quarta-feira, 28 de outubro de 2015

enredo



Eu poderia escrever pelas bordas. Pintar pelas bordas. Coser pelas bordas. Caminhar pelas bordas. Olhar pelas bordas o todo como quem faz o invento dentro por dentro sem que desse dentro nada se cave acompanhe ou destrua. Eu poderia somar inimigos escrever cometendo barbarismos usar garranchos em lugar de linhas que se desenham pelo horizonte da página. Eu poderia enumerar nesses ritmos inscrever nos lados os dígitos confrontar curvas e cordas costurando entre os grafismos um entrever entre a pauta e o caderno de exercícios. Eu poderia compreender com minha letra toda a aplicada linguagem das rimas ser tomada por imagens prismas inaugurar todo um salão de espelhos focos e reflexos. Mas eu não sei como fazer isso. Fico aqui com o caderno no colo evocando o que se desponta. Anotações da camada do avesso. Não faço obra nem descanso do intento. Fico aqui entrecortada com a visão do abismo e toda carga de um relâmpago a triturar minha parca expressão do que deveria ter sido haurido como texto plausível do que deveria fazer um apelo do que deveria estabelecer como começo. Mesmo.

(extraído do 'livro' "afeto confesso")

sábado, 17 de outubro de 2015

números



Era uma parede de números incalculados. Era fria. De azulejos anotados até o teto. Azulejos preenchidos pelos números visíveis pelos números escritos manuscritos. Azulejos anotados anotados. Números finitos. Mas ali indicados pareciam nada menos que inúteis e frios escrevidos lado a lado circunscritos pelo dentro de quadrados. Paredes e paredes preenchidas à exaustão. Andares e andares anotados. Números inscritos pelo traço de uma mão.
Subíamos as escadas. Subíamos um a um degraus com números inscritos em cada vão. E nas paredes que seguiam desde o chão até o teto. Subíamos subíamos por degraus escorregadios. Também eles com números anotados. Andávamos em círculo mas subíamos. E ao seguir tudo o que víamos eram números algo parecido a um sem fim a um muito próximo do infinito uma espiral de números insertos por todo lado.
Eram paredes curvas e subir era perder o piso perder o solo perder o juízo ao ter aos pés diante dos olhos por todos os lados o traçado infindo de fileiras e fileiras inúmeras fileiras de números desenhados. Era um círculo. Era um índice de um fim seguir olhando para cima para baixo seguir lendo números parecidos com o infinito números e números e números e números perfilados.

(extraído do 'livro' "um a um - os poros da paisagem pólen".)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

ela estava lá desde tempos remotos. eu é que nunca tinha dado por isso.


vendo



O que eu posso dizer quando grito? Sol das sombras desmemórias gesto aflito. O que posso temer nesse grito? Ser em clave rés de escombros som de abismos.
O que posso arrancar com esse grito? As membranas dos meus órgãos circunscritos. O que cava a cratera nesse ístmo? Vento em vácuo destampado e inaudito.

(extraído do 'livro' "afeto confesso".)

domingo, 11 de outubro de 2015

viver a vida



Não trabalhar para viver. Cantar para viver. Dançar para viver. Viver para viver. Não produzir para viver. Criar para viver. Viver para viver. Andar com os pássaros. Com os lagartos. Com os felinos. Com as aves. Com os mamíferos todos. Com as abelhas. Do mel das abelhas sorver. Com  as baleias viver. Com os peixes viver. Com as árvores aprender a viver. Não trabalhar para viver. Não consumir para viver. Celebrar a vida para viver.

(extraído do 'livro' "afeto confesso".)

disparo



Nobreza de fugir para sempre. Para sempre perder. Para sempre fracassar. Para sempre estar retido na rede repetindo o abismo do mesmo momento. A mesma circunstância o mesmo evento deitado ao longo de todos os outros eventos. Nobreza da baixeza de estar preso rebaixado à ferida à marca. Janela trespassada que continua impedindo o movimento. Da força. Do vento. Do grito. Do sangue correndo. Baixeza da paralisia. O que eu posso se não estar preso à esfera vazia. Uivo de noite corcunda. Oposto do óvulo que se fecunda. O que posso se não estar atado sem nada poder contra o pensamento imagem a conclusão a partir de um lapso. O pensamento imagem a fantasmagoria. O que é que eu posso contra o que em mim se arma sem mim? 

(extraído do 'livro' "afeto confesso")