olhos em trincas de sangue nos globos brancos. Escuro. Há mais luz em algum lugar dessa parede. Eu não posso mais dizer nenhuma palavra. Eu não posso mais te enxergar daqui. Mas o fato é que você me vê. Você daí. E o que você vê? Que eu estou aqui solto. Sem nada pregado a mim e depois, como que por encanto, aos poucos, começo a enxergar os seus olhos. Seus olhos me viram e isso fez algum sentido? Um movimento seu na verdade me mostrou o quanto movida você estava por alguma coisa em mim. E não era música, talvez eu devesse lamentar. Talvez eu devesse me desculpar. Mas o fato é que você está aqui de fora e consegue ver e se incomodar o suficiente, a ponto de isso mover algo em você. A ponto de eu e a música não sermos mais um contínuo. Por agora, ora. Instantes se quebram, se perdem como as notas que não tocamos, não anotamos nas teclas. Mas há intervalos. Intervalos de respiração. Há o pulsar ininterrupto de algo que precisa tocar. O tempo todo. O tempo inteiro imprime-se na pele da ponta dos dedos dos nervos das dores. Algo como uma mecânica que não pode parar: é maior que mim. Mas um pão, um pouco, num copo que seja, de água de leite ou de vinho? Um cigarro que se acenda? Isso na verdade é quase pouco. Intervalo... Espátulas que arrancam ocos de dentro da gente. Dedos, teclas. Ditos dígitos. Todos os dizeres vêm assim, aflito. Isso é um não calmo mar. Leite que deita seu caldo por entre as frestas. O espaço de não tocar. Olho olho para você. Aqui é que você se esconde. Trincas nos olhos. Meu trajeto é injetar novamente os globos e me fechar. Eu não vou mais querer passar. Parecia assim tão claro e lá está o olho feito pedra, feito vidro a varar o ar. Atravessar. Pulso, punhos. Cesso. Acesso. O quebrar da música. O quebrar do vento.
(extraído de uns tantos outros.)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

caligrafia


É isto: letra letra letra que se transforma em desenho qualquer em contorno ou linha em arabesco rabisco pela superfície lisa. É isto. Ornar a página de improvisos deitar palavras ao próprio risco. Servir de onda linha coleante serpente enovelante enovelada em névoa lenta a enganar todo passante.
Estragar várias páginas de livros. Estragar a vista dos sem aviso. Estragar o dia o dinheiro a coragem o tempo. Perder toda a viagem com o cinza o grafite o lápis a lapiseira com o que não se apaga com um simples risco.
É assim: escrever uma fileira infinita de bagulhos imprecisos.

(extraído de onde houver vida a vida haverá de vingar.)