segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

tudo era ponte



Tudo era ponte. Pedra. Era azul de moeda. Era cara e coroa era o gargalo da ampulheta era névoa era a solidão era do céu era a neblina dos campos o vapor da vela era o azul era tudo era o que estava por trás disso tudo e eu não via. Amanhecer mais um dia. Outra semana cortada na parede da cela ou da caverna ou do tronco da palmeira naquela ilha. Nem baú nem Trafalgar Square nem relógio de algarismos romanos sobre a torre da estação nem painel de controle da aeronave. Nem o pulso mais batia. As incontáveis horas naquela cabeceira. As inúmeras páginas lidas para ele ao longo de todos aqueles dias. Selva de febre e de agonia. Horas de lâmpada e muitas muitas paisagens vistas por trás da escotilha. Céu de relâmpagos. Carpintaria. Nuvens suspensas por sobre a tenda do final da tarde daquele dia.

(extraído do 'livro' "afeto confesso")

abs tracto


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

solo



Sozinho. Desacompanhado. Sem ninguém por perto. Nem sequer ao lado. Sozinho. Isolado. Só um canto escuro. Pouco iluminado. Nem um abajur. Nem uma janela. Um completo quadrado. Sem saída acima. Sem um alçapão. Sem andar embaixo. Um completo escuro. Nem uma cadeira. Nem vi passar o rato. Um completo solo. Um completo incompleto. Um inexplicável solo. Sem nem um som por perto. Nem o que sai de dentro. Nem o sangue escorre. Nem o ar mais entra. Um completo solo. Encontrado de lado. Sem sequer um nome. Sem nenhum passado. Um completo solo. Nem sequer tocado.

(extraído do 'livro' "um a um - os poros da paisagem pólen".)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

enfunar de camisa



O peito estufava a camisa. E estava longe. Longe do horizonte. Longe da vigília. Longe da janela. Longe longe de toda linha. Estava naquele momento em que não há nenhum momento. Estava naquele encruzilhar em que de modo algum se pode chegar sem chegar. Estava ali sem que ali estivesse. Sem que lá fosse algum uma quimera de alguém. Nenhum horizonte e a larga. A fenda do que ruge a vir. Rumor de cores de ares de tremores. E era um arco a paisagem música. Dobra sombra nova novo ar. Uma camada do longínquo do agora do ubíquo de que não há nenhum falar. Do que nada mais se diga sem que seja alvitre. Do que tudo insta urge vibra. Do que tudo fibra.

(extraído do 'livro' "onde houver vida a vida haverá de vingar".)

something to see


sábado, 13 de fevereiro de 2016

o estreito da fresta



O que já estava morto desde o início? Fadado ao não? Nada? Na vida nada existe traçado. A vida não existe sem se ver modificando. O que não se vê para além desse não? Quando se está de viseira. Quando se usa um monóculo. Quando se vê somente o que acontece diante daquela fresta.
Quarto escuro. Cama perfume. E uma mão. Que passa pelo cabelo. E a respiração. Hálito quente. Quem poderia ser que respira aqui ao lado? Uma presença. Em que dimensão se amontoam os corpos nos cômodos pegados? Cama berço criado-mudo tapete cortina janela que dá para a casa ao lado. Toda a luz se avizinha de manhãzinha e sempre já era tarde. Respirava esse alguém toda a noite inteira aqui bem perto ao lado. Mas ninguém nunca esteve aqui. Só o que esteve foi o hábito.
O que fazer quando o que se pode ver é apenas um pequeno pedaço? Uma franja e o mundo fica todo inteiro inteiro do outro lado.

(extraído do 'livro' "um a um - os poros da paisagem pólen")