segunda-feira, 27 de agosto de 2012

dias contados virão


Montar na miséria e não saber onde é que acaba. Contar dias horas dias dias dias semanas dias meses dias anos e sempre sempre sempre ter a mesma sensação esgueira: onde é que fica?
Dias contados virão. Mas mesmo depois deles os pequenos esporos dos últimos suspiros espargidos recairão sobre um todo começo.
(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

próxima parada


Abertura. Ponto convexo. Comissura. Universo. Não passava nenhum carro e eu ainda esperava. Estava um silêncio por todos os lados e aquilo não me parecia estranho. Eu não ouvir. Mesmo o vento que farfalhava as folhas das árvores não me fazia ver que não ouvia, de fato sequer sentia o que estava ali.
Não passava nenhum carro e no céu se armava a tempestade. O vento arremessava já as folhas por todos os lados. Dobrava os galhos até as árvores. O grão que se instalou no meu olho só me deu a perceber que aquilo era um movimentar violento. Mas não de uma espécie de silêncio que eu deveria estar ouvindo. O grão só me deu o olho e o vento e o porvir tempestade naquele esperar espraiado na beira do asfalto nas proximidades de uma proximidade.
Azul e cinza a estrada e areia pedras nas margens. Era campo e vasto e vazio. Isso eu podia sentir sem sequer ouvir ou ver ou ter o senso do que aquilo era a acontecer.
A tarde. Descampado e vago o outro lado. Vago. Eu daqui compleição de passado e presente e onde estarei no futuro ou poderei estar sem sequer um automóvel. Um mundo interpunha-se em mim. O mundo era um repleto que se erguia e é claro e estúpido o quanto desse mundo não me cabia o vazio de não ouvir ou ver ou sentir.
Eu estava lá em pé esperava lá em pé e nem o asfalto passava. Tudo um quieto ao lado e à frente e lá bem longe adiante. Horizonte para trás horizonte para frente horizonte para os lados horizonte e o mundo atopetado desse persistir sem passar um sequer carro. E eu ali. Tudo corria ou ventava e a tempestade que sobrevinha isso me atestava. Tudo era repleto de vento silvando de raios trovões relâmpagos e nuvens pesadas e vento movimentando o céu e o pó que já agora voava por todos os lados da estrada. E eu ali sem ver o vazio o silêncio o sem sentido.
Tudo era aquilo e eu não podia ver, mesmo ouvir, em vão. Tudo preenchido pelos próximos momentos os que se passaram e passam os que se passarão. Somente uma e mesma coisa existia naquela tarde da tempestade vindo e do nenhum carro. Somente uma e mesma concha que ali fazia uma pequena ínfima parte viver.
Era num mundo em que não ouvia e não mesmo sentia nada do que ao meu lado acontecia. Era o mundo parede externa que como concha me afigurava o lugar. Que mundo era esse eu ainda não perguntava porque olhava e não nada percebia no tanto que eu via ouvia e sentia em volta. Este é com certeza um outro lugar diferente daquele onde até então eu tinha estado. É um outro lugar silêncio de imagens que não me dão a vista de nada além daquilo que não podia ver.
Mas já agora não posso ter certeza de que se tratava de um outro lugar, o mesmo de quando antes. Era tanto não ouvido ou percebido antes o que eu não via ou percebia agora ou daquele momento em diante.
De onde eu falo. Falo do que é surdo em mim. Falo do que não vê em mim. Falo do que constata neste momento que é preciso dizer o quanto o que estou nesse lugar é o que não posso determinar para o que seja para além de mim ou em mim ou mesmo mim.
Falo do surdo oculto insenso como quem ainda não prescinde do movimento e do momento.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

náufragos


Escurecer a sala, fechar as cortinas, cerrar em grade os dedos das mãos sobre os olhos; olhar a minuto diminuto o comer do tempo o ar em volta o cada momento. Irrespirar em frinchas tear nas frestas calafetar com a pele com a carne das mãos o presente e desenhar no tempo; desguarnecer, virar a página do agora com a mão. Pedra percorrida corrimão pedra lisa desgastada descer a escada pedra a pedra até alcançar o que ficou por trás do alçapão. Domar dos cabelos o tempo dos traços finos ranhados ranhuras da pele dos poros os vincos daquilo que não pode mais estar não pode mais ocupar não pode mais mensurar não pode mais aguardar não pode mais temer. Ver o que ficou turvado; onda que leva levanta leve venho até a crista craca encravada no casco. A madrugada.
Era barco e na proa a popa encostada no vidro da cabine. Deitada quase e a noite de lua cheia clara se azulecia por entre a mata o chaquá-quá vem vindo às vezes lembrar barulho o que era tombo no lombo o balançar das pequenas ondas que a água agora fazia.
Braços cruzados, a noite quase cheia de sereno e sirenes de grilos cricrilavam no ouvido barulho bento balanço ungüento pra minha alma tanta fobia. Do lugar eu avistava a praia em areia e pedras, pequena foice branca lambida a línguas de espumas fofas a deitar branco no breu que retinia da água. Não era mais preta porque havia a lua que a oleofazia. E eu contemplava lenta essa paisagem do alto da proa da minha nau, da minha barca embarcação emborcada embebida de lombra na madrugada. Era teu dorso que eu via quando descia os olhos da vigília sobre as cordas. Não sei como não te incomodou estar ali deitado ao desconforto de ardidas cordas nas costas, queimado do sol velejado o dia inteiro sol e salgado. Que via era essa que agora fazia? Eu ver-te ao vento, hoje à tarde, rosto suado, mãos deitadas ao leme, como se isso fizesse algum sentido para mim. O que em ti estraga é o estar solene parecendo sempre ser assistido para o cinema câmera máquina deitando imagem escanhoada no acetato posto por sobre o creme da tela. Você era essa fina agonia de não saber sentido em minha boca em minha régua em minhas lentes em meu caderno em minha tinta. Você era essa pedra lisa que escorregava o meu arfar de cumpra-se o que o meu corpo desejar. Cabelos anelos crespos pretos pratas conforme a lua borborejava ao balanço da água. Fazia ver teu rosto de lado perfil ligeiro agora tomado para esquadrinhar o que era que eu via quando eu te via. O que antes eu sentia quando te sentia perto próximo vão desviado de mim. Olhava e a madrugada entrando adentro e você sobre as cordas. Nada ardia nada doía tudo em você era perfeito para o momento. Isso era só o que eu via. E ao que pressentia não pude dar nome nem hoje à tarde nem a vida inteira que se seguira.
Como um ator. Embora quando eu digo isso eu não possa dizer que tenha pensado exatamente isso. Isso é isso o que de longe explico. O que eu vivi, vivi contínuo, sem olhar para. Sem conceber aquilo. Agora escandido no tempo é que eu consigo pensar que era isso. Isso de você ser aquilo que não embarcava, não se embalava na existência comum de viver comigo. O que era isso de você ser era o que eu não ainda sabia. Agora eu sei do verbo vivi. Experimento vago e dolorido daquilo ido.
Destroços de nós, chegamos à praia. Depois que chegamos, carregados pelas ondas: destroços. E eram nós ainda o que víamos de nós chegados à praia. Nada movimento. Cala no infinito. E o nenhum augúrio do que fomos formados do passado nos assoma? Qual. Quê. Estamos que só somos nós chegados à praia. E a areia não desfez. E a correnteza não desfez. E a correnteza nos arrastando a menos não desfez. Nós. Desferidos nós, chegados à praia. Não desfeitos. Nós, ainda nós, chegados, nós constituídos: cordas enlaçadas na velocidade do tempo fazendo-se opostas. Opostos constituídos, voltas circunvolutas voltas que se dão aos fios, que se dão às cordas, que não vibram quando feitas em obstrução: nós voltados sobre o mesmo de si mesmos quando deram à praia. E nem a maré e nem as ondas e nem a areia fez de nós nada que não sejam circunvoluídos nós atados e chegados a uma praia.
Mas o olhar no tempo pausa-pensamento esconde o que via acrescenta o que não ocorria, desmascara a âncora daquela tela por onde eu ia.
 (extraído do livro uns tantos outros.)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

o que é comum


Os horríveis. Todo o chão. Vísceras vincos veios fenda. O próprio inferno e ainda depois dele o vão. Agudo da dor do oco do fundo. Agudo do horror.
E ainda sair vivo. E ainda sair vivo. O que não me aniquila. O que por isso me amplia. O que me arrasta e me abisma o que por fim por mim em mim também se afirma.
O que vinga o que vinga o que vinga.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

levanta-te em fundo infinito


um talvez nunca


Um talvez nunca. De fato. Como o pedaço oculto, como o que não deixa lastro. Como o que alcança cubo e não vê exprimir nem mesmo o dado. Um talvez nunca. Talvez. Mas vem o gesto. Mesmo na solidão do ainda não expresso. Mesmo que talvez nunca.

(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

a primeira pessoa

Ainda estaria vivo se não estivesse noutro quase porto onde não estou em que não fui e de como de onde em onde vou e para onde estive a dizer pouco do que seria mim.
Ainda estaria morto se não estivesse diante daquilo que de modo algum posso dizer que vi ou li. Posso dizer que senti. O bordejar da borda. O abordar da porta. O outro lado o lado oposto o ante pé antes do pé o que não se pode viver o que não sequer se aborta.
 Aquilo de que não fui. Aquele de que não vi. A imagem a fronteira o outro lado da mesma beira – o que não é beira desde quando se saiba acertar a flecha ponta certeira.
O que no meio entre os espaços entre os dois lados o confabular do que não é nem fui. Do que não onde nem quando. Do que não dia não tarde não noite nem madrugada ou aurora nem crepúsculo nem primavera. Do que nuvem borda do dia a bordoar bordoar bordoar as paredes camadas as superfícies que nem diagonais nem retas. Nem pontos nem infinitas setas. Nem longa nem curta nem apontada para outro lugar que não seja nenhum e que no entanto um um um om do um – trêmula língua faringe garganta de tímpano a que se dá a que se toma a nenhuma uma todas quase uma de uma em uma instância.
É o que o um com menos? Para dizer eu é necessário desertar de todos e isso ninguém é ou tem coragem de dizer que não é.
(extraído do livro um mundo outro mundo.)

sábado, 4 de agosto de 2012

notas de respingos sobre branco


ele veio


Naquele dia ele veio vago vago vago feito viesse no convés de um navio. Nenhuma sombra o perseguia embora seu ar fosse esse de prega entre o que dava a ver e o que efetivamente existia. Nenhum sibilo de montanha o apavorara mais do que saber que ia ter de descer e andar entre as gentes e experimentar viver no preparo de comidas, no cuidar de fogões e pagar de contas. Mas ele tinha isso como uma determinação interna. Ele tinha decidido que ia virar pão. Ele tinha previsto que isso seria necessário, como fora necessário o dia em que sentiu aquilo vago vago vago dentro dele e esse sentimento de tudo atravessar e de ser atravessado por tudo. Agora ele tinha de aprender a viver semente entrementes todo entrecortar do momento pequeno e o pausar das mãos e o pisar dos pés no azulejo da cozinha e os dedos que apertam interruptores. Ser cor e corpo diariamente era o mais difícil intento desde que lhe acometera aquele sentimento de tudo. Presença do presente na pele na carne na hora vazia. Ele colocou a camisa, abotoando botão a botão sobre o peito o pano que agora o envolvia. Ele calçou a meia e vestiu como se vestem os dentros dos sapatos grossos de couro. A ausência de nervura ou vinco no couro denunciava o pouco caminhar com corpo feito até agora. Dava pouco a ver o que nele havia.
Ele tinha sido silêncio até então. E ao mesmo tempo era de extremos. Intensos extremos, essa é a verdade. E dessa forma deveria permanecer entre os resfôlegos das horas. Contudo, ele tinha de olhar e deixar vir seja lá o que fosse. Ele tinha de aprender a passar. Corpo no corpo. Pulsar trazido o coração. As fibras da carne umedecendo-se no navegar do sangue. O barulho tenso de sua articulação no pescoço.
E isso era o filete. O que bania o seu vago para sempre. Agora era corpo mensurado e vivo. E não mais devia se deixar apartar do que vinha. Navaga de vir vindo sempre.
E assim, de pé, escolhendo papéis para guardar nos bolsos das calças, pensou em quanto corpo além disso poderia experimentar. O que vibra para além da sua fibra molecular. O que onda havida comunicada cada a cada paralelepípeda energia a revolutear. O encontrar. E o encontrar de tudo a parede pele pelímetro que se vira feito página lâmina na mão. E assim com as chaves, dentes encaixados nas fendas.
E foi pra rua. Camisa branca na calçada. Sol estridente entre as pálpebras e o vigor do metal de automóveis. E passo a passo na escala de centímetros inteiros abordar da porta de onde trabalhava. Entrado, olhado, sentou-se.
E viram-se os olhos comunicar o veio o vulto do abrido do que dele ido e olhado e o revido do olhar do outro lado. Camisa branca as axilas lisas deslizar da pele molhada empapada. Um riso e o desviar dos olhos, mas ele havia prometido isso não mais fazer. Levantou novamente o rosto e encarou o ainda outro lado e vinha a voz de um sorriso fresco no ar que recebeu em cheio. Requebrar de cabeça e um meneio. Cabelos contra a luz da janela e ventam como chama fecham o vidro e o vento ainda venta. Ar fresco ali, no meio das mesas e quinas e papéis e teclas repetidas a descer e a subir nas telas pintando, mas isso não mais interessa. Acometido e olhado retribuído e revidado. Algo em haver, isso sim era descer. E ver. E veio.
– Quantos bolsos e papéis você agora traz consigo.
E riu daquilo ter sido dito.
– É que agora os trago escritos aqui comigo o que digo.
– E não trazia antes?
– Antes eu só ficava pensando em pousar a caneta e nem teclas usava. Agora os tenho todos avulsos rasuras anotadas.
E olhou os dedos de unhas cortadas. E ouviram-se seus risos suas gargalhadas.
Naquele dia o vento estava forte como só em alto-mar podem ser fortes os ventos. Ele segurava o leme com confiança de vela inflada. E havia ali alguém a pôr a vela a favor do vento. E o sulco cortava a água cortava a areia por onde o barco passava.
(extraído do livro uns tantos outros.)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

formas fortuitas com filtro


para qualquer vento destruir


o esquadro e a régua deslizam pela folha
a ponta seca do compasso não se fixa
tudo escorrega e teima em produzir um guizo esgueiro
o papel plano sob os olhos
mantém-se em ondas branco
o risco do grafite não pega
a esfera oleada da caneta emperra
 
depois de muito lutar
vejo que não há como insistir
em usar esses instrumentos
eu poderia escolher a incisão profunda
mas o recorte faria vazado o que concebi silhueta

resta-me usar os dedos para imprimir
mas a mancha desferida
escorre pelas beiras

num acesso - não de raiva mas de angústia -
desisto do traçado e rasgo tudo

uma estranha habilidade nasce nesse gesto
armo em dobras o que concebi traço

o relevo deixado sobre a mesa
projeta na parede
a superfície planejada