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sexta-feira, 13 de julho de 2012

céu de Goeldi


Passeio pela calada. Escura entre postes de lâmpadas acesas e de luzes apagadas. A noite engole as estrelas.
Ainda há pouco, até a bem pouco mesmo, gastava a vida e os dedos anotando números entre estreitas linhas. Anotava dados tão precisos que qualquer descuido desembocaria em desastre. Dados que nada expelem de acaso. Dados contados.
Isso foi há pouco. Até a bem pouco tempo.
Agora erro na rua e na curva da noite. Mas já não trago mais nada de mim. Tudo ficou no papel e no rasgo do dedo. Tudo ficou recortado. Cada uma das coisas retidas naquele papel naquela página. Naquilo que fiz durante horas durante toda a tarde. Naquele recente passado.
Sento na mesa da calçada. Um copo. Depois outro. Os vultos vagam sua espessura. Sua espessura esboroada.
(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

flash!


Ontem mesmo eu estava sentado na varanda do meu apartamento, quando senti um vento estranho. Aos poucos fui-me dando conta do quanto não se pode segurar um vento quando ele vem sobre as nossas coisas. E era uma situação aparentemente simples: eu estava ali semidespido na varanda. Havia tirado a camisa e jogado sobre a grade. Havia espalhado sem perceber os cadernos do jornal. De repente, uma rajada forte de vento arremessou minha camisa para fora e num ato reflexo eu tentei pegá-la. Quando vi estava com meio corpo pendurado para fora da grade. Olhei para o chão dali do nono andar. Nunca tive medo de altura em toda a minha vida, mas naquele instante imprevisto eu senti meu corpo em  vertigem, a possibilidade da queda. Medo. Fisgada de medo que se alojou no estâmago, digo, ômago. Ômega.
Parado ali, tendo a altura e o vento a me circunscrever, fiquei em pêndulo de pernas e tronco com a grade pelo estômago com medo. Instinto rápido, algo em mim moveu o peso interno do corpo e pude novamente sentir os pés e colocá-los peso sobre o chão. Por momentos, resgatado do arremesso involuntário, senti um alívio de autocontrole. Segundos, átimos, depois, senti novamente o vento em meu cabelo, o vento sobre as folhas do jornal que se desprendia leve do chão e voava à altura da grade da varanda. Estiquei novamente o corpo sem pensar para agarrar a folha de um encarte desses com ofertas de supermercado. Antes da grade pude segurá-lo, porém a essa altura aquilo tudo começou a representar um perigo imenso de atos reflexos. Catei o que pude e entrei para a sala de estar, fechando a porta de vidro. Fiquei ali em pé, olhando o vento carregar de um lado para o outro as folhas do jornal que deixei de catar. Olhando o céu se armar de preto para a tempestade. Ar de sombra chegando na tarde.
Ali parado em pé, o estranho era a sensação de vertigem que não havia se desfeito, ainda. Pelo contrário, antes localizada em frio no estômago, a vertigem parecia ter-se instalado no coração. Batidas fortes, vendo o vento, que aumentavam, avolumavam-se em coração. Ataque cardíaco? Idade eu tenho para isso, pensei. Aumento de um tum-tum que escuro e forte batia duro dentro do peito. Ataque!
Ridículo, não pode ser.
Aquilo era o ver o vento jogando árvores, assobiando a tempestade, trazendo o escuro para dentro daquela tarde e talvez a lembrança ainda próxima da altura não calculada encarada há minutos. Um quase nada que me fazia ali geléia humana, ainda bem que desacompanhado. Medo da morte. Não que nunca tenha sentido. Mas, assim parado, congelado nos órgãos, o friozinho do que será, eu nunca tinha sentido. Em seguida a esses instantes nada se acalmou em mim. Nada. Eu nunca havia me detido a pensar na morte, em como poderá ser o momento da morte. Naquele instante, trazido por um arremesso, o pensamento da morte tomou conta de mim. E agora, como é que vai ser?
O tudo simples, prático e objetivo que havia vivido até então, desapareceu num minuto diante daquele vento. A iminência. Em instantes, comecei a imaginar uma catástrofe natural se aproximando com aquele vento. Imaginei um ciclone arrancando árvores, arrancando carros do chão, arrancando pessoas da calçada. Ali, passando na rua, uma senhora arremessada contra o muro do prédio em frente. Placas de luminosos voando ainda mais leves e desgovernadas que minha camisa ou as folhas do jornal. Postes de fios balançando, eletrocutando tudo aquilo em que encostam. Horror do descontrole, do não-seguro, do impossível de se conter. Inadministração.
Legumes vivos, alvo exposto: a incomensurabilidade do diminuto.
Negar três vezes de nada adianta, Pedro, a morte há de vir, e já que virá por que não deixar-se digno levar em seu momento? Nada, há sempre o antes. Terror premonitório. Todas as possibilidades. Cada passo que se dá nas ruas. O em pé na plataforma do metrô, esbarrão, corpo no vão dos trilhos, esmago eletrocutado. Tudo é ataque, cair de escada, degrau de escada-rolante que come o corpo do caído, rasgo, dilaceração. Tudo é acidente, imprevisto, impredito, descrever encenar em mente o indizível. Varandas que desabam, canos de gases que explodem, asfaltos que se abrem em gretas e levam corpos humanos para o fundo correr do esgoto. Nada escapa, tudo escorrega, espatifa, espirra, esbarra, esparrama, esvai. Expande explode escapole extrai. Predição.
Nunca mais tive paz, depois de ontem à tarde na varanda; em que cheguei mais cedo do trabalho.
(extraído do livro babel, é claro, 2002.)

terça-feira, 3 de julho de 2012

poças no asfalto


Alma presa na caneca e vou ver o romper do dia. Com a camisa empapada, molhado o linho branco. Abri a porta da cozinha e olhei para fora. Desci os degraus. À direita o terreiro de galos. À esquerda o pasto malcuidado. Em frente ainda o pasto malcuidado e as montanhas. Montanhas azul-marinho e a luz irrompendo ao final dos olhos, no horizonte. Abordava já a abóbada da Terra a luz clara esmaecida de um sol cor de prata que nascia para um dia cinza. E o latir de um cão ao longe. A caneca com o líquido quente e preto feito tinta preta a pintar papel com a ponta da caneta. O dia nascia e eu ali com a caneca quente de ágata na mão. Mugido, patas de cavalo ao chão. Migalhas e patos e galinhas se aproximam da porta da cozinha ao perceber movimento. Eu estava lá. E era plena manhãzinha o começar do dia era a aurora a aurora era um quase-clarão. Ao final daquela noite horrível em que tive de admitir para os meus filhos que não tinha mais de onde tirar o pão. Sair matando gente isso nada dissolveria a situação. Eu estava ali presa do dia sem nada poder fazer. A fazenda aos pedaços. As vacas todas a adoecer. As contas. Água que não era mais potável. Água que não se bebia. Que não se podia mais beber. Eu estava ali com a camisa de linho empapada de suor ao romper resoluto de mais um dia e era dia a ver o que me restava era ver o dia nascer.
E não era isso tudo no fundo falso? E não era mudo esse começo de um dia após uma noite com todas essas felpas de luminosidade da percepção? Não era tudo escrito com a tinta da caneca o café preto que da ágata esquentava minha mão? Era tudo um pouco me lixando para os meus filhos para o pasto para as galinhas para a pouca de água potável que ainda havia. No fundo do poço eu não tomava um só gole aflito daquele café. Eu estava era vendo o nascer de um dia que se fazia nesga de preto e prata no rasgo laminar de um horizonte estalado nas minhas retinas. E nada de tirar o pão que nem de filhos que nem de leite que nem de vaca que nem de pasto dei conta não. Era tudo com o único fito de viver fugido idílio. Isso que da sensação da alma presa na caneca empapada camisa de lindo linho vinha. Isso de não dar conta, o que no fundo não veio não vindo um movimento de me fazer. Vala da inundação de dizer para os meus filhos que não tenho de onde tirar o pão é o que nascia naquele esgar de dia que se erguia. Filhos aflito eu a dizer e o dia que nasceu depois disso.
Um misturar de camadas. Desde que eu decidira que iria morar na fazenda. Desde que eu decidi que ia levar meus filhos comigo. Desde que eu decidira que abandonaria tudo porque a fazenda ia a todo vapor era só uma questão de manter.
Depois o desmazelo e a impraticidade. O estar perplexo ante cada complicação. As visitas ordinárias do veterinário. O leite que não verte. O mato que crepita bordeja espraia avulta e toma conta de todos os caminhos. A cerca que apodrece. Os funcionários que não sei o que é que eu sempre digo nunca é o que eles conseguem ouvir. O não infinito, tudo de quina, tudo tropeço, tudo uma peça errada no lugar errado no dia errado no gesto errado a falta completa de jeito. E eu de camisa de linho apoiando os braços agora na cerca. Era fugir dali e encontrar de novo o asfalto a poça o nunca chegar na água o nunca aportar seguro. Alma presa na caneca e o líquido que ali havia agora frio, caldo do denunciar do equívoco.
Eu não pude ver como foi que cheguei aqui. Eu não pude ver o que foi que me fez chegar. Eu não pude ver um só minuto o corredor extenso que me trouxe para isso. Nada aconteceu comigo. Tudo foi devido, porque afinal agora eu vejo era eu que estava completamente distante do que era preciso. Deflagrar fracasso um esperar do alvorecer à meia-noite. Uma parede por onde me escoro. O centro agora é deixar vir toda essa modorra.
O dia morno irrompendo na retina. Ardia ali aquela prata preta de céu que se fazia e carregava ainda mais meu senso de peso. Imersão num sentimedo de ver o mundo sob uma atmosfera escura como se o dia o que me acontece sempre virá bordado de uma sombra de breu. E aquele céu ardido que se fazia me submergia no mais profundo ar fechado, canto opaco, tapado. Mas ainda assim não se podia dizer que não se tratava de um novo dia.
Não tinha mais como, porém, porque não tinha mais pão. Não arrumava mais nada. Era guiar o carro pela estrada a carregar as malas e me devolver à cidade, à casa, às paredes de verdade.
Tudo foi um delírio deflagrado de um gesto feito olho do que se inscreveu imagem. A fazenda. Como se o gerúndio do substantivo tivesse me sufocado o gesto. Estava e sempre esteve ali e o meu fracasso acabara sendo um triunfo o de desfazê-la. A fazia, mas o gesto era sempre antes, ou fora. Como se numa esteira circulante o instante preciso fosse sempre perdido. A falta de ritmo. Afasia.
Agora era entrar no carro, na casa, no martírio do novo dia a dia. En la masmorra.
(extraído do livro uns tantos outros.)