quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

parado ali



         Parado ali na chuva tudo era lado e eu não via. Parado ali parado sem ter o que revelar do meu dia da minha noite. Sem ter mais nem um passo a dar em direção àquela agonia. Parado ali parado a chuva lhe abria por todo o lado frestas de poros por todo o lado a chuva me abria me dissolvia me acumulava água fria empapava meus olhos meu rosto me apalpava e tirava de toda aquela agonia. A chuva ponta a ponta por todas as fendas que há no corpo entrava e abria e me dissolvia e me devolvia sem pele sem pelo sem sangue sem zelo por nada mais que estar em pé ali embaixo de toda aquela água que só caía que só caía. Que só caía.

das dobras desdobra


sábado, 3 de janeiro de 2015

sobre o fio por um fio



      arregaçado e estendido o tempo cumprido filete de infinito esparso sobre o fio de algodão.
         esgarçado sobre o abismo o lado tênue e premido sobre o que seja o visto sobre a promessa de sombra sobre a taça e o filete o filete por um fio escorrido sobre o tensor de soltar-se o deslaço o abismo fio de algodão.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

toda a espécie - dizê-lo



Costurar pelo a pelo é um modo de zelo. É um modo de dizê-lo. Do outro lado há o mundo inteiro. Eu da minha oficina consigo atravessar o biombo e chegar na terra em que os pastos as cercas os riachos podem se pegar com os dedos. Sentar mais um dia ali na bancada e ver os pesadelos. Olhar de largo a janela de todas as moradas e dos medos. Soprar as feridas supuradas. Costurar costurar costurar para conter com um pouco de calor o que seja lá o que for.
A vida para eles é da estridência metálica dos instrumentos. A voz esganiçada das aves quando atacadas no berço. O vento noturno lhes asperge uma espécie de ácido que lhes entra pela carne e lhes alcança o avesso. Seus sucos são ávidos suas mãos tateiam no escuro. Eles despencam a cada vez que buscam. Nas horas em que o sol lhes banha a face parecem colhidos por toda a alegria. Dos relógios cuidam como a poder carregar nas horas seu precioso desespero. Que lhes escapa entretanto pelos dedos.
Eu zelo por eles. Já tentei declinar mas não me foi dada a alforria. E meu modo de por eles olhar não é outro que só lhes sentir na carne toda a agoria. As horas frias. As horas mortas. As horas pregadas num canto. As horas perdidas. As ansiadas. As que não passam nunca as que chegam depressa demais.
Minha oficina está repleta de toda sorte das suas quinquilharias. Cada produto do seu destempero trago comigo aqui dentro. Escondo de seus atropelos. Mas no geral não me é dado por eles poder fazer coisa muita.
Não intercedo só lhes assisto o pior pedaço da matéria aquele todo que sentem sempre que se julgam desligados de tudo e dos outros. Destacados um a um. E a cada medo a cada ameaça a cada degredo de ódio que nutrem meu corpo os acolhe como o inteiro que lhes abarca antes que saibam por si só fazê-lo.
Meu ofício é o de menos. Por eles não posso pesar. Por eles não intervenho. Só em meu corpo acoplar seus sentidos suas veias seus em cheio.
Traço com pincéis com ferramentas com lastros os mais variados caminhos. Minha tarefa é a de habitar cada película de seus vínculos e de trair-lhes os nervos. Alguns captam minha matéria a contrapelo. Outros dela tentam fugir mas não há como escapar quando se traz em si a membrana sensível aos meus apelos. Cavo-lhes as ondas complexas. Atravesso-lhes os extremos.
A maior parte deles porém nem me suspeita os desvelos. Ocupados obclusos enganam-se pelo aparente do dia pelo evidente das horas e erram ocultados de si da vida e de todo o vasto abstruso de seus próprios meios.