terça-feira, 25 de junho de 2013

primavera do instante



Vou clandestina visitar outra terra primavera maio daquele ano. Agora que daqui sou o pólen o absoluto vou concluir lá o que fui nessa alvorada de instante. Grito do mais pequeno ao pó ao pedúnculo ao pequeníssimo insano minuto do minuto que já via em si um tudo e sentia ali e fornia ali a mais que cavada veia mutante.
Vou contemplar Dioniso e afins e toda e qualquer estação deveria assim ser um nascer desde Praga desde Paris desde hoje desde esse dia em diante. Desde esses dias outros dias que não mais se contam que não mais se findam que não mais são só um dia uns por sobre os outros. Todos o mesmo dia o mesmo noite o mesmo madrugada sem fim.
Sem fim tanto que daqui quando se diz primavera um pra sempre se cava um eterno se enseja se insere pelos poros de uma outra pele.

(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)

sábado, 8 de junho de 2013

cavernas



Uiva o vento. Uiva o lobo. Uiva a porta com o vento. Aqui dentro o silêncio, o escuro, os vidros quadrados da sala transluzem opacos o escuro em mercúrio da noite lá fora. Aqui dentro é o silêncio, às vezes rangido da porta. Meus cada poros em expirar exalar de suor sebo em feito há dias sem receber sabonete. Aqui sentada na poltrona, na casa escura, algo suja de meus dejetos, dentro da noite dos meus pensamentos, sentimentos. Tormenta tempestuosa é o que anuncia um relâmpago lá fora. Aqui dentro nada, nenhuma luz elétrica, nenhum aparelho elétrico, nem mesmo um rádio. Nada, silêncio. Não há automóveis lá fora. Já disse, lá fora é só o uivo do vento, o uivo do lobo. Nem mesmo mais a porta deixo rumorejar estalar ranger, quanto mais uivar aqui dentro. Aqui dentro é o silêncio respiração rarefeita a momentos, pouco e pouco, percebo cada movimento, rumor interno, canos orgânicos, líquido interno, escuro em oco o universo aqui de dentro. Útero escuro úmido de vidros quadrados a bordar a sala, aqui mesmo, sem nenhuma pessoa. Sem nenhum telefone, sem nem grilo cricrilo, sapo em coaxo, nem vento mais uiva, silêncio ar parado. Rai relâmpago. Rai relâmpago relincho, o cavalo, patas em tábuas no estábulo, na porta de vidro de repente batem: é o seu um, aquele, que bate na porta e pergunta:
-- A senhora vai querer tomar o chá de cidreira que a Clara tá preparando?
-- Chá? Claro. Cidreira.
-- Tem uns sequilhos, também...
-- Não não, só o chá, está ótimo, mais nada, obrigada. -- onde é que eu estava mesmo autocentrada? Ah! Útero, úmido, relâmpagos são luzes que iluminam acendem quando a gente sabe ficar só e quieto no escuro. Relâmpagos interrompem o breu do meu pensamento.
Desde que cheguei aqui há dois meses é isso, um pouco só, que interrompe meu retorno umbilical. A minha solidão assusta os ao lado. Incomoda, mesmo, eles pensarem que vim para cá porque quis, ficar sozinha por opção, sem ouvir nenhuma notícia. Somente ler o jornal, alguma revista, mas nada que seja notícia de voz alta eu ouço há dois meses isolada. Mas, ainda que eles se sintam incomodados e tentem desestabilizar com atenções meu deserto auto-escolhido, eu conseguirei chegar onde sei lá que almejei aqui nesta casa escondida, aqui neste mato ralo, recanto retiro de solidão.
Gume. Navalha na veia. Sangue borbulha em vinho aberto rasgo enguio. No braço branco pulso brindo brilho sanguinho guilfa a caldo grosso. Pinga. Água fervendo em tinta plástico em tinta na mesa de vidro da sala do solar sozinha. Vinha. Uiva vindo agudo aguda a dor nervura em vida, vai em vai. Uivo em mim saliva gengiva boca dentro caldo líguido sopa da solidão conseguida. Batida vento, repetida, mas o que é isso agora? É o chá, ah, é o chá do seu um que a Clara fez.
-- A senhora não vai querer mesmo nem um sequilho? Olha que os sequilhos que a Clara faz são especiais.
-- Éh, não, mesmo, muito obrigada, só o chá está ótimo.
-- A senhora vai querer mais alguma coisa, que agora a novela acabou nós tá se preparando pra ir dormir, mas se a senhora quiser...
-- Não, não, podem ir.
-- Boa noite, então. Quer que feche as cortinas pra senhora?
-- Não, não, não precisa fechar nada. Éh... obrigada. Boa noite.
-- Eu não quero atrapalhar, mas a senhora se incomoda de eu perguntar uma curiosidade da Clara, a senhora sabe, né?
-- Curiosidade? O que é?
-- Ela, a Clara, quer saber se a senhora perdeu de todo o medo. Eu disse que não era nem preciso ter medo, né, mas ela disse que quando a senhora era mais garota, que vinha com seus pais, dava cada pulo de susto pra cada uivinho dos cachorro-do- mato.
-- ...
-- A senhora desculpa ter perguntado, não quis ser intrometido, mas é que a Clara acha que a senhora ainda é aquela garota e que pode fazer as pergunta que der na telha dela...
-- Não tem nada, não. Mas fala pra ela que eu nem sei se era só medo de cachorro ou lobo que eu tinha... É... Não, provavelmente não.
-- Ah! Lobo não era, que aqui não tem. Mas era um tanto de bicho que tinha...
-- Era... Boa noite...
-- Éh, boa noite, pra senhora.
Trapaça habitada. Mesmo que sem asfalto ou luz elétrica ou ondas de radiofonia. Cápsula de ilha, não tem mais ilha em nenhum lugar, não tem mais, não. A presença em corpo dos aqui ao lado sempre vem. Sempre vejo outros olhos, cabeças, membros a rondar minha volta, solicitar minha presença. Mesmo que meia. Mesmo que desdita. Mesmo que atravessada. Minha resposta a voz articulação maxila que inescutam, mas querem todos -- mesmo esses aqui ao lado -- o insilêncio perguntar, perfunctar.
E o polvilhar polvoraz polvorinha picando a pele apelo de olha pra cá que eu quero ouvir, mesmo que inescute. Ouvidos curtos, enxutos. Instar de esponjas surdas instaladas nas paredes aurículas. Paredes-rolha amortecendo, amortecidas. Mortiça cortina branca nos ouvidos.
E agora é isso de não conseguir entrar pro aqui em dentro do caminho escuro, é preciso o quê? Esdruxulear em tampa, tapar contato, intactanegar o entorno? Fazer-me em silêncio de clausura até que todos concordem que em mim só o que sou é o sintoma? Até que pelos olhos pelo corpo a aparência seja a transparência vulto que se atribui aos loucos?
Penetro na caverna, jato em viagem across the tunel of the existence. Caverno em dentro da montanha. O que penetro, o que atravesso, por que meio, barco-boat over the water-água íntima caldo em vida dentro de mim? Rio escuro, subterrâneo, rio dentro de um imenso rio, subcutâneo. Pegar um barco entrar pelo rio, entrar entrar e percorrer o interno de meus veios. Chegar numa praia, areia branca, água verde, clara, cristalina, água prístina dos meus medos indivíduos.
Incomunicabilidade esperanto que não se desata na língua. Clara, eu, nós: nó, aqui à míngua solitária tênia ameba criatura intestina indizivelmente só.
Uiva o vento. Uiva o lobo. Uivo cão.

(extraído do livro Babel, é claro; publicado em 2002.)