não é poesia. não é prosa. não é literatura. não é filosofia. texto. palavra. traço. ponto a linha. entrelinha.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
o vendo
No
sofá. Há horas. Olhando, parece, para a ponta dos pés. Para a ponta única,
bico, que fazem os dois pés no tapete. Encontrado somente consigo, ao que
parece. Sem mais nada a olhar. As mãos deixadas ao lado das coxas. Assim. Seu
olhar não é perplexo, aquele olhar estúpido das pessoas que ficam em estado
catatônico. Seu olhar não é circunspecto. Seu olhar é ubíquo, o quanto podem
ser ubíquas essas duas gelatinas que se inserem nas cavidades da face. Do
rosto. Seu olhar ubíquo impressiona mais porque é impossível encará-lo de
frente. Impressiona pela ubiqüidade que exala de seu movimento de corpo.
Podemos dizer que seu corpo todo olha num movimento líquido que inscreve mil
sentidos ao seu estado sentado ali no sofá. Há horas.
2ª voz
— Mas ele não fala com ninguém? Alguém já tentou tirá-lo desse estado?
1ª voz
— Para quê?
2ª voz
— Ora, para saber o que aconteceu.
1ª voz
— O que aconteceu é impossível saber. Basta olhá-lo e ver que ele está todo ali
pousado nesse ato de olhando olhar.
2ª voz
— O mundo lhe passa por dentro.
1ª voz
— O mundo lhe toma o de dentro. Que mundo?
2ª voz
— Esse mundo de fora.
1ª voz
— De qual fora? O seu ou o meu? Não, definitivamente, não é o mundo o que lhe
vai por dentro.
2ª voz
— Impressionante.
1ª voz
— Você também consegue ver?
2ª voz
— Já estou vendo. É um colocar-se todo sentido ali sentado em estado de vendo.
1ª voz
— Você começa a ver.
2ª voz
— Olhar para ele nesse exercício é ver o ver que pode se cumprir na trajetória
de um para outro.
1ª voz
— E não é só isso. É matéria; tridimensionalidade aparente que o atravessa.
Olhar ele ali nesse estado é vislumbrar um vendo.
2ª voz
— Vendo solo: o que nos remete de novo a um dentro.
1ª voz
— Não. O interno não há. Você supõe que sejamos simples vértices?
2ª voz
— Umbigo do encontro entre o dentro e o fora. Tudo é o caminho. Sim, agora
vejo.
1ª voz
— Um caldo. Um mais que caminho, um leito de leite e rio fluindo. Colocar o pé
nesse caldo é supor pé onde não somos o outro. Tudo é um fluir, fluindo.
2ª voz
— Olha, parece que ele se mexeu.
1ª voz
— Não, acho que não.
2ª voz
— Parece sim, veja, seus olhos estão mais presentes. Piscou. E agora? O que
vamos fazer se ele sair desse estado? É preciso que ele fique. Quede-se ali
para que possamos ver o vendo.
1ª voz
— Ele olha, olhe que ele nos enxerga. É a menos... enxerga-nos. Como prendê-lo
no permanente do agora sendo? Viu? Ele nos perguntou algo. O que dizer?
2ª voz
— Ao que ele nos pergunta não temos ouvido. Só temos ouvido para o ver.
Apreensão de estudo.
1ª voz
— Congelamento. Na borda dele há movimento. Agora escuto o que ele diz. Escute.
Seu gesto empurra matéria que nos atinge. Seu som nos fala de uma superfície.
Não há borda nele.
2ª voz
— Nisso eu li, eu vi o olho dele. Agora escute de novo ele nos dizendo.
1ª voz
— O que ele diz em mim é um silêncio.
2ª voz
— Fechou-se?
1ª voz
— Do que plausir mais do que o que ele nos diz? Contra-matéria. Silêncio é um o
que ele diz.
2ª voz
— Espera. Estou escutando; melhor: vendo. Ele se aproxima. Ele traz um calor
com seu corpo vindo. Matéria caldo que nos converge, que nos conflui.
1ª voz
— E o que é que vemos? Vemos ele ali vindo e vendo cada um de nós de seus
globos a nos engolfar como um movimento. Vemos. Esse é um momento?
2ª voz
— Caldo de contato num corpo-abraço. Esse é o movimento.
1ª voz
— Nem tudo é espaço ou tempo. Nem tudo é fora ou dentro. Na verdade nada —
coisa surpresa —, tudo é elemento. Pensamento é matéria quando vindo de um que
não se fez nome. Que só se fez dobra donde tudo nada no veloz do vin
2ª voz
— de vir...
(extraído do livro uns tantos outros.)
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
barulho
Tudo
era sempre aquele mesmo barulho. Barulho surdo mudo barulho aquilo silêncio.
Barulho do sol crestando as coisas e aquele frio por dentro. Barulho do dia no
longínquo do passar da passagem. Barulho da janela blindada do trem. Barulho de
ferrovia de montanha de pastagens barulho de plantações de castelos de torres
de usinas barulho de gente que vive naquele recôndito naquele enfiar dos olhos
por entre o que lá longe colina por sobre o que aqui perto telhado. Tudo tudo
tudo era um barulho silêncio barulho que acompanhava a viagem.
(extraído do livro um a um - os poros da paisagem pólen.)
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
contínuo
E se não houvesse mais nenhum contínuo
ali. Se tudo fosse plano e conexo em todas as direções por todas as dimensões.
E se tudo fosse como uma malha rede líquida mar que na verdade abrigasse a mais
quebrada forma de se interpor e de ser abismo? E se tudo fosse cavo cálculo ao
contrário vidro quebrado por onde atravessa a luz que não se faz nunca uma só
mas que respira inteira como uma cortina ou um lençol quebradiço sem intervalos
e ao mesmo tempo inteiro pulsar descontínuo.
E se não houvesse um só vento e viga
se como os passos fôssemos minutos dobrados ao contrário da ampulheta que gira?
E se todos os caminhos nunca tivessem sido ido do construído tudo não passasse
de um circuito infinito. E se todos tivéssemos em nós as cordas os laços os nós
que pulsam e param que nunca descansam em uma só estação? E se ao mesmo tempo
que agora fosse ontem e estivesse ali a lâmina seta inalcançada do futuro? E se
não fôssemos somente a carne os nervos as veias e os músculos mas
contemplássemos a cada vulto voz grito ou canto o que nos contempla de um outro
espaço de um outro tempo de um outro canto? E se através de nós
ultrapassássemos sementes como força voltagem través e complicássemos em dobras
bordas de entres entes desintegrando intensos grão a grão num granulado de zil
voltz?
E se nos encontrássemos para além de
onde estamos e nos déssemos conta de que tudo não passou de um plano de um
conto de uma só figura e que agora estamos mesmo aqui do mesmo lado
compreendendo que não se tem de fazer nada ou ir a lugar nenhum o melhor meio
de viajar é aquiescer ficar ficar e ver desfazer o ser ser nenhum pra com plis
com pleni com plexo alcançar o o que nunca é onde está que nunca um só é e que
nem é nem quando e nem sequer se sabe ao certo se e como.
(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)
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