quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

oco



O silêncio que me intercala. Cava. Solapar de escavadeira. Paira. Extrai de mim o mundo. Mostra o mudo. Cavo. Rouco. Rouca voz. O silêncio que me intercala. Coisa enorme. Escavadeira. Cava. Escava em mim o tudo. O silêncio que me intercala céu sem firmamento. Oco que arde. Oco de imagem. Oco de palavra. O silêncio que me escarpa. Extrai de mim o vulto. Curvo. Mudo. Pulso no limiar de um outro mundo.

(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

vulto



voltagem mescla receber a carne como fibra ser o convés do assombro ostentar nas unhas toda a sujeira dos que escavam paredes ser o desdobramento imprevisto cápsula casulo do indefinível que só habita o escuro porque ainda vive onde nem sequer se sabe se o que responde é a resposta que se dá para a pergunta onde

(extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar".)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

o que é escrever?



O que é escrever? Um troço que eu não posso sem. Solidão. Infinito. Uma pitada de abrigo. Um enorme vazio preenchido a golpes do que eu não digo.
O que é escrever? Solidão. Traço em laço de mão. Palavra palavra e letra. Avançar de desenhos sobre a página.
O que é escrever. Um caderno que tem páginas e páginas preenchidas. Um caminho sem volta. Zigue-zague. Uma costura do futuro inaudito no presente o passado que vem.
O que é escrever sem abrigo. Ninguém pra lhe dizer amém. Nem um só sim de um amigo nem nada que te assegure a que vem.
O que é escrever nesse frio nesse escuro nessa noite sem fim nesse dia a dia. Ter as pétalas de um novo destino e a certeza de que nada faz sentido passados apenas alguns dias além.
O que é escrever verso solto palavras desconformes das leis. Regras nenhumas seguidas. Não ter roteiro ou gancho ou enredo não ter personagem também.
O que é escrever nesse abismo. Um silêncio tão surdo inimigo um desprezo de todos um riso um não acreditar que você perca seu tempo com isso.
O que é escrever sem público escrever para si mesmo. O que é escrever solitário. Escrever só escrever. Só tendo por conforto a palavra que ainda não dita está soprando no ouvido murmurindo um rumor tremido um descortino do mundo imprevisto um desdobrar desse instante e mais nada adiante ou aquém.
(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

n



nossa
não?
 
nossa
nada?
 
nossa
nunca? 

extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar".

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

nua descendo a escada ou a irmã de Igitur ou "a angústia da influência" ou o enigma traçado às traças


                                                                
                                                              Às traças
 Sigopéia desce a escada quarto adentro; e turvas as parentes quadros curvam a madeira mol dura de olhar. Mas pena dentro; dorme já? Pergunta seinda não? Pergunta seagora -- está dormindo, ocaso, está dormindo madrugada adentro? -- já pode grafar à pena o adentro?
Sigopéia deve continuar, passo branco, pernas brancas, brandas rondas, adornadas torneadas curvas pernas penas descem a escada e ir ladrilho a ladrilho cada degrau dela descendo a escada. E Sigopéia -- nem te ligo -- contínua descida ergue-se égua brancadentro adentro noite branca adentro. Sigopéia desce acorda torneando pelascada na nuit adentro -- dentre dentes -- escapole máscara -- máscada -- perdida enfim contínua descigopéia és cada afora...
Em si -- tornar-se si -- como descendo elacoplasse -- implacável. Sigopéia descendo a é (s) cada desenho de cenho de têmperas tropicais -- mas que belas letras! -- desce ela pela escada unha range o dedo  em ponta o corrimão descendo o pé escada planta após o pé. Primeiro os dedos, depois o resto, cada nome desce gesto agora tange o inverso.
Mas, que digo? -- de Sigopéia -- ela desce, mesmo que longa a escada, mesmo que de seda de ser a escada de Sigopéia (devo tornar-me alfabética para esclarecer do que trato?). E Sigopéia... traz amplas gotas de tédio, fartas de êxtase, farta de é’stá... sê! (já disse isso...?) e vai contente cumprir com lâminas o que são apenas lascas degrau, de sendo sentido senso.
E Sigopéia jamais abolirá -- conjura! -- o traseiro de redonda bunda, rotunda banda, então, ela rola em normes dúvidas: se a descida de é qua-se ou de eco a ação. Égua vã, mas devo tratar de Sigopéia (consigo péia?) consigo mesma.
(Esgarço as mangas, pondero em páginas: cada palavra vai depender do olho agudo ou da perspicácia de quem me lê -- será que pretensio?)
Ela se pergunta -- perfuta -- e refaz a descida a pé, ia não na estrada, antes na escada -- de sou cada -- de écada (francês?) Degrau.
E Riopéia (Sigobalda) borda nascente fosflorascende lâmpada’r’dentro de outro jardim. 
Mas Sigopéia desce a écada quarto adentro (“a” dentro, onde não há que dizer “a” de dentro num vão). Desce a escada desce, Sigo -- e vê se verás, veraquiagora sem “a” ou com “a”, severa já? Ver se verá severá demais -- de menos -- e nem se preocupa severão. Se(no)vão teler. Se... afinal, Sigopéia, cê vai descer ou não?
Te veio? Mas cedo, não? Veio nas pernas desceu pelas pernas as pernascadas que descem, mas tão-só até o telhado da solidão! Seu irmão, Igitur, imagine, também desce por entre as quantas salas, vela na mão, mas para ele nunca veio, não... (se eu o pego...) Ah, não vai mais ser solidão! -- Eh, Sigopéia, preocupa com isso, não!
(extraído do livro Babel, é claro - publicado em 2002.)