quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

o sulco

O miserável dos dias vem sempre em cores. Vem sempre em contrastes de luzes em sombras setas que se fazem negras que se fazem por demais concretas porque firmes conformam-se como arestas. Sombras como facas.
O miserável dos dias vem sempre em cores em líquidos dos olhos em gotículas da atmosfera em arco-íris que se montam num plano numa camada não rompida da planosfera.
O miserável dos dias é como uma sopa onde o mundo está submerso e no entanto o que se funda ao sentido o que se faculta ao olho ao ouvido ao tato é o pequeno do frescor do ar da súmula das cores espargidas pela quela pela quela que se chama como? que sim prime onde? Pela quela pequena restrita exígua reta de claro escuro que podemos enxergar com nossa parcela de hélio.
O miserável dos dias é o que está preso à régua é o que se agrimensiona é o que se paralela paracálculos paraesferas. O miserável dos dias conta fios do plano da teia da mescla de filmes de uma outra era.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

matéria da obra prima


Queria eu fazer uma obra prima irrevogável. Dessas de que ninguém tem dúvida. Dessas que até o demônio concede o elogio da crítica. Dessas que se guarda na pele no coração no sangue cada vez que ele passa de novo pelo mesmo lugar. Queria eu saber a que recorrer para fazer essa obra memorável. Seria um gesto uma fala seria argila seria luz seria fibra óptica laser fibra de vidro? Será que seria a areia? Queria eu deixar anotada a minha visita. Passar pela sala como o que nela já habita mas que ninguém ainda tinha notado.
Queria eu ter como que um caderno insuperável onde estivesse inscrito cada passo de um trabalho soberano que a todos arrasta para fora desse plano. Queria eu ter uma obra que se alinha traço a traço fagulha a fagulha com a sinfonia dos planetas com a órbita silenciosa que descrevem com a alteração provocada pela presença de uma simples bactéria.
Queria eu ser alguém que configurou para além daquilo que se experimenta todo dia uma obra tão inequívoca que revelasse o que há de sempre presente no gesto que se inventa desde sempre.
Queria eu me alojar entre os que sem nunca ter pensado nisso fulguraram o que para sempre modificou a vida aqui na Terra porque contaminou num laivo num lance num descuido uma fibra nervosa distraída e alastrou aquele lampejo em outro lampejo que arrastou consigo outros lampejos num tremeluzir eterno de novas ondas de matéria.
Mas agora é tarde... porque quis isso.

(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)