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quinta-feira, 19 de julho de 2012

deserto


Espaço de mosca. Ver todo mel ver todo dourado azul do véu do ver seja lá o que pode apreender o olho da mosca. Espaço de pisar na terra, e sentir pelos pés feitos papilas todo árido todo tórrido todo sal do amarelo todo o escaldante silêncio da areia do desterro.

O exercício miserável dos mil dias das mil dunas dos mil horizontes desviados das mil terras dos mil vales dos mil incomensuráveis espaços.
Era aberto o labirinto por onde eu deitava meus passos. Era amplo e me digeria os ossos os olhos a fronte o crânio e o que por dentro dele havia. Era dia e eu sobre a terra uma perna após a outra a obrigar os pés a cavar o solo. Era aberto mas se fechava em arco em arestas em inumeráveis vazios que preenchidos pelo não chegar nunca a um destino abrigo se faziam talhos desses imensos dias.
Atravessar o dia outra noite outra noite outra noite e assim incontáveis mil que se penduram pelas dunas ultrapassadas que se enumeram às costas mas que se impõem diante dos olhos como areias nunca vencidas.
Anotar as horas já é inútil, os minutos já desde antes caem como fagulhas sem ponta no nenhum imenso nada que é viver o trocar das pernas nesse atravessar do nada parede enorme que nunca chega a se configurar.
Labirinto de azuis sem curvas ou cantos nem léguas a medir desmedindo a via aumentando desmesuradamente a travessia.
Toda a noite nunca chegava a noite era sempre o dia. O sol o céu a pino e a cabeça espremida pelo clima. Todo gesto era transmutado em passo entre o estreito que se alarga no vazio deflagrado ante os olhos os ossos as carnes e o deslocar de ar que implica o menor dos movimentos.
Toda voz era o mesmo gesto. Todo olhar todo grito todo andar todo riso toda lágrima tudo isso era um configurar de abismos. Abismo era o silêncio que não se consuma. Os dias os dias e o sangue por dentro as paredes as rodelas miolos e o que lá dentro se agita. Mar de imagens. Mar de imagens que se nutrem do comum trafegar dos líquidos por dentro e fora e dentro é fora e dentro e fora a fora o dentro e erra.
Vagar perigosa entranha. Roubar do esbarrar a miserável história que se conta que se insere que se inscreve no cader no pequeno entre folhas no minúsculo das letras espicaçar de laços deslaços entrelinhar daquilo que vai por dentro e fora no entrechocar da pele. Superfície clara que esgaravata toda toda toda a matéria a contar de todos os milenares dias dos milenares corpos das milenares vozes a dizer convocar encontrar-se entre cada um dos pensamentos que se querem aqui livres desse arquimiserável destino.
Convém cavar com outra ponta não os joelhos nem as solas nem as palmas nem quando plantas nem mesmo línguas.
Convém cavar?
Convém afundar?
Convém deslizar?
Convém parar e ficar e ficar e ficar até vir a sede a fome a dor o medo o caos o onde se dissolve esse só e solitário sentido.
      Não existe labirinto maior que atravessar.
(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

nem onde nem quando nem quem


Ouvir todas as vozes. Desde o mundo. Desde cedo. Desde um vindo. Desde onde ainda não existe. Respirar todas as eras. Passar pelo que ainda não é caminho. Ver. Ar do ar arrancar do ser. Mão e tela. Vértebra osso onde tudo começa. Recusar não o ouvir o nome do ouvir ponto de inflexão: a pessoa do singular. Mais que a matéria, mais do que ver, passar.
Algo ou ém que reverbera. Área superfície vértebra. Osso de onde ouço vozes antes da carne dentro da carne da cadeia do alvoroço. Do alvorecer. Aurora caroço.
Quadro do que é que vê. Do quem é que vê. Do que é que diz. Do quem é que diz. E o cansaço bagaço o corpo lasso jogado na praia. O destroço. Barco em pedaços nem mais mastro nem mais âncora.
Quem estava ali? Quem estava ali na areia? Quem era que agora ali abria os olhos e via. Sem um alguém. Sem um destino. Vago avesso. Mãos pés pernas e passos carne da gema sol a pino.
Era braço ombro e tórax. Corpo erguido. Era pernas pés e plantas na areia. Era ver areia escaldar. Um semblante barco se dispersa.
Olhar no espelho até ver sair a tinta, sair o barro, sair a carne o traço o vinco. Olhou no espelho até ver sem olhos sem olho sem testa. Olhar e a palma da mão o avesso. O que se desdobra o que se desprende o que se expressa. O dentro do lado algum do sem espaço e do sem tempo.
Agora nada verter ou esperar ou pressentir nada sorver. Não mais atar do ar. Do antes, de dentro, pescoço goela cordas e sangue. Escadas da traquéia, degrau a degrau, desfazem-se o ventre e o canal. Gutúrio espargir o que de pouco em pouco entre. Vulto momento.
Espaço desfazido da cada partícula onda. Espaço agitado pelo vibrar sem cordas. Silêncio: Extremos são os dias vividos desde o modo aqui.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

céu de Goeldi


Passeio pela calada. Escura entre postes de lâmpadas acesas e de luzes apagadas. A noite engole as estrelas.
Ainda há pouco, até a bem pouco mesmo, gastava a vida e os dedos anotando números entre estreitas linhas. Anotava dados tão precisos que qualquer descuido desembocaria em desastre. Dados que nada expelem de acaso. Dados contados.
Isso foi há pouco. Até a bem pouco tempo.
Agora erro na rua e na curva da noite. Mas já não trago mais nada de mim. Tudo ficou no papel e no rasgo do dedo. Tudo ficou recortado. Cada uma das coisas retidas naquele papel naquela página. Naquilo que fiz durante horas durante toda a tarde. Naquele recente passado.
Sento na mesa da calçada. Um copo. Depois outro. Os vultos vagam sua espessura. Sua espessura esboroada.
(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)