não é poesia. não é prosa. não é literatura. não é filosofia. texto. palavra. traço. ponto a linha. entrelinha.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
quarta-feira, 10 de abril de 2013
no deserto
This is the end. Em todos. Porque
navega dentro do sangue o indiscriminado entre o bicho que deixou de ser bicho
e o homem que nem sabe o que é humano.
Em todos em todos em todos: olho do como é que você da quina agulha
meu ser? A criança; as dobras todas do intestino, todas as torções musculares.
Todos os gritos de dor que nem sequer sabemos dar. Estamos todos todos todos
todos, sem exceção, caminhando para o deserto. O deserto. Areias escaldantes
depois de ver o horror.
Paredes quebradas. Ex-janelas. Batentes em ruínas. Parecem grandes
montes de merda empedrada pela avenida. Aberta avenida. Sobre o solo de barro
abrido ao infinito. Agora, as árvores tomam a avenida. Agora os viadutos caídos
mostram o dentro, as entranhas arquitetas, malhas de ferro e aço, redes
afogadas pelo concreto agora ruído. Covas. Corpos.
...Mas o que houve aqui?
Era no deserto. Ninguém sabia quem eu era. Camelo em pé de apalpo.
Cravando cada olho. Espraio-me de priscas eras. (Convés, convém, convivas,
palavras remotas, dentro de mim repetidas.) O resto é o cascalho de areia
quebrada, o solo erguido do que são os edifícios destruídos. Não há mais
navios, não há mais caminhos, há agora areia, cascalho, feita de cacos de
asfalto. E é tudo amarelo e marrom e cinza. E tudo esgueira pela antes rua,
pela agora meda via. Ratos. Ratos. Ratos.
Calpe, culpe, calia, cama, nitrato, vitrina, vitral, vidrilho,
migalha! Tudo é um configurar de trechos sem bordas.
Fronteiras a varar. Roupas penduradas para secar. Roupas soterradas
para secar ao ar. E não há mais ar. Não há mais har.
As névoas, as nesgas já não existem. Tudo é nítido, tudo é um
compelir, impelindo, à aguda percepção. O
que ocultar nesse imenso vazio, no deserto? Estar aqui olhando,
perscrutando tanta atenção: obstinação reflexa que gera as franjas do real.
Vara a mente, vara a íris. Os olhos, ocultos por detrás do cérebro, enxergam
demais. Fabricam infinitos prismas, faces da apreensão; confiscam a realidade.
Enxergam-na por si, esquadrinham-na, sabem como fazê-la. Plenitude extrema da
razão. Cada fagulha de imagem é obtida e transfigurada. A realidade arrasta-me
de encontro a essa nuvem de nitidez, arrancando-me toda centelha do borbulhar
de vísceras.
Nesse silêncio, nesse nada, onde a princípio tudo parece igual,
depois tudo é tão diferente, depois tudo tão complexo e tão absurdamente físico
e, por isso, díspar. Essa presença irrigada pela aridez. Iridescer, luzir da
ausência, e o pensamento na amplitude.
Não tenho nada com que deparar para aplacar essa constância de
pensamento, de percepção. Tudo é tão nítido e claro. E vazio. Ninguém sabe quem
eu sou. Estou andando. O camelo balança meu corpo para a frente e para trás.
Ninguém sabe quem é. Poucos e raros são os momentos em que eu mesmo posso
dar-me à consciência o saber-me eu. Tudo ficou sem sentido. Todos estão andando
como eu. Todos todos todos caminham infinitamente para dentro das areias.
Porque tudo corre por se tornar areia. Um esmigalhar das coisas todas, que
acomete os objetos fabricados. Como um vírus muito potente, na realidade não me
lembro qual. Nem sei mesmo como consigo escrever estas palavras aqui neste
papel. Não sei como consigo encontrá-lo, lembrá-lo. Tudo se perde no instante
seguinte. Todavia, o que não consigo é deixar de perceber, mas, cada vez que
tento trazer sentido para as coisas, elas se desfazem. Perco a linha de
raciocínio. Prendo a atenção, percebo no vazio.
Prédios em lascas. É o que vejo. E esse animal embaixo de mim a
balançar-me num ritmo monótono. E essa crescente consciência da fagulha, das
coisas que se transformam gradativamente, que se dissolvem; melhor, que se
esfarelam milimetricamente, transformando-se cada vez mais em areia.
Eu esqueci quem sou. Eu esqueço. Eu esqueço o que é que essas
pessoas todas estão fazendo indo para o lugar oposto ao lugar para onde o meu
animal parece querer me levar. Não há mais falar. Não consigo entender uma só
palavra do que me dizem. Não consigo pronunciar uma só palavra que faça sentido
para outrem. Muitas vezes tentei dar este texto para outros lerem, mas ninguém
nem sabe o que é que quero quando aponto o dedo para o papel. Olham para o
papel pensando (pensando?) que quero tratar dele. Encostam o dedo nele e esse
gesto todas as vezes produz a degeneração do material. Tantos buracos feitos
que acabei desistindo de mostrar o que escrevo. Assim é também com os panos que
visto. Ninguém pode encostar em mim. Nem eu posso encostar em ninguém. Não nos
podemos tocar ou cheirar, as coisas que nos vestem entram em estado de
decomposição. Assim é com a memória. Esqueço menos quando estou só, a escrever.
Mas não ousei ainda fabular quem sou.
Ir para onde? Sempre me ponho a dizer. Cada vez que pronuncio essa
frase sou olhado com susto. Já passei pelo desespero de querer tocar, mas a
experiência amarga de ver se desvanecerem as vestes de meu interlocutor é mais
assustadora do que a angústia de querer tocar ou dizer. Dizer o quê? Ademais,
não posso exalar em direção a algo ou mesmo a alguém, que desfaço qualquer
arcabouço daquilo ou daquele a quem dirijo meu hálito ou minha voz. Esqueço o
que ia fazer ou dizer, é inútil então prosseguir. Dou graças, sei lá a quê, que
ainda nos possamos olhar. Olhamo-nos mutuamente e a maioria desses olhares se
erige no medo e na dor. Precavidos contra o desvanecer do ser.
Amanhã talvez tenha coragem de reler e ver o que configurei e o que
pude acumular e o sentido que poderei dar a tudo isso. Amanhã.
Não posso vestir outras roupas. Cada vez que toco nos panos ainda
inteiros que encontro pelo caminho os desfaço. De modo que a cada minuto
torno-me mais nu. Na verdade nem sei como estamos vivos ainda, porque a água
que tocamos transforma-se em algo que não sei bem o que seria. É como um dividir-se.
Decompor de átomos a desfazer a água que beberíamos.
O que nos resta, parece, é só
ver. Primeiro foi um transitar de muitas gentes. Aos poucos, nós poucos,
começamos a ver as pessoas a se desfazerem. Não havia aquilo que conheci no
passado como gritos de dor. Não havia desespero no olhar. Parecia um querer se
quebrar no vácuo de cada uma dessas pessoas. Sobramos o quê? Tenho medo de
perguntar, porque isso seria me dizer. Não sei o que comigo pode acontecer.
Espaço.
Ao ler as últimas frases fui acometido de um espaço. Todavia não
terminei. Não me desfiz. A sensação era só o espaço. Ruuuuuuuuu um som do vazio
interno. O que será isso? Não posso pensar, dirigir minha percepção para o que
é meu configurar espaço.
Meu camelo parou de andar.
Parou. Desci dele. Pisei sobre escombros do que sei lá o que era aquilo. Canos,
parecem canos, porque se estão fazendo em pedaços que, pontiagudos, machucam-me
a sola dos pés. Sangra. Líquido vermelho. O sangue escorre e não se desfaz.
Esfrego, então, a palma até rasgá-la e ver sair esse único líquido no qual pude
tocar sem que ele deixasse de sê-lo. Bebo. Alimento. Boca, fel, sensação fel de
nutrimento. Olho para a palma e vejo as linhas do que era. Olho e vejo as
linhas do que sou. O que sou? Nem mesmo a areia desse tempo me roubou a
sensação do que pude sentir que sou. Corpo escorrido de dentro o sangue,
alimento líquido viajando em retorno. Não vazio. Não espaço. Antes cuido que
sou dentro. Carne e líquido. Camadas. É o caso de dizer que sou feito de
avesso. Entre minhas errâncias existem grotas para onde escorrem rios. Sou o
avesso. O outro lado, que se arrasta pelas beiras. Corda roçada, tremida, eu
sou a tripa.
Arremesso-me no abismo, na garganta sem água. A garganta em lança.
Arremesso de faquir que arranca de si somente cacos. Sou o que se consuma, o
que se consuma estilhaço.
Olho, continuo vendo. Olho para minhas mãos e não me desfaço. Digo
algumas palavras em voz alta e pela primeira vez estou só. Não há quem esteja
aqui ao lado que eu não possa tocar. Finalmente estou só. Ainda não sei quem
sou mas já posso ver que estou só. Pude reler, pude reler e ver entre as coisas
todas escritas o eco delas aqui dentro. Sinto-me dentro.
Estrada, agora há uma estrada aberta. Nela não há nem um sinal de
escombros. É uma estrada que conduz a um imenso vazio de sol, cascalho e areia,
areia mesmo, areia havida dos muitos tempos que a fizeram grãos. Espraio-me de
priscas eras. Era o deserto, para onde eu finalmente ia.
(extraído do livro "Babel, é claro" - publicado em 2002.)
quinta-feira, 4 de abril de 2013
apareceu a margarida
Hoje,
esbarrei na eternidade ao ver minha avó rir em mim. O riso balançado e não
contido. O riso espremido de ombros sacudindo. Riso gargalhado no silêncio da
alegria do que o fez rido.
Hoje, nas
minhas entranhas, novamente encontrei minha avó, morta havia anos. O riso dela,
o que era nela, o senti vibrado na gargalhada dada que eu dei. E habitei o que
ela era, o que a fazia rir assim. E talvez por isso tenha encontrado um laivo
da eternidade que sempre escapa.
Hoje,
esbarrei na eternidade no gesto expresso do meu corpo o gesto de outro corpo
que a detinha – que a detém.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
segunda-feira, 1 de abril de 2013
arco aro areia
Chão de
areia, pedrinhas ínfimas e uma borboleta. Fotografia. Estava abril e o
claro-escuro da atmosfera nos dava as 14 horas como uma alegria de sombra fria
e estridente fulgor do céu e do sol e do outono que nos refrescava. Andávamos
na praia vazia. Olhamos para trás e nossas pegadas lado a lado faziam dunas em
contraste do amarelo areia e o cavado escuro pelos nossos pés naquela tarde.
Arco no
ar quando nos encontros aproximávamos os nossos pulsos nossos fluxos e por
alguma química de nossos equívocos éramos criaturas mágicas um para o outro. E
isso era um pra sempre que se armava de nossos laços de nossa voz. Campo de força
que bania para fora todo o perigo.
Cavo na
distância as palavras só as do que fomos. Mas o que poderia dizer de nós, que
fomos, só com o olhar por essa face?
Daquela
tarde de areias e pegadas, daquele dia em que nos espraiamos pelo céu e pelo
sol, muito se inaugurou na diferença. Aqueles todos ventos em nossos cabelos em
nossos panos, aqueles todos passos cavoucando eram passos para o oposto um de
cada um.
O que
desconhecia naquela época era o que eu era era o que você era. Falo de conhecer
com o saber salgado o eflúvio da onda o úmido do ar; conhecer com a tripa e com
o corpo. Naquela época isso não chegava a capturar. Assim desvaneciam-se-me os
sentidos e eu ficava apartada dessa apreensão.
Eu não
te via; o que eu via só vinha de mim. Eu soprava e te fazia criatura do que só
eu podia. Você de sua parte se ocupava em me supor e em me suprir. Alimento
alimentiras alimentranhas que não faziam nada além de estar voltadas para o que
não viam.
Aquele
zero que fomos não era algo que se pudesse ver. Éramos o zero por onde
passávamos entranhas; aros que julgávamos nos preencher. Mas também vibrávamos
à nossa revelia. E esse reverberar teve um poder alquímico de transmutar em mim
o que era resíduo. De inaugurar um outro modo de me fazer plausível e de me dar
a ver. Foi desse um dia abrido que dei por mim a desejar o instante. E em você
não projetei mais o abrigo.
Cavar
no oco. É o que não mais procuro.
Mas
tenho de passar pelas paredes e portas por onde vivemos, já que nossa história
não vem só do que eu via naquela tarde na praia vazia.
Paredes
e portas de onde não soubemos escapar. Comprimidos, esmagados pelo nosso
ordinário enxergar. Nosso espaço afiado por lâminas ardidas a frisar os poros
cortar nossos pulsos interromper nosso fluxo. Nosso diário ácido de alimentar o
que de pouco havia o que de ponta havia em nossa prisão espelha de nos querer
afirmar só o ínfimo.
Cacos
de labirinto o corredor a sala a cozinha, a janela a porta e a pia e mais
sobretudo a nossa calvária mobília por onde não nos deixamos escapar. Não nos
deixamos vir eternos naquilo que de nós podíamos ter feito o infinito. Fomos
cumes invertidos. Nossa avidez não nos deu nada a não ser o voraz e o
interrompido. Ódios nos ódios nossos olhos aduncos nos comprimiram para o cada
vez mais aflitos.
Portas
e paredes e a luz que entra por esse canal. Abissal. E as sombras foram facas a
cortar nossos vultos que a despeito de tudo ainda se debatiam para tentar
passar. Por paredes e portas pisando os tapetes das salas num enovelar
obstante, obtemperante; subterfúgio incessante de procurar ter de volta o que
nunca conhecemos. O que fugia de nós um fugir permanente. Roçar de equívocos
gerando arestas esquinas.
Você me
abarcava e com sua asa só me afastava. Eu constatava que nunca conseguira te
ver. Nós nos perdíamos por entre o que queríamos ser. Fuga de ausentes.
E não
porque não nos tenhamos segurado com todos os dedos.
Nossas
angústias nosso havido medo. Tudo o que fazíamos era um engate de unhas era um
mútuo atropelo. Nosso zelo era um não nos achar porque insistíamos em procurar
nossos obliterantes mesmos. Eus de conchas ocultadas de seu próprio vindo.
Assim,
instante a instante, quando vimos já nem na praia nos pertencíamos.
Já nem
nas tardes, nem nas nesgas de dias, nos fiapos de crepúsculos nos convivíamos.
Nosso viver comum era um escoar de corpos de olhares de abraços. Um escoar
ininterrupto que nenhum dique podia aplacar. Éramos outros fios a nos
entrelaçar outros novelos. E nem podíamos rir ou chorar. Nem podíamos olhar
para o aquilo que estávamos fazendo, que estava nos acontecendo, que estávamos
acontecendo.
Sei que
escrevo um não configurar da nossa história. Meu texto cava o que não mais se
pode experimentar; rasura que só explica em traços que não fabrica os rostos. Porque não há o
que acrescentar, não há histórias para desenvolver. Porque o que vem escrito
vem sempre vulto. Essa vertigem essa voragem essa ranhura você jamais
conseguirá ver. O que fulguro é farpa nesse texto estranho a ocupar seus olhos
e os seus sentidos com letras esquivas.
Só o
que digo a título de epílogo é que fomos o U da vala, o que ainda que pareça
nada enseja a superfície cava.
(extraído do livro "uns tantos outros".)
sexta-feira, 29 de março de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
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