quinta-feira, 26 de setembro de 2013

dos dois lados



Massa mole e cinzenta engole engole a onda. Cada onda mole engole a areia mole mole cinza mole da areia lama cinza da praia cinza da tarde cinza do céu cinza do horizonte cinza da tempestade cinza nuvem nuvem nuvem que nunca vem.
Camelo o pé cava mole pisa a areia cava o que é da areia o cavo da areia pegada poça o que é da areia areia lama gole gravado na areia espuma da onda vinda pela areia cinza.
Pé descalço pé sem tênis pé sem botas barras das calças molhadas de frio de gelo dos respingos da areia lodo cavada pisada pegada a pegada a cada planta do pé descalço calcado pela praia extensa praia final de praia final de tarde final de espera tarde pela tempestade que já chega alarme mas parece que não nunca nunca vem.
Estumirado fundo do céu de borrasca que não se apaga. Aquele mar de aquilo aquelas ondas sobrevindo aquelas nuvens sobrevindo camadas chuva camadas nuvem camadas espuma camadas água de oceano sal de ondas escuras que não cessam de chegar que não param de advir que não param de sobrevir sobrecobrir sobressubir umas pelas outras camadas d’água que sobrevêm.
Ventava. Já não era mais areia o que tinha nos olhos. Nem era água também. Já não se sabe mais se era algo o que tinha nos olhos senão vento e o que o vento arrasta de ar e do que mais por meio dele vem. Já não se pode mais mensurar o que via ali porque não era mais pelos olhos que via pelos grãos de areia que ainda que encharcados se faziam sentir pela face pela pele do rosto pela testa pelos orifícios do rosto as narinas os lábios as pálpebras a comissura de todo o rosto que se perdera ali.
Tudo era vento e areia úmida e cinza da paisagem tudo era a paisagem vento vinda vendo voraz e voando pelo trovoar daquilo tudo visagem do que de novo estava se inaugurando.
Não tinha casaco que cobrisse o corpo. Não tinha manga que cobrisse as mãos. Não tinha nada que já não estivesse usando que pudesse aplacar todo aquele chicotear do ar através do corpo carne pele mucosa jardim de poros e pêlos que estavam ali embora vestidos descobertos abertos destapados inteiros atravessados por todo aquele evento que não era a tarde só de tarde que não era a praia só de praia que não era o mar só de ondas e areia e vento e horizonte nuvens tempestade vulto só de areia e vento que não chega nunca nunca vem. Não era. Algo naquilo que arrastava aquele que arrastava aquilo que carrega toda aquela voltagem a paisagem vasta a paisagem vulto a paisagem vórtice da voragem só de ali estar e ver pisar com pés descalços toda aquela praia toda 'quela vaga de passagem que inda sobrevém.
Agora ali, como voltar pra montanha? Agora ali, como voltar para a casa a janela o vidro abaixado como bater bater bater a ver se havia alguém ali que ainda podia abrir a porta ou a ventana e deixar entrar outro aquele naquele lugar outro lugar?
Tudo no escuro. Ninguém na sala. Na cozinha só a toalha e as xícaras e as migalhas. Ninguém na casa só nas paredes só nas escadas só nas tábuas do assoalho só na porta de entrada entre os dois quartos. Ninguém ali. Só dos dois lados.

(extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar".)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

no peito



será peso ou força isso que sinto no peito?

a vida antiga que me estrangula e mata?

ou a  semente insuspeita que não se contém

e que por fim arrebenta?

(extraído do 'livro' "um a um - os poros da paisagem pólen".)