quinta-feira, 15 de agosto de 2013

back to beckett I


back to beckett



Eu poderia. Sim. Poderia. Dizer sim poderia. Dizer agora. Dizer agora sim poderia. Dizer agora sim. Dizer sim poderia agora. Dizer poderia sim. Eu poderia agora dizer sim. Dizer sim o mesmo. Agora o que poderia dizer seria o mesmo. Seria o mesmo dizer sim. O mesmo dizer o mesmo. Seria o mesmo dizer sim. O mesmo dizer o mesmo. O dizer do mesmo. Dito de outro modo. Dito por outro. Mas do mesmo o mesmo dizer do que dizer poderia sim dizer sim dizer sim ao dizer dele dizer ao dizer dizer agora poderia poderia.
Dizer agora poderia com menos. Poderia ao menos. Poderia. Mas isso seria dizer o dizer dele o dizer poderia dizer o mesmo que ele. Somente o mesmo. Perto do mesmo. Quase o mesmo para quem dele nunca ouviu dizer sim roubar dele arrancar dele e dizer para outro que nunca dele ouviu dizer poderia sim dizer dele o mesmo que ele poderia. Mas dele seria o mesmo o mesmo seria o mesmo o mesmo dizer que ele.
Mas ele não nunca diria eu nem ele nunca ele ou eu ou diria dizer de outro de ninguém de nenhum ele em nenhum dizer dele diria eu ou ele nenhum dizer diria eu.
Sim.  Eu poderia. Não ele nem sem dizer ele ou eu.

(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen".)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

dia a dia



Fio a pavio. De pedaço de papel de pão. Juntava em cada ida sua à padaria. Fazia bolas de saco amassado e jogava num canto das paredes da sala. Já agora eram quilos de papel de pão. Onde quer que estivesse encontrava uma padaria, um pão comprava e guardava o saco pardo de papel. Para fazer o quê não sabia. Só juntava dia a dia as bolas de papel de pão. Parava diante daquilo e olhava as bolas dos dias. Tantos sacos pardos de papel de pão. No canto da sala. Logo na entrada. A bicicleta recostada na parede oposta. Os papéis juntados no canto da parede da frente. Todos os dias contados bola a bola de papel jogado. Todos os pães comprados de que aqueles sacos davam testemunho. O que é que pretendia com aquele canto amontoado de papéis pardos?
As bolas amassadas tomavam já boa parte da sala. Quando andava era necessário desviar; muitas vezes chutava uma ou outra e depois com cuidado a recolhia e devolvia amontoando-a de volta ao canto. O que era que pretendia? Não sabia. Sabia que poderia parecer absurdo a quem quer que fosse aquele aglomerado de amassados. Mas não tinha empregada ou visitas, não deixava ninguém entrar em sua casa. Talvez quisesse mesmo parecer louco. Talvez quisesse mesmo construir o cenário perfeito de um destempero afetivo. Talvez quisesse apenas contar calendário a papel de pão. Marcar cadência pelo pão comprado de todos os dias.
Mais nada guardava dos dias além do que o fazia com as bolas compradas saco de pão todos os dias. Não era alguém para ninguém. Nada era algo para si. Daquelas bolas de papel talvez quisesse saber o que podia o seu guardar um gesto mínimo de todos os dias. Comprar o pão; nem sempre comê-lo. Guardar o papel que o embrulha.
Poderia fazer um mapa de todas as padarias. Um inventário de dizeres: pão quente quentinho fresco o melhor o pão de cada dia a padaria do pedaço servimos bem para servir sempre a nova caríssima carinhosa esmerada o pão da família o preço mais praticável comprando com prazer compre aqui e coma lá nunca se esqueça de voltar o seu sorriso é a nossa alegria nosso pão não é só feito de farinha do forno para o seu coração compre sempre nosso pão. Um inventário das ruas. Um inventário de nomes. Mas o que era que guardava ali além daquilo pintado no papel era o que o comprimia.
Não nem nunca fora um colecionador. Ao contrário, sempre não entendera o que é que fazia as pessoas juntarem objetos semelhantes por alguma razão. Sempre uma razão que só dizia respeito ao colecionador. Sempre uma semelhança que ou era de gênero ou de espécie. Conhecera certa vez um que colecionava relógios quebrados, outro, caixas de madeira, outro juntava pedras. É bem verdade que invejava o hábito. Pensava o que poderia ser tão valioso para si a ponto de se dar ao trabalho de varar territórios para encontrar ou então de não poder se controlar diante de um espécime que não possuía.
Foi quando lembrou do pão. O pão de água, sal e farinha. Esse pão retido de alguma forma em sua alma e na alma de todos. Encontrar o único em cada pão era tarefa que o enlouquecia quando pequeno. Sempre olhava na cesta do padeiro e tinha muita dificuldade de escolher o seu. Sempre era o último a fazê-lo quando sentava-se na mesa com a família. Olhava para o cada um dos pães e não conseguia saber em si qual daqueles queria. Muitas vezes por essa razão abria mão de comer o que lhe cabia. Esperava que alguém lhe colocasse um no prato para não ter de escolher, mas isso raras vezes aconteceu. Era sempre instado a escolher. Por esse motivo começou a refugar o alimento. A ponto de todos pensarem que o não tolerava. Na adolescência já ninguém mais lhe oferecia. Continuara olhando para as cestas em suspensão, mas como agora não se tratava de escolha, simplesmente esqueceu. Esqueceu.
Foi quando um dia, na solidão vivida com o opaco do corpo, diante do comum destino que sentia ser o seu com o dos outros, pensou em ir até a padaria e comprar um pão. Um pão escolhido ao acaso pelo padeiro. Um pão ali do amontoado que se espremia contra o vidro do balcão. Um pequeno e simples pão que lhe viera à mão pela mão do padeiro. Inigualável pão que lhe chegara dentro do saco, que lhe viera quente, que repousara ao fundo pardo do embrulho até que lhe pudesse pôr os olhos novamente já dentro de casa na cozinha. Um pequeno pão com sua dobra rasgada marca do cozimento da massa uniforme no forno. Rasgo em fibra abertura inequívoca que denuncia o resfolegar daquilo que cresce seca assa quase respira no calor do forno a lenha. Fenda de farinha, sal, fermento e água gerada nas mãos do padeiro mas consumada por sua própria textura no forno quente. Aquilo era de novo o milagre do único pão. E por isso seguia guardando o saco que o acolhia.

(extraído do livro "uns tantos outros".)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

praias (um texto antigo)



Arroubo de mar. Areia e fagulha de gota de água na pele quente do sol do meio-dia. E eu nem consigo respirar direito. Todos a minha volta com o corpo no sol, de maiô, roupas poucas e eu também aqui no sol a tremer de tanto frio.
Escuro, o rasgo de céu azul e sol no ar a me impingir a desgraçada sensação da solidão no universo. Calor e frio. O sol ardendo minha pele queimada de sol, ardendo com um sentido de lâmina fria. Corta, greta e joga agulhas geladas dentro do meu sangue.
Insuportável é estar aqui, olhando as pessoas dentro da água. Alguns meninos jogando bola na areia quente. Crianças correndo em direção às ondas. Surfistas, banhistas, meus companheiros tomando sol, passando protetor solar, queimando o rosto, escolhendo a melhor posição para estar ao sol. E eu procurando uma forma de disfarçar o incômodo que é cada vez mais indisfarçável. João reparou. Agora não vou escapar:
-- Sara, por que você não vai dar uma caminhada? Você está toda encolhida aí!
-- Será que andar vai me fazer bem?
-- Ora, pelo menos você vai se mexer e não ficar aí paralisada, de braços cruzados. Parece que está com medo de encostar na cadeira...
Realmente. Medo e dor. O alumínio da cadeira de praia gela a minha medula cada vez que encosto nele. O sol esquenta a pele que só serve para me mostrar como tudo o que me rodeia é gelado e dói. “Calor que provoca arrepio.” É engraçado como dizer o mesmo pode não resultar no mesmo que se queira dizer. “Calção, corpo aberto no espaço.” Mais do que a anterior, essa frase me incomoda e me dá vertigem: “corpo aberto no espaço”, pensar que estamos de cabeça para baixo em relação ao universo, que não tem ponta nem pé. Acho que estou delirando. O céu azul-escuro rasgando aqui em cima de mim, eu vou enlouquecer...
Vou para baixo do guarda-sol. Aqui as coisas parecem melhorar. O contraste não é tão agudo. Mas, aos poucos, o frio da areia meio úmida, areia da sombra, começa a gelar meus pés. Quero uma toalha para me cobrir. Começo a notar que as pessoas me olham. Será possível que o senso de ridículo não vai me fazer levantar? Pelo menos o senso de ridículo, já que nada mais me remove desse pântano gelado e isento de sentido? Sentido? Dói, quando encosto na cadeira. Vou caminhar um pouco, isso tem de passar, não é possível.
É inacreditável como as pessoas andam na minha direção. Elas não desviam. Ó! Quase esbarrei na nega, que passou triscando pelo meu braço. Que inferno! Meus pés afundam na areia e a água gelada gela meu espírito, que hoje resolveu me bordoar o corpo de sensações. Onda. Ódio das ondas que sobem demais e pegam a gente e engolem metade das nossas pernas. Justo agora que eu estava adquirindo um ritmo. Mas o sol arde nos ombros e no pescoço. Para me sentir melhor seria necessário cobrir-me com uma toalha, mas ficaria esdrúxulo eu sair assim com uma toalha nas costas, não ficaria? Não, não preciso acrescentar essa inadequação a todas as outras que carrego comigo. Chego ao nosso guarda-sol depois de percorrer a extensão da praia duas vezes, num esforço de deserto e mar. Sinto-me vitoriosa. Quem sabe consigo entrar na água, então?
-- Alguém já entrou?
Ninguém responde. Será possível que além de invisível tornei-me inaudível?
-- Alguém, por favor, já entrou na caceta da água?
-- Que é, menina!! -- Bia, exala: -- ficou louca?
-- Já entrou na água? Flor!
-- Já, entrei. Vai lá, vai. Quem sabe você melhora esse humor.
Hã! Gelada. Ui! Parece que estão me esfaqueando os pés. Maldição! Ah! Não vou entrar, tem cabimento essa violência?
-- Ué?! Só isso? -- Bia não cansa de olhar para mim. Por que ela não me esquece?!
-- É, perdi o momento.
-- Ahã! Sei! O momiento -- Bia, responde, afetando a voz.
-- Ié, darling! Dá para me deixar em pax?!
-- Que é que cê tem, hein? Parece que não sei!!!...
-- Exatamente.
-- Que é que cê tá sentindo?
-- Não sei! Como você parecia ter adivinhado.
-- Você está menstruada ou vai ficar? -- João pergunta tentando adivinhar/explicar.
-- Não. Nem todos os mal-estares femininos se resumem ao seu momento no ciclo. É a existência que me perturba. O estar corpo e ter de pô-lo ao sol, só porque estou pagando o hotel e amanhã a essa hora vou estar trabalhando e lamentando que não aproveitei o dia de hoje. É um sentimento Hardy-har-har...
-- Um sentimento o quê?! -- coro do casal.
-- A hiena do Lippy o leão da Hanna Barbera, desenho animado dos anos 70, lembram-se?
-- Ó dia, ó vida, ó azar -- coro de vozes espertas!
-- Bingo!
-- Mas é só isso? -- João tentando ler entrelinhas...
-- A minha hiena traz um Hamlet escondido numa axila e faz mesuras para Sartre.
-- É?! Ahã! -- Bia e sua incomparável forma de transformar a mais implacável angústia numa cólica intestinal.
-- É. Quer saber?
-- Ah, não! Juro que não. Não começa com suas conjeturas e devaneios lúgubres.
-- Então tá! Me deixa, ok?
É sempre isso de Bia não querer saber, e nem João, e nem deviam porque não sei como explicar, assim, o raio ou o trovão. A selva escura que se emaranha em meus dentes e em minhas veias a encher de dúvida e de frio a manhã, para toda a gente azul e quente.
Olhar o mar, pensando no fundo, no que dele sai, e o que balança as ondas. Olhar estranho para as pessoas, vendo-as ali, banhando-se ao sabor da língua-espuma de oceano. E eu sempre a ter de me perguntar: quando foi que isso começou, mesmo? Não isso, de todos aqui, a receber o sol andando de um lado para outro no exercício da extensão da praia. Mas isso de nos sabermos assim olhando uns para os outros no exercício da extensão de si. Quando falo para Bia dessas coisas concluo que ou ela ainda macaca ou eu atravessei a barreira do ponderável. E o que não sou, então? Compreendo a mudez dos outros, a interrogação cada vez que pergunto: como que aqui somos olhando e vendo, ouvindo e escutando, falando e dizendo para uns a guardar sentido? Mas penso: ninguém há que eu toque? Quais as palavras?
E eu novamente aqui sentada com braços e pernas a fugir da areia e do alumínio da cadeira. Sensação cortante que se impõe ao corpo de buscar conforto e não ver aonde possa colocá-lo para poder sentir-me estando como os outros.
Aproximo-me de Bia e olho-a com a curiosidade de quem vive na outra esfera. Ela está lá, lânguida e largada na cadeira reclinada; braços estendidos e jogados, rosto ao sol, leve franzir do cenho. Olho-a bem fundo. De repente, como se ela tivesse sentido, seus olhos se abrem e encontram os meus. Ponto. Gancho.
-- O que você está?
-- Como?
-- Não, o quê?
-- Que é, garota!? Como assim?
-- O que você, quando reclina e larga, está recostadamente na cadeira?
-- Isso que você viu, assim ó.
-- Mas o quê?
-- Hã? Não entendi. Ah, não vem, não. Já disse que não quero pensamentos lúgubres.
-- Mas não é lúgubre. Eu penso assim no seu pousar o corpo, encostado. Só no sol. Olhando dentro de si.
-- Quê, Sara? Cê fumou?
-- Não.
-- Então, fala português porque eu não estou entendendo nada.
-- O que você vê, quando fecha o olho, só o corpo assim na cadeira?
-- Quando eu fecho o olho eu não vejo nada.
-- Ah, não?
-- É, bom. Acho que não.
-- Não vêm sentidos, as coisas assomando? Ou o sentimento do viver prenúncio o alvorecer de si, sei lá?
-- Eu, hein!? Que é que te deu? Hoje você tá pior. Falei que aquela mistura de cerveja e vodka ia te fazer mal.
-- Não é isso, Bia. Pelo amor de Deus, as coisas que não sabemos às vezes não te assombram?
-- Ah, eu não! Eu prefiro não pensar nisso.
-- Sei. Mas como é que você faz?
-- Não faço. Fico assim e quando vêm eu não penso mais nisso, olho para o outro lado.
-- Mas não te puxam?
-- Ahã!... Ah, puxam, afinal, eu sei considerar os fatos, mas não me prolongo muito nessa consideração. Acho que nesse momento não é caso.
-- Você nunca é acometida?
-- Eu? De quê?
-- Da agonia do universo, do ser e da sombra. Do medo e da réstia de ameba que se arrasta de você ainda pelo chão.
-- Pára! Fala de jeito que eu possa entender, faz favor!
-- Você nunca pensa no avesso? Na morte, no outro mundo, outro lado? Cada um dá um nome, mas dar nome é simplificar.
-- Penso, claro que penso, na morte.
-- E?
-- E, o quê?
-- Que é que você pensa?
-- Ah, sei lá, na morte. Morreu, não ter mais esse sol, a sensação dele, como será? Mas, aí, prefiro não ir muito por aí, não.
-- Mas eu não estou falando só da morte. Estou falando da gente no universo, rodando, boiando no espaço incomensurável...
-- Mas se você continuar pensando nisso vai ficar louca. -- Agora Bia expressa na voz um tom terno de preocupação que me suspende da agonia e me faz olhá-la bem fundo com intensidade de amor...
-- Escuta, essa história de olho no olho não está ultrapassando os limites, não, moçada? -- João conseguiu capturar a minha fagulha que o envolve e acomete também, assim que pouso os olhos nele. Suas mãos instintivamente cruzam-se diante do corpo, ele sorri e explica:
-- Às vezes, você arde numa vibração impossível de ser compartilhada.
-- Não sei, não, se não dá para compartilhar -- estranhamente Bia se faz compreensiva. -- Acho que é só uma questão de ocasião; agora, debaixo desse sol, fica difícil compreender, mas é porque dá preguiça, né? Isso tudo de que você fala me ocorre provavelmente com tanta freqüência quanto para você. É só que eu consigo controlar esses pensamentos, porque ficar muito centrado nisso parece ser um tanto quanto inútil.
Olho para Bia enfadada, pois não se trata disso em absoluto. A pressa com que ela procurou entender quando João apontou a dificuldade acaba me arremessando para longe dela, para longe daqui, que é onde pretendo estar em corpo ausente daqui. Alívio.
-- Bom, eu vou para o hotel.
-- Mas com esse céu e sol, você já vai sair? -- Bia e sua implacável compreensão para com o feriado.
-- É. -- Olho para João, procurando sua cumplicidade e recebo um doce quase disfarçado sorriso. Compreendido.
Saio de cena pelo atalho do silêncio. 

(extraído do livro "Babel, é claro" - publicado em 2002.)