não é poesia. não é prosa. não é literatura. não é filosofia. texto. palavra. traço. ponto a linha. entrelinha.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
do escuro
Agora eu posso escrever.
Agora não faz mais sentido.
No papel só há espaço pra ler e o que eu escrevo tem de ser sentido dito.
Em voz alta.
Com a lua opilando.
Com a frase no céu com estrelas brilhando.
Numa noite oblonga.
Sob o céu e as coisas.
E a frase que digo ali no lume da lua, diz:
lua.
Mas só de frase ninguém carece.
Agora só de noite
meio do mato
grilo e grama e chão molhado e terra orvalho e noite a dentro
madrugada
quem é que precisa de verbo
de língua?
Do escuro fez-se o verbo e não a luz.
Do escuro dentro, o verbo.
Do escuro vejo o ver vir tendo a luz.
Do escuro vejo o verbo
vejo o ver do verbo ver de ver a luz.
Do escuro veio o verbo ver
de ver a luz.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
sábado, 22 de janeiro de 2011
as coisas todas que dizem eu
As coisas todas que dizem eu são assim como panos ou travessas ou só peças ou quase como couros ou fivelas chaves retrovisores ou janelas.
As coisas todas que dizem eu como coisas de que se perguntam que sou eu que digo quando falo reverbero um mais de mim o mundo sobre que discorro.
As coisas todas que dizem eu como holofotes ou como lâmpadas milhões de luzes ou como câmeras.
As coisas todas que dizem eu o mesmo que fotogramas.
As coisas todas que dizem eu como âncoras ou como lâminas.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
dentes
a natureza me deu dentes
para espremer cérebros
com as mãos
olhos
para configurar contrastes
onde há abismos
testa
para espremer meu cérebro
a ver se de alguma forma não mais veja
cubos em ângulos
pedras em escarpas
a desenhar cantos
onde deve haver esferas
a natureza me deu unhas
para raspar arestas
e retomar as curvas
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
três
Um a um os poros da paisagem pólen convergem os elementos
do que vem vindo sempre. Respiração do infinito cada límetro do que dia a dia.
A miragem.
Da janela podia ver o horizonte mar e as embarcações
atravessar a linha. Era azul todo dia. Mesmo que fosse cinza. E balançava.
Nunca nada estava estável naquela toda hora mirada.
Dentro da casa era escuro. Tinha a pedra ao pé da escada.
E também vinha água em cascata por suas escarpas. Era de um escuro de contraste
com o dia. A luminosidade ardia acendida e abafada quando vivida de dentro da
casa.
Ela passava. Eu passava. Ele passava e da bandeja de
cobre se arremessavam todas as três taças.
Estávamos vivos. Era mês. O barco chegava agora ali todos
os dias. Vivíamos inseridos dentro daquela casa. E as lascas de água jorrada da
pedra sobre o assoalho de pedra mineira umedeciam aos poucos todo o solo por
onde nossos pés pisavam.
Isso queria dizer que mesmo a lareira nos dias frios com
suas línguas de azul e o crepitar de troncos, mesmo ela jamais fora capaz de
tornar menos úmida nossa jornada.
Pisada descalça. A pedra fria. O limo escorrido que se
lhe assomava. Todo o dia era esse alvorecer crepúsculo que nos aprisionava e o
mar o horizonte das ondas o balançar da linha além para o onde olhar cada vez
mais como o limo se aproximava.
Éramos três. Parecíamos únicos. Mas nos deixamos levar
pelo abordar da água. A fonte fria que vinha em cascata e já tomava os
primeiros degraus da escada. As paredes de um escuro musgo a absorver nossos
gritos engolir nosso riso.
O limo da mata da terra do rio já tomava toda a fachada.
Por dentro e por fora. As janelas já não se fechavam. A lareira deixara
adormecer a sua última brasa. Éramos silêncios os três e o nosso pesar era o
solo dos nossos dias.
Quem pode ser tão só? Quem pode ser tão triste?
Éramos escuros e o nosso dia a dia.
Até que um fugiu. Pela janela aberta um de nós escapou.
Nenhum pôde ver ao certo quem de fato foi. Já disse: estávamos imersos.
Um escapou e agora somos todos a lamentar sua fuga.
Aquele que ficou. Fuga daquele um que pela janela se despede do musgo e da água
e da pisada fria.
Agora é pela floresta. Rasgando a pele dos pés e do
rosto. Esbarrando as mãos arremessando-se e às pernas nos passos na rápida
corrida. Resfolegar da hora encontrada. Respirar do ar escapado. Encontrar a
praia de dentre os troncos os ramos as árvores. Dormir sobre as dunas.
E do outro outros aqueles três que para trás foram
deixados só reter a imagem da lua que nessa noite é só uma sombra uma
circunferência vazia.
(extraído do livro "um mundo outro mundo".)
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
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