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segunda-feira, 20 de junho de 2011

a fenda


o que vejo é que
o que antes de tudo sucede é que
Deus olha, muito antes,
Deus olha antes de ver

 
Subindo a escada, degrau a degrau, galgando até encontrar a estrada. Confabular burburinho olhos sorrindo crianças no ninho, crianças rindo, pedra pedrinha da floresta.

 
Eles vêm olhamos juntos e vêm estranhos alienígenas quase sauros línguas compridas bifurcadas eles andam olham-nos e também têm linguagem seres estranhos estranhos seres vivos, conscientes de si como nós confabulam burburinho aqui também ancoraram.
Foram feitos em tribos nascidos criados e crescidos no ventre dos mesmos ancestrais. Sua ciência assemelha-se a uma liturgia que combina as reações químicas às danças e ao cântico das línguas tremidas num ritmo num compasso que desconhecíamos. Dessas combinações inauditas geraram novas vidas que julgamos alienígenas forjadas em longínquas instâncias da Terra.
Em pouco tempo de convívio percebemos que, agudos, eles nos queriam o lugar, nosso ar, atmosfera, eles queriam nossa água, nosso trigo, nosso mel. Percebemos por esbarrares de ombros por caminhos percorridos com o igual objetivo. Configuramos o perigo. Ameaça constante vê-los passar corta-luz ofuscar entrevisto ocupar nossos momentos. Seqüestrar nosso ar, o lugar, a água e a quimera. Eles queriam nós queríamos o mesmo.
E assim entrebatidos encontrões e desafios nossos corpos fomentavam no convívio equívoco o latente inimigo entranhado e sanguíneo esgueirado espremido engendrado no ativo do encontro de corpos em busca do mesmo lugar. O mesmo lugar na malha do espaço; ocupar o O com nossos ossos não os dos outros.
Nesse incitar permanente, adiávamos, nós e aqueles, o conflito final. Até que de um deles, não sei bem ao certo, veio um dia a sugestão da forma como deveria se dar o combate derradeiro. O jogo infantil de brincar de encarar, brincar de sério, quem não baixar os olhos quem por mais tempo sustentar o olhar nos olhos do outro aquele que não recuar é será o vencedor. Acordados quanto ao simples da regra, bastava que todos informados em pares de inimigos conflagrados se pusessem à tarefa de trocar o olhar.
Pouco a pouco vimos caindo fora do jogo todos os que julgávamos humanos, todos os irmãos, todos, um a um, deixaram o campo de batalha vencidos olhares baixados.
Nesse vento do sobráramos dois, um deles eu um deles outro, fiz meu olho no mais lento numa curva o olhar intenso deitando no outro o olhar.

E quando menos esperava e dei por mim no espelho dos olhos do outro, no fundo daquela fenda vi a mim olhando a mim encarando olho a olho, vendo o olho do meu olho, no olho do outro olhado. E quando vi eu vi eu vi um era do outro o olhar.
(extraído do livro "uns tantos outros".)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

o bigode como escova

Ele vinha para mim se arrastando se esgueirando. Apoiava sua mão no meu ombro. Olhava furtivamente para trás. Olhava-me no fundo fundo no mais transcendido do meu olho e dizia: Eu ainda disso não posso falar.
Sussurrava por entre os pêlos do bigode, que usava, parecia, à guisa de cortina. Ele sussurrava no meu ouvido fitando o mais transcendido do meu olho. Sussurrava, voz de suspiro. Voz abafada pelos pêlos de cortina: Eu ainda disso não posso falar.
E depois voltava para o seu canto. O canto em que nenhuma faca de fresta de luz incidia porque era o canto que era um como que não estar ali para que pudesse ser visto. Um canto que só podia saber que havia quem pressentia que nele já vivia.
(extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar")
 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

por vir


Não encontrar mais que pessoas. Não poder dizer assim assomam-se as ondas. Nem chegar a senti-las todas. Ficar ali na pequena cadeira em que se sentava e ficar e ficar e ficar aguardando ainda algo que está por vir. Por vir.
Com um mesmo sorriso toda tarde cumprimentar quem por ele passa. E dizer sempre, comentar, as mesmas coisas. Como se vinte e quatro horas bastassem para sempre o mesmo parecer outra coisa. Estar no meio do caminho. A meio caminho de nada para ser nenhum. E ainda queria. Ele queria seja lá o que fosse. Todos os dias eram a primavera de seus desejos novos. Os mesmos de sempre. Os que lhe davam a ilusão de mudar todos os dias. Mas os mesmos.
Isso era um seu lado. Por outro lado nele havia aquele bater de outra esfera. Seja o que fosse isso. Ou não fosse. Ele dizia do eterno o que não queria ver mas sentia sentia sentia isso todos os dias e nem a força de toda a sua pessoa se sobrepunha a esse motor que já lhe que desde antes do sempre lhe rugia.
Isso nas mínimas coisas. Quando convivia e quando não convivia. Quando estava tranquilo e quando o medo lhe batia. No pegar de uma lauda. No colocá-la na máquina para operar a cópia. No atender ao telefone. No chegar em casa à noite e deitar-se na poltrona. No manusear do controle remoto, esse eterno já lhe ardia tanto quanto quanto quanto lhe fugia. Fugia.
(extraído do livro "um mundo outro mundo".)