não é poesia. não é prosa. não é literatura. não é filosofia. texto. palavra. traço. ponto a linha. entrelinha.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
a primeira pessoa
Ainda estaria vivo
se não estivesse noutro quase porto onde não estou em que não fui e de como de
onde em onde vou e para onde estive a dizer pouco do que seria mim.
Ainda estaria morto
se não estivesse diante daquilo que de modo algum posso dizer que vi ou li.
Posso dizer que senti. O bordejar da borda. O abordar da porta. O outro lado o
lado oposto o ante pé antes do pé o que não se pode viver o que não sequer se
aborta.
Aquilo de que não fui. Aquele de que não vi. A
imagem a fronteira o outro lado da mesma beira – o que não é beira desde quando
se saiba acertar a flecha ponta certeira.
O que no meio entre
os espaços entre os dois lados o confabular do que não é nem fui. Do que não
onde nem quando. Do que não dia não tarde não noite nem madrugada ou aurora nem
crepúsculo nem primavera. Do que nuvem borda do dia a bordoar bordoar bordoar
as paredes camadas as superfícies que nem diagonais nem retas. Nem pontos nem
infinitas setas. Nem longa nem curta nem apontada para outro lugar que não seja
nenhum e que no entanto um um um om do um – trêmula língua faringe garganta de
tímpano a que se dá a que se toma a nenhuma uma todas quase uma de uma em uma
instância.
É o que o um com
menos? Para dizer eu é necessário desertar de todos e isso ninguém é ou tem
coragem de dizer que não é.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)
sábado, 4 de agosto de 2012
ele veio
Naquele
dia ele veio vago vago vago feito viesse no convés de um navio. Nenhuma sombra
o perseguia embora seu ar fosse esse de prega entre o que dava a ver e o que
efetivamente existia. Nenhum sibilo de montanha o apavorara mais do que saber
que ia ter de descer e andar entre as gentes e experimentar viver no preparo de
comidas, no cuidar de fogões e pagar de contas. Mas ele tinha isso como uma
determinação interna. Ele tinha decidido que ia virar pão. Ele tinha previsto
que isso seria necessário, como fora necessário o dia em que sentiu aquilo vago
vago vago dentro dele e esse sentimento de tudo atravessar e de ser atravessado
por tudo. Agora ele tinha de aprender a viver semente entrementes todo
entrecortar do momento pequeno e o pausar das mãos e o pisar dos pés no azulejo
da cozinha e os dedos que apertam interruptores. Ser cor e corpo diariamente
era o mais difícil intento desde que lhe acometera aquele sentimento de tudo.
Presença do presente na pele na carne na hora vazia. Ele colocou a camisa,
abotoando botão a botão sobre o peito o pano que agora o envolvia. Ele calçou a
meia e vestiu como se vestem os dentros dos sapatos grossos de couro. A
ausência de nervura ou vinco no couro denunciava o pouco caminhar com corpo
feito até agora. Dava pouco a ver o que nele havia.
Ele
tinha sido silêncio até então. E ao mesmo tempo era de extremos. Intensos
extremos, essa é a verdade. E dessa forma deveria permanecer entre os
resfôlegos das horas. Contudo, ele tinha de olhar e deixar vir seja lá o que
fosse. Ele tinha de aprender a passar. Corpo no corpo. Pulsar trazido o
coração. As fibras da carne umedecendo-se no navegar do sangue. O barulho tenso
de sua articulação no pescoço.
E isso
era o filete. O que bania o seu vago para sempre. Agora era corpo mensurado e
vivo. E não mais devia se deixar apartar do que vinha. Navaga de vir vindo
sempre.
E
assim, de pé, escolhendo papéis para guardar nos bolsos das calças, pensou em
quanto corpo além disso poderia experimentar. O que vibra para além da sua
fibra molecular. O que onda havida comunicada cada a cada paralelepípeda
energia a revolutear. O encontrar. E o encontrar de tudo a parede pele
pelímetro que se vira feito página lâmina na mão. E assim com as chaves, dentes
encaixados nas fendas.
E foi
pra rua. Camisa branca na calçada. Sol estridente entre as pálpebras e o vigor
do metal de automóveis. E passo a passo na escala de centímetros inteiros
abordar da porta de onde trabalhava. Entrado, olhado, sentou-se.
E
viram-se os olhos comunicar o veio o vulto do abrido do que dele ido e olhado e
o revido do olhar do outro lado. Camisa branca as axilas lisas deslizar da pele
molhada empapada. Um riso e o desviar dos olhos, mas ele havia prometido isso
não mais fazer. Levantou novamente o rosto e encarou o ainda outro lado e vinha
a voz de um sorriso fresco no ar que recebeu em cheio. Requebrar de cabeça e um
meneio. Cabelos contra a luz da janela e ventam como chama fecham o vidro e o
vento ainda venta. Ar fresco ali, no meio das mesas e quinas e papéis e teclas
repetidas a descer e a subir nas telas pintando, mas isso não mais interessa.
Acometido e olhado retribuído e revidado. Algo em haver, isso sim era descer. E
ver. E veio.
–
Quantos bolsos e papéis você agora traz consigo.
E riu
daquilo ter sido dito.
– É que
agora os trago escritos aqui comigo o que digo.
– E não
trazia antes?
– Antes
eu só ficava pensando em pousar a caneta e nem teclas usava. Agora os tenho
todos avulsos rasuras anotadas.
E olhou
os dedos de unhas cortadas. E ouviram-se seus risos suas gargalhadas.
Naquele
dia o vento estava forte como só em alto-mar podem ser fortes os ventos. Ele
segurava o leme com confiança de vela inflada. E havia ali alguém a pôr a vela
a favor do vento. E o sulco cortava a água cortava a areia por onde o barco
passava.
(extraído do livro uns tantos outros.)
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
para qualquer vento destruir
o esquadro e a régua deslizam pela folha
a ponta seca do compasso não se fixa
tudo escorrega e teima em produzir um guizo esgueiro
o papel plano sob os olhos
mantém-se em ondas branco
o risco do grafite não pega
a esfera oleada da caneta emperra
depois de muito lutar
vejo que não há como insistir
em usar esses instrumentos
eu poderia escolher a incisão profunda
mas o recorte faria vazado o que concebi silhueta
resta-me usar os dedos para imprimir
mas a mancha desferida
escorre pelas beiras
num acesso - não de raiva mas de angústia -
desisto do traçado e rasgo tudo
uma estranha habilidade nasce nesse gesto
armo em dobras o que concebi traço
o relevo deixado sobre a mesa
projeta na parede
a superfície planejada
Assinar:
Postagens (Atom)




