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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

um pedaço de pano ao leo


Pegar um pedaço de pano bem pequeno e escrever nele. Escrever seja lá o que for mais pequeno do que o pedaço de pano. Algo que caiba naquele pequeno pedaço de pano. Algo tão pequeno como o pedaço de pano ou o pequeno do gesto de escrever nele.
Mas o que é tão pequeno quanto o gesto de ter a coragem de pegar um pedaço de pano? Um pano pegado a ponto de ter a coragem de pegar o pedaço de pano e escrever nele? A coragem de escrever pequeno num pedaço de pano e escrever nele. A coragem de ser tão pequeno quanto o que fica escrito no pedaço de pano.
E não é só escrever. É costurar o escrito. Cerzir nele o que quer que seja. As letras ali gestas do pedaço de pano. As letras que ficam ali e não são impressas. As letras gestas que não impressas mas registras do gesto de pegar um pedaço de pano pequeno e escrever nele. As letras cerzidas bordadas naquele pedaço pequeno de pano ali. Aquelas letras gesto.
(extraído do livro "onde houver vida a vida haverá de vingar".)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

o que dava para ver


Ele era isso. O que dava para ver. Mas o que via era menos do que o com que tinha de conviver.
Ele imaginava. Todo dia. Imaginava e pensava que já só isso estava bom. Satisfatório. Não comparava nada não urdia nada. Nada mais ele fazia que podia dizer de seu. Que podia dizer que queria.
Ficava pequeno a cada caminho ido. Ficava parado sem dizer coisa alguma. Atravessado pelo lado, por de cima, por debaixo pelo outro lado.
Não era nada pois dele o que aqui se escreve não dele nada dizia. Nem era ele. Ou ela. Nem era um que não se possa dizer que não escapa do que aqui se quer dizer.
Cavar da tarde o som da sanfona. Já ouviu? Já pairou? Já plausiu o som que vibra na sonda dessa atmosfera? O que nunca e o abrigo. O lugar fica só fica só a despeito do que eu digo.
Cruzamento labirinto linha ao infinito nito. O que dizer do que já era o que nunca foi. O que nunca será. O que não se pode aguardar porque aqui aqui aqui já está. Ao infinito o que não é dito o que não é visto o que não se cheira o que não se come o que se se experimenta se experimenta inteiramente como um roubo. O que não se prende.
Ele era o que não se prende ou apreende. Ninguém sabe ao certo o que era ele ou quem era quem. Ah, isso é seguro dizer: ninguém.

(extraído do livro "um mundo outro mundo".)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

refugiados


Chama azul, fogareiro e panela. Fundo azul, pôr da tarde estridente esparrela. Caldo azul, os mantos trajados, rosto azul, resto azul e uns borrões armados. Foco. Unhas. Vento cobertor. Chama ardente na entrada da barraca, cama caixote luzes de vela. Vozes são vozes vizinhas, entram pelos poros da tenda de tela. Iluminam as sombras como flâmulas tremulando nas paredes de tecido. Passam, passam, esbarram-se corpos, trança trança no entre olhar entre olhos entre tendas. Fogareiro água quente chaleira. Caldo azul um café na caneca de alumínio metal estridente entre dedos. Na roda comungar de caldos no final borrado azul céu azulado na fresta de céu de toda tarde.
É sempre isso de mais um dia viver. E ver descer sobre a gente a vida. Um mover-se entre as gentes; é sempre isso de ter de viver. Sentada, de longe, todo dia é uma sequência dos mesmos. Escova de dentes, os cabelos se penteiam, apruma a blusa, uso o lenço, não esquece o porvir do cada momento lento lento que sobre nós vem cair. As agruras. Homens ocos. Mulheres mudas. E aqui somos uma massa informe dos mesmos. Expulsados, repelidos, corridos, arremessados, escorraçados do lugar em que vivemos. Não se tem pátria aqui, não se tem país, não se tem par, não se tem pais, não se tem si. Não se tem nada. Reunir de corpos com vida, com algumas roupas, com algumas peças de coisas recolhidas. Sobre os caixotes a vela que eu pude arrumar. Hoje à tarde encontrei um sabão lá no tanque, agora eu o posso guardar. Tudo é isso, esse fugir a correr, tudo é zelo pelo pêlo pelo pêlo. Tudo é tormenta que entra pela tenda. Tudo é um gelo de lama de neve. Um frio, não há abrigo aqui não se sobrevive. Não têm nada. Pedaço de pão. Sopa de água e farinha. Sopa de sal e um toco de pão duro como um pau. Tem também pulgas. Agora já as moscas fugiram para onde deve estar mais quente. O banheiro para chegar leva dias. Um banho de balde já é muita regalia. Sério. Extremos. Na ponta dos dedos a unha escurece dia a dia. É preciso cuidar de cortá-la sem que se veja. Tudo é um passar de momentos. A menos. Pé no pau e na lama molhado. Pé molhado molhado molhado. Olho os outros: como é que se aguentam, de onde tiram forças para amanhã de novo preparar o caldo, lutar pelo chuveiro. Isso é o que eles que se regalam com a vida têm de vivo. Eu comigo cato piolhos, conto os pauzinhos que o ponteiro dos segundos pula. Segundo a segundo, cada a cada lentamente vivido passar marasmo do mesmo momento mudado instante a instante pelo que dizem se chamar tempo. Olha que é lento. Cada hora da manhã. O acordar com o dia escuro, o olhar o ar ainda inseguro de ser uma manhã de um dia diferente. Todos me são o mesmo dia. Estou a ficar aqui reclusa, a não conseguir variar o que sinto. Tudo é um passar do mesmo. Vivendo. Em pé. Como um pé de alface só sendo.
(extraído do livro "uns tantos outros")