não é poesia. não é prosa. não é literatura. não é filosofia. texto. palavra. traço. ponto a linha. entrelinha.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
aquiescer
A maior
parte de mim é espírito. A maior parte de mim é erro. A maior parte de mim não
sou. A maior parte de mim não veio.
Uma
partícula minúscula que sobrevive e acorda todos os dias como eixo. Uma parte
pequena mesmo minúscula que toma conta de tudo e que me leva ao outro lado esse
outro lado em que nada nada nada tem de fato corpo estático mas é somente via.
A maior
parte de mim não veio a maior parte de mim não sou. A maior parte de mim é erro
a maior parte de mim não houve.
Quem
quer que tenha passado por aqui tomou café há pouco. A caneca com o fundo
escuro do líquido ainda quente não esconde. A cama deixada desfeita. Os sapatos
do dia com barro. As marcas dos dedos na poeira deixada sobre os cantos. As
pequenas lascas de vegetais trazidas pelos calçados ainda dispersas pelo
assoalho. O tapete guarda os fiapos da manta usada à noite. Na mesa de centro o
livro aberto e o marcador largado. A janela ilumina a poltrona em que a
almofada marcada denuncia que alguém ali há bem pouco tempo esteve. As fibras
de cada objeto ainda retêm o calor do braço da mão do alguém que aqui.
A maior
parte de mim que aqui veio veio como onda que os olhos as mãos o corpo
derramam.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
terça-feira, 2 de outubro de 2012
ele se foi
Foi viver lá. Há anos. Num sei. Deu nele. Não sei o
que foi. Sei que foi. Num dia pro outro. Que eu soube. Subiu. Foi pra onde
ninguém viu. Ser um outro. Zé das couves? Ou qualquer outro. Um dia que não
teve o após o outro. Sumiu. Foi pra longe. Lá onde o Judas nem sabe se é onde.
Desaparecer não desapareceu que às vezes vem notícia de encontro. Mas tá lá.
Onde ninguém sabe direito onde. Num lugar. Certamente. Não qualquer. Pra
qualquer pode ser que pareça. Mas que escolheu acho que deve ter escolhido.
Todo mundo escolhe o canto em que se esconde. Não escolhe? Vai ver. Quando
chega chega certo. Não tem erro. Pode ser que não encontre. Cara a cara. Pode ser
que seja esse o intento. Quem esconde não sabe ao certo do que se esconde. Ou
quem. Nem voltou. Nem um dia. Fica lá. Sem ter ninguém que saiba direito onde é
que fica. Sei que fica. E parece longe. Agora dizer pra voltar não tem quem
diga. Não tem quem chegue. Ou se chegue que alcance. Ou que alcance de modo a
se fazer ouvir. Deu de ombros. Deu as costas. Deu nos pés. Não tem lado certo
por onde chegue. Não tem lado certo por que alcance. Sei de nada a fazer pra
tirar ele de lá pra fazer ele voltar. E também se voltar já não chega mais como
foi. Já nem sei se vem como ficou. Se chegar já não chega a vir o que foi.
Chega outro. Se é que vem.
(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
clark
Eu acordei outro no
mesmo lugar, agora eu sou assim. A colcha o brilho da tarde o quarto o tecido
que cobre a cama. O comum da manta a calma que me desce ao raio e à sombra que
entra pela janela. Eu que sou outro sem direito saber quem fui. Que já não me
ajusto em minhas roupas que já de mim não fujo. Eu acordei outro agora em meu
lugar eu de verdade esqueci o de onde fui o que onde surjo. Eu acordei assim
olhando de perto cada fibra dos meus dedos pousados sobre a colcha e a colcha
sobre o travesseiro.
Foi assim: era de
alvitre que eu tivesse vindo de outro lugar. Arrumasse o caminho por onde eu ia
passar. Era mesmo uma outra pessoa que era. De quem agora eu já nem lembro.
Fiquei aqui no meu dia o dia comum a passar o que eu já nem me lembro.
Fechadura e a porta
atravessada pelo outro lado. Agora agora uma sala um tapete-sofá uma cadeira e
alguém sentado. Era o intruso o que dormia e ocupava esse lado? Era um algures
um sem luzes um viver confuso sobre aquele estado. O como um outra pessoa o que
não se vê pelas costas. Quando a luz do abajur dá um close num anoitecer de
febre.
Eu acordei outro
este aqui e quem sabe?
Era de um susto
esse que vinha e via areia onde antes não sabe direito o que via. Se é que via.
Era um desdia outra esfera. Numa casa difusa um fulgurar de outra era. Era um
passando do passar do outro lado do muro era um futuro do outro não estava
claro e nem era escuro.
No semblante não
havia nem as linhas nem os horizontes tudo era uma concha onde se juntam
correntes de muitas águas. Era um ralo que não suga pelo contrário espalha
espirra ponto disperso de todas as praias.
E o que se poderia
dizer de mim sem os meus óculos. Eu era um Clark sem capa e estava ausente. E
no entanto estava ali, por outro lado, de outro modo, de um jeito estranho uma
outra maneira de ser gente. Eu nem via ou reconhecia. Era o que cria e que
vinha um jeito de inventar divergente. Nem desse mundo nem outro mundo um total
estranho do qual nunca se disse ou se viu ou se provou nunca um local do qual
se possa dizer um isso ou um isto. Um estar errante por outro lado difícil de
crer impossível descrever. Um mundo algum um lugar nenhum zona do nenhum
instante cúspide do vácuo abstruso lugar de onde algures já se possa dizer.
Era o vagar vagante.
Você jura?
Com quem falo?
Aqui não há quem
possa dizer ou ouvir?
Aqui vai do que
aconteceu.
Você viu? Ou caiu?
Ou vagou? Ou já foi desse mundo ou de lá cogitou?
Cava cúspide alvo
do olvido e do que não dizer. Outro lugar terra nenhuma de que se possa volver.
Você viu? Ou
ocupou? Você dali já voltou?
Nem a sombra franja
ou fagulha nem o vento ou o vulto nem o lugar nem o minuto.
Você viu ou voltou?
Um trepido
burburinho um silêncio descontínuo um lampejo borda do dia um fulgurar turbulento
um fraquejo descair um lampejo de meios. Outro lugar nem um algures vasto um
mirar sem lá estar um de outro modo ver.
Você viu ou de lá
voltou?
Você um outro que
habita. Você um outro tão outro que nem direito posso textemunhar o que foi já
que outro vou outro encontrar por outros meios.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)
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