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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

aquiescer



A maior parte de mim é espírito. A maior parte de mim é erro. A maior parte de mim não sou. A maior parte de mim não veio.
Uma partícula minúscula que sobrevive e acorda todos os dias como eixo. Uma parte pequena mesmo minúscula que toma conta de tudo e que me leva ao outro lado esse outro lado em que nada nada nada tem de fato corpo estático mas é somente via.
A maior parte de mim não veio a maior parte de mim não sou. A maior parte de mim é erro a maior parte de mim não houve.
Quem quer que tenha passado por aqui tomou café há pouco. A caneca com o fundo escuro do líquido ainda quente não esconde. A cama deixada desfeita. Os sapatos do dia com barro. As marcas dos dedos na poeira deixada sobre os cantos. As pequenas lascas de vegetais trazidas pelos calçados ainda dispersas pelo assoalho. O tapete guarda os fiapos da manta usada à noite. Na mesa de centro o livro aberto e o marcador largado. A janela ilumina a poltrona em que a almofada marcada denuncia que alguém ali há bem pouco tempo esteve. As fibras de cada objeto ainda retêm o calor do braço da mão do alguém que aqui.
A maior parte de mim que aqui veio veio como onda que os olhos as mãos o corpo derramam.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ele se foi


        Foi viver lá. Há anos. Num sei. Deu nele. Não sei o que foi. Sei que foi. Num dia pro outro. Que eu soube. Subiu. Foi pra onde ninguém viu. Ser um outro. Zé das couves? Ou qualquer outro. Um dia que não teve o após o outro. Sumiu. Foi pra longe. Lá onde o Judas nem sabe se é onde. Desaparecer não desapareceu que às vezes vem notícia de encontro. Mas tá lá. Onde ninguém sabe direito onde. Num lugar. Certamente. Não qualquer. Pra qualquer pode ser que pareça. Mas que escolheu acho que deve ter escolhido. Todo mundo escolhe o canto em que se esconde. Não escolhe? Vai ver. Quando chega chega certo. Não tem erro. Pode ser que não encontre. Cara a cara. Pode ser que seja esse o intento. Quem esconde não sabe ao certo do que se esconde. Ou quem. Nem voltou. Nem um dia. Fica lá. Sem ter ninguém que saiba direito onde é que fica. Sei que fica. E parece longe. Agora dizer pra voltar não tem quem diga. Não tem quem chegue. Ou se chegue que alcance. Ou que alcance de modo a se fazer ouvir. Deu de ombros. Deu as costas. Deu nos pés. Não tem lado certo por onde chegue. Não tem lado certo por que alcance. Sei de nada a fazer pra tirar ele de lá pra fazer ele voltar. E também se voltar já não chega mais como foi. Já nem sei se vem como ficou. Se chegar já não chega a vir o que foi. Chega outro. Se é que vem. 

(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

clark



Eu acordei outro no mesmo lugar, agora eu sou assim. A colcha o brilho da tarde o quarto o tecido que cobre a cama. O comum da manta a calma que me desce ao raio e à sombra que entra pela janela. Eu que sou outro sem direito saber quem fui. Que já não me ajusto em minhas roupas que já de mim não fujo. Eu acordei outro agora em meu lugar eu de verdade esqueci o de onde fui o que onde surjo. Eu acordei assim olhando de perto cada fibra dos meus dedos pousados sobre a colcha e a colcha sobre o travesseiro.
Foi assim: era de alvitre que eu tivesse vindo de outro lugar. Arrumasse o caminho por onde eu ia passar. Era mesmo uma outra pessoa que era. De quem agora eu já nem lembro. Fiquei aqui no meu dia o dia comum a passar o que eu já nem me lembro.
Fechadura e a porta atravessada pelo outro lado. Agora agora uma sala um tapete-sofá uma cadeira e alguém sentado. Era o intruso o que dormia e ocupava esse lado? Era um algures um sem luzes um viver confuso sobre aquele estado. O como um outra pessoa o que não se vê pelas costas. Quando a luz do abajur dá um close num anoitecer de febre.
Eu acordei outro este aqui e quem sabe?
Era de um susto esse que vinha e via areia onde antes não sabe direito o que via. Se é que via. Era um desdia outra esfera. Numa casa difusa um fulgurar de outra era. Era um passando do passar do outro lado do muro era um futuro do outro não estava claro e nem era escuro.
No semblante não havia nem as linhas nem os horizontes tudo era uma concha onde se juntam correntes de muitas águas. Era um ralo que não suga pelo contrário espalha espirra ponto disperso de todas as praias.
E o que se poderia dizer de mim sem os meus óculos. Eu era um Clark sem capa e estava ausente. E no entanto estava ali, por outro lado, de outro modo, de um jeito estranho uma outra maneira de ser gente. Eu nem via ou reconhecia. Era o que cria e que vinha um jeito de inventar divergente. Nem desse mundo nem outro mundo um total estranho do qual nunca se disse ou se viu ou se provou nunca um local do qual se possa dizer um isso ou um isto. Um estar errante por outro lado difícil de crer impossível descrever. Um mundo algum um lugar nenhum zona do nenhum instante cúspide do vácuo abstruso lugar de onde algures já se possa dizer.
Era o vagar vagante.
Você jura?
Com quem falo?
Aqui não há quem possa dizer ou ouvir?
Aqui vai do que aconteceu.
Você viu? Ou caiu? Ou vagou? Ou já foi desse mundo ou de lá cogitou?
Cava cúspide alvo do olvido e do que não dizer. Outro lugar terra nenhuma de que se possa volver.
Você viu? Ou ocupou? Você dali já voltou?
Nem a sombra franja ou fagulha nem o vento ou o vulto nem o lugar nem o minuto.
Você viu ou voltou?
Um trepido burburinho um silêncio descontínuo um lampejo borda do dia um fulgurar turbulento um fraquejo descair um lampejo de meios. Outro lugar nem um algures vasto um mirar sem lá estar um de outro modo ver.
Você viu ou de lá voltou?
Você um outro que habita. Você um outro tão outro que nem direito posso textemunhar o que foi já que outro vou outro encontrar por outros meios.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)