quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

um texto



Eu fico pensando no que poderia ser ainda este texto que acho que está para vir e que está inaudível invisível indizível. Este texto silêncio que não se descortina desenlaça nunca. Que está atado ao nó da língua que não vem fala não vem palavra não vem letra teclada na ponta do dedo.
Eu fico pensando no que dizir do verbo do dizível zer. Eu fico pensando que ele não poderia ter eu que ele deveria ter outro dizer que não o do verbo conjugado. E que não pode falar disso dito à tona do falado.
É uma história sem pessoa ou com inúmeras pessoas. É um as torres com todos os que passam entrelaçando-se num caldo de imanosfera. É um texto em montanha sem vale ou em multidão sem indivíduos.
Eu teria de deixar-me de lado inteira. Teria de esquecer que escrevo. Teria que abandonar o barco, definitivamente deste lado e atravessar-me até comungar da corrente o fluxo que não me espera.
Eu fico pensando e pensando e pensando e nunca que vem esse pulsar de outra esfera imanosfera que burbure borbulha sem formar bolhas mas agitando-se lá. Quem é que sou para conseguir de lá contar?
Esse texto nulo, núncio, não enunciável, não imantado ainda no meu discurso. Esse texto da nenhuma palavra da cláusula falha da ausência de discurso. Este texto re-nuncio do escrever de punho de dedos de testa de língua de forma que sempre colige um caldo. Um texto caos que diga e ao mesmo tempo prescinda da verve viciada do mesmo curso.
Um texto que começaria do outro lado da página que diria o avesso das frases o de cabeça para baixo, o dês-sintagma.
Ex-sentido. Que texto seria este? O do silêncio do nenhuma palavra dita o texto que estaria nos entretextos do que aqui já estaria inscrito.

(extraído do livro um mundo outro mundo.)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

o vendo



No sofá. Há horas. Olhando, parece, para a ponta dos pés. Para a ponta única, bico, que fazem os dois pés no tapete. Encontrado somente consigo, ao que parece. Sem mais nada a olhar. As mãos deixadas ao lado das coxas. Assim. Seu olhar não é perplexo, aquele olhar estúpido das pessoas que ficam em estado catatônico. Seu olhar não é circunspecto. Seu olhar é ubíquo, o quanto podem ser ubíquas essas duas gelatinas que se inserem nas cavidades da face. Do rosto. Seu olhar ubíquo impressiona mais porque é impossível encará-lo de frente. Impressiona pela ubiqüidade que exala de seu movimento de corpo. Podemos dizer que seu corpo todo olha num movimento líquido que inscreve mil sentidos ao seu estado sentado ali no sofá. Há horas.
2ª voz — Mas ele não fala com ninguém? Alguém já tentou tirá-lo desse estado?
1ª voz — Para quê?
2ª voz — Ora, para saber o que aconteceu.
1ª voz — O que aconteceu é impossível saber. Basta olhá-lo e ver que ele está todo ali pousado nesse ato de olhando olhar.
2ª voz — O mundo lhe passa por dentro.
1ª voz — O mundo lhe toma o de dentro. Que mundo?
2ª voz — Esse mundo de fora.
1ª voz — De qual fora? O seu ou o meu? Não, definitivamente, não é o mundo o que lhe vai por dentro.
2ª voz — Impressionante.
1ª voz — Você também consegue ver?
2ª voz — Já estou vendo. É um colocar-se todo sentido ali sentado em estado de vendo.
1ª voz — Você começa a ver.
2ª voz — Olhar para ele nesse exercício é ver o ver que pode se cumprir na trajetória de um para outro.
1ª voz — E não é só isso. É matéria; tridimensionalidade aparente que o atravessa. Olhar ele ali nesse estado é vislumbrar um vendo.
2ª voz — Vendo solo: o que nos remete de novo a um dentro.
1ª voz — Não. O interno não há. Você supõe que sejamos simples vértices?
2ª voz — Umbigo do encontro entre o dentro e o fora. Tudo é o caminho. Sim, agora vejo.
1ª voz — Um caldo. Um mais que caminho, um leito de leite e rio fluindo. Colocar o pé nesse caldo é supor pé onde não somos o outro. Tudo é um fluir, fluindo.
2ª voz — Olha, parece que ele se mexeu.
1ª voz — Não, acho que não.
2ª voz — Parece sim, veja, seus olhos estão mais presentes. Piscou. E agora? O que vamos fazer se ele sair desse estado? É preciso que ele fique. Quede-se ali para que possamos ver o vendo.
1ª voz — Ele olha, olhe que ele nos enxerga. É a menos... enxerga-nos. Como prendê-lo no permanente do agora sendo? Viu? Ele nos perguntou algo. O que dizer?
2ª voz — Ao que ele nos pergunta não temos ouvido. Só temos ouvido para o ver. Apreensão de estudo.
1ª voz — Congelamento. Na borda dele há movimento. Agora escuto o que ele diz. Escute. Seu gesto empurra matéria que nos atinge. Seu som nos fala de uma superfície. Não há borda nele.
2ª voz — Nisso eu li, eu vi o olho dele. Agora escute de novo ele nos dizendo.
1ª voz — O que ele diz em mim é um silêncio.
2ª voz — Fechou-se?
1ª voz — Do que plausir mais do que o que ele nos diz? Contra-matéria. Silêncio é um o que ele diz.
2ª voz — Espera. Estou escutando; melhor: vendo. Ele se aproxima. Ele traz um calor com seu corpo vindo. Matéria caldo que nos converge, que nos conflui.
1ª voz — E o que é que vemos? Vemos ele ali vindo e vendo cada um de nós de seus globos a nos engolfar como um movimento. Vemos. Esse é um momento?
2ª voz — Caldo de contato num corpo-abraço. Esse é o movimento.
1ª voz — Nem tudo é espaço ou tempo. Nem tudo é fora ou dentro. Na verdade nada — coisa surpresa —, tudo é elemento. Pensamento é matéria quando vindo de um que não se fez nome. Que só se fez dobra donde tudo nada no veloz do vin
2ª voz — de vir...

(extraído do livro uns tantos outros.)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

barulho



Tudo era sempre aquele mesmo barulho. Barulho surdo mudo barulho aquilo silêncio. Barulho do sol crestando as coisas e aquele frio por dentro. Barulho do dia no longínquo do passar da passagem. Barulho da janela blindada do trem. Barulho de ferrovia de montanha de pastagens barulho de plantações de castelos de torres de usinas barulho de gente que vive naquele recôndito naquele enfiar dos olhos por entre o que lá longe colina por sobre o que aqui perto telhado. Tudo tudo tudo era um barulho silêncio barulho que acompanhava a viagem.
(extraído do livro um a um - os poros da paisagem pólen.)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

contínuo



E se não houvesse mais nenhum contínuo ali. Se tudo fosse plano e conexo em todas as direções por todas as dimensões. E se tudo fosse como uma malha rede líquida mar que na verdade abrigasse a mais quebrada forma de se interpor e de ser abismo? E se tudo fosse cavo cálculo ao contrário vidro quebrado por onde atravessa a luz que não se faz nunca uma só mas que respira inteira como uma cortina ou um lençol quebradiço sem intervalos e ao mesmo tempo inteiro pulsar descontínuo.
E se não houvesse um só vento e viga se como os passos fôssemos minutos dobrados ao contrário da ampulheta que gira? E se todos os caminhos nunca tivessem sido ido do construído tudo não passasse de um circuito infinito. E se todos tivéssemos em nós as cordas os laços os nós que pulsam e param que nunca descansam em uma só estação? E se ao mesmo tempo que agora fosse ontem e estivesse ali a lâmina seta inalcançada do futuro? E se não fôssemos somente a carne os nervos as veias e os músculos mas contemplássemos a cada vulto voz grito ou canto o que nos contempla de um outro espaço de um outro tempo de um outro canto? E se através de nós ultrapassássemos sementes como força voltagem través e complicássemos em dobras bordas de entres entes desintegrando intensos grão a grão num granulado de zil voltz?
E se nos encontrássemos para além de onde estamos e nos déssemos conta de que tudo não passou de um plano de um conto de uma só figura e que agora estamos mesmo aqui do mesmo lado compreendendo que não se tem de fazer nada ou ir a lugar nenhum o melhor meio de viajar é aquiescer ficar ficar e ver desfazer o ser ser nenhum pra com plis com pleni com plexo alcançar o o que nunca é onde está que nunca um só é e que nem é nem quando e nem sequer se sabe ao certo se e como.
(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)