segunda-feira, 20 de julho de 2015

afeto ou o primeiro ele



Eu quase podia passar a mão no rosto dele. De tão perto. Mas não podia porque ele estava longe. Eu quase podia tocar sua pele. A sua mão. Mas não podia. Porque ele estava obscuro. Como podia fazê-lo de mim assim tão tanto e não tê-lo ali bem próximo? E não tê-lo como vendo-me. Como comigo. Como me ouvindo. Eu quase podia abraçá-lo. Chegá-lo ao meu corpo. Mas não podia. Ele estava onde.

Mas depois foi como sempre era. Um sorriso. Uma sopa no prato. Os talheres a sobremesa e o café. A janela. O final de tarde. A novela. E toda a vida que não era aquilo a me abrir por dentro. Ele não me via. Tudo era parede eco corredor e uma escadaria. Tudo era um castelo alto da torre a masmorra e nenhuma alforria. Tudo era tão sólido estrutura por dentro paredes concreto cimento e eu uma alma passando calada sem dizer nada sem sair da sombra.

O pátio. O jardim o estacionamento. O portão de entrada a estrada que passava e eu aprisionada a voltar ao final de toda temporada. A voltar para os retratos as cortinas o corrimão da escada o porão onde nada se esconde. Onde só o que se esconde é o vazio de não ter por onde.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

vermelho naquele dia ímpar


ouvir das veias



O que teria sido eu se não como a sussurrar palavra pequenina desde sempre dia fundo da voz rumor murmúrio gutúrio que se imiscui não nas cavículas do ouvido mas nos capilares nos vasos nas veias. Vozes que se incrustam que se mascam que se murmuram não murmuram só sussurram quase que só suspiram num agito de entreveias. O que teria sido ido se não de par com as vozes jorros a borbotar pelos vãos. Túneis por onde passam os líquidos fluxo que derrama e vaza por um circuito preenchido ao infinito por tanto líquido matéria mole matéria que se amputada sua trilha pingará no piso gotejará sem fim até refazer suas paredes e reencontrar seu ciclo circular circulação.
Como poderia eu se não com o ouvido com outra parte daqui desse que digo deixar de ouvir todo esse gotejar percorrer sem fim essa trajetória curva intercontato interconvulatio interconcomitante. Como deixar de vir se não sempre a ouvir todo esse subcutâneo trâmite?

(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

lembrança de uma tarde no bairro de botafogo - detalhe


lembrança de uma tarde no bairro de botafogo


ainda não




Ontem eu não vi. Hoje também ainda não. A frequência do dia. A frequência ainda não. Aqui o que soma de mim. O que soma que some que sumo do que mi do que em mim do que vi do que ainda não. Ontem eu não vi. Hoje também ainda não. Do que encontro em cada canto que ainda não mi ainda não aqui aqui ainda não. Ontem eu não vi do que mim do que mim em mim ainda não. Perto do que aqui ainda não vivi. Perto do que aqui ainda não encontro. Nada do que mi nada do que estava tão longe. Nada do que ainda não vi. Nada do que ainda não. Sombra que sombra do que vivo. Sombra que encontro ainda não. Corda vibrada do violino. Corda cordame de corrimão. Ponte suspensa sobre abismo. Ponte suspensa sem corrimão. Ontem eu não vi. Hoje também ainda ainda que aqui abisma ponte passada de abismo abismo que cisma de mim de um não. Ontem eu não vi. Hoje também ainda não. Ainda não.