terça-feira, 30 de outubro de 2012

botas



Botas. De bico arredondado.
Couro. Couro não tratado. Seco. Duro. Descascado.
Olhava para os pés e os via de frente. À altura dos olhos. Como se deitado seus próprios pés estivessem a um passo de pisá-lo.
O piso? O piso era de barro pisado. Batido. Vermelho úmido um piso esmagado.
Deitado ali só via os pés a um passo de pisá-lo.

(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

biblioteca



Biblioteca rima com perereca e estalos de luz. Labirintos vibram circunscritos na solidão dos órgãos.
Som dos sinais entre as curvas de metros que descrevem os canos delgados e grossos tubos que jorram os destroços da nossa alegria à mesa. Banquete despojos que vão chafurdar na água límpida navegar nas paredes cano canos de lata ou de cobre ou de concreto para dar em mar aberto.
Biblioteca rima com perereca e estalos de luz. Labirintos vibram circunscritos na solidão dos órgãos.
Bibliotecas são estrelas abertas ensaios de luz. Labirintos lançam imprevistos na imprecisão dos orbes. 

(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

nem vapor nem líquido ou sólido



Ele começa a compreender, portanto. Começa a ver que agora não mais, não menos, não nunca, em tempo em vento em movimento intenso e vulto. Ele começa a ver, portanto. Começa a ver. Está deitado na praia. Está prestes a sentir-se vivo. Está na iminência de sair do perigo. De penetrar cada vez mais íntimo. Ele começa a ver o Sol. Ele começa a ver a areia. Ele começa a sentir que por dentro de suas unhas não há mais uma carne que possa chamar de sua. Ele começa a ver, quem sabe. Ele começa a ver que não pode mais ser chamado: Eu: desatino de encontro: Eu: número intercalado estratificado pelo preciso pelo parede ato. Ele começa a sentir na ante carne que na ante carne há um movimento há uma vara que trepida e vibra há uma linha para além-aquém do que se possa chamar de ele começa. E isso é só um começo. Isso não é o que ele de fato o avesso. Ele numa onda do instante ele num ante passo adiante. Ele ali. Onde. Ele hoje ontem.
Ele e o que se possa dizer do nenhum. Mas vem a caminho. Circunavega onde sei lá que vícino. O que se avizinha. Escapa do mesmo mesmo mesmo espaço segue até a fronteira. E uma volta inteira. Ele não está de pé. Ele sequer sabe como é que se deita. Ele não pode sentar ele não vê mais distância entre o seu pé e a cerca. Ele não mais diz eu para passar.
Ergue a porta da garagem. Ele não mora mais ali. Ele dali não vê mais entrada. Nunca soube se saiu. Evadiu-se esqueceu o ronco daquele vão o rumo daquele ulco.
Ele começa pelo uivo do rasgo-dizer se dizer é o que o que o que é um que ainda se enseja...
Ele segue singrando a beira. Segue singrando o que segue nem sempre por um caminho. Ele não vê mais um destino. Ele não vê mais nenhum caminho. Nem terra, nem mesmo eu. Nem plano nem borda do que seja a borda do que seja a borda do que quer que seja.
Mas quando?
Quer dizer, como?
Quer dizer, quem?
Esse fugir da pergunta. Seja o que for, ele se esgueira do pequeno que habita a pergunta. Do pequeno que responde há pergunta.
Ele começa a ver sem veios. E isso é já além dessentir. E ele começa a ver é querer dizer daqui o que já começa em acontecer.
Ele começa a ver com as plantas (e as dos pés) com as palmas (e as das mãos) com cada ponta em fio (e os cabelos) com todos os pelos (e os pêlos) com todas as camadas poros (e a bunda).
Mas o que disse até, então? Disse? Disse disse? Disse escrevido e roçado pelo chão e o que espirra desse texto? O que disse? Disse? Foi um imenso arremedo que deveria se envergonhar de escrevido. Ele começa a ver? Disse? Mas quem começa é uma pessoa do discurso construído pelo curso do dizível:
Ele começa a ver navios e horizontes e... Ele ainda está na praia. Mas, então, num estranho desde, ele vibra entre o mar e o céu e o olho.
Ele areia areia e a vala. Ele não mais havia. Ele ali foi o que eu vi eu eu eu eu eu minha dele nela nossa imensa fenda via. Via.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

sob a chuva


árvore ou o prefácio



O que não se explica pelo meio, nem se atesta. Uma busca infinita e sem reserva. O que não veio não poderia ter vindo porque nem mesmo se tivesse vindo estaria perceptível. O que digo? É preciso contar.
Então, um do que conto é vem dois e meio assim um traço de jardim. O cheiro. Porque entre as plantas confusas daquele não se pode esconder que há memória do passado há memória nas camadas de sei lá que instância do corpo o que fica na alma o que não se conclui. Os cheiros ficam todos em devir. O cheiro nunca é a coisa que o exala. O cheiro é o que nos impregna a alma pelas narinas que inspiram compelidas sei lá pelo quê. E esse travo de inapreensível me revoga a escrita do que conto, me inscreve no negrume do que é que jamais direi. Ou saberei ou serei ou conjurarei ou evocarei seria bom se não fosse assim, só que assim não é.
E estou aqui escrita inscrita cavando em caracteres essa onda infinda que não se conclui que não se distrai que não se desenlaça daqui dessas entranhas inequívocas que se me configuram para esse momento.
Então vou contar; é o que tento. Mas é cara a vida essa fagulha de vento que vem e bordoa a membrana que vibra e vibra de dentro também. É cara e havida e vigorosa nos veios nos sulcos nos poros canaletas por onde se encontram os destinos.
E preciso intercalar, que vim. Vértice ou não. Teria eu apreendido a flor daquele jardim, se a tivesse visto. Mas o que me impregnava a alma era o aroma que me impeliu a uma que fui e vivi num passado já muito distante. E nem sei se passado, já que o cheiro que me atingiu em cheio não se concretizou só me enlevou e levou para o meio. O que vim foi o que vi que o que não, se explica pelo meio. E veio.
Mas vou contar, agora — é preciso um pouco de calma comigo também. Essa é a forma de vir aqui e me interpor. Porque pousa em minha cada ponta de dedo essa força que engendra e as coisas todas ficam assim pelo meio. E eu digo que mais uma veia dessa vez se fez sentir.
Do passado acho que era o cheiro ou do porvir. Do porvir seria mais certeiro porque se imiscuiu de tal forma em novidade em gravidez que se inaugurou toda uma curva que me fez sentir inteiro o jardim, a planta, a seiva, árvore da encosta, o que vibra por todas as fibras vegetais e faz verde o que sentimos quente e que chamamos sangue. Comunicar essa sensação é habitar onipresença, omnisciência, omnipotência.
Omnipaciência, pois essa que é a história que eu intento. O do que vem do chão do caule do tronco do resfolegar das folhas mexidas pelo vento. Esse arvorecer verdejar seivar que cava no instante o que sempre está mais adiante nunca estando, sempre agulhar do vir do vem do vindo do invento.
(extraído do livro uns tantos outros.)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

aquiescer



A maior parte de mim é espírito. A maior parte de mim é erro. A maior parte de mim não sou. A maior parte de mim não veio.
Uma partícula minúscula que sobrevive e acorda todos os dias como eixo. Uma parte pequena mesmo minúscula que toma conta de tudo e que me leva ao outro lado esse outro lado em que nada nada nada tem de fato corpo estático mas é somente via.
A maior parte de mim não veio a maior parte de mim não sou. A maior parte de mim é erro a maior parte de mim não houve.
Quem quer que tenha passado por aqui tomou café há pouco. A caneca com o fundo escuro do líquido ainda quente não esconde. A cama deixada desfeita. Os sapatos do dia com barro. As marcas dos dedos na poeira deixada sobre os cantos. As pequenas lascas de vegetais trazidas pelos calçados ainda dispersas pelo assoalho. O tapete guarda os fiapos da manta usada à noite. Na mesa de centro o livro aberto e o marcador largado. A janela ilumina a poltrona em que a almofada marcada denuncia que alguém ali há bem pouco tempo esteve. As fibras de cada objeto ainda retêm o calor do braço da mão do alguém que aqui.
A maior parte de mim que aqui veio veio como onda que os olhos as mãos o corpo derramam.