terça-feira, 27 de novembro de 2012

laivos de lisos - sintonizar as fibras e voar


laivos de lisos por dentro - frequência de ondas



laivos de lisos - frequência do plano


acordada



Estava invariavelmente acordada, ainda, sem passar pelo instante intermediário entre o sono e a vigília quando era assaltada pela imagem da morte. O despencar de um prédio, o rolar pela escada, o momento final que nos acercará a todos, seja onde for que estivermos, era-lhe muito íntimo. Na verdade, só não era mais porque não suportava deixar que ele lhe tomasse inteiramente os sentidos. De um pulo sentava-se na cama para afastar a imagem diante de seus olhos. Via, sentia na carne, o momento extremo em que a respiração cessa. A veia seca. A agonia do instante em que se dá o final dos dias.
Isso não lhe parecia ser uma premonição. Não vislumbrava pessoas. Não via ninguém. Só sentia em si o aproximar-se da morte.
Essa era sua senda. Caminho por onde ia sem lhe poderem escapar os sentidos. Seu premonir-se era saber na carne o que passa por ela no instante preciso. Vislumbrava as agonias, encarnava-as. Disso não se podia furtar. Assim vivia. Cada noite ao deitar-se não sabia se o sentimento ia-lhe assomar. Não se podia furtar, quando a acometia. E a seqüência era um esforço abrupto de se livrar daquilo.
Depois, pensava no humano. No caco de pouco que somos. No grão de pólvora de pólen de areia pelo ar. Era isso o de que ela não conseguia escapar. A dimensão diminuta que podia sentir nos ápices de sua pele. Sentava-se na cama. Quase sempre acendia a luz. Às vezes tinha mesmo de ir até a janela da sala. Olhava a madrugada quieta. A esquina e a curva da calçada descrevendo a quina. Olhava para os postes de luz, para o céu. Às vezes abria o vidro e ficava procurando estrelas. Mas por mais quieto que parecesse a um observador esse era ainda um gesto sobressaltado.
No fundo nunca tivera coragem de permanecer deitada. Uma noite havia tentado, mas o sentimento aumentou de tal forma o peso do ar que se sentiu entaipada. Enterrada viva. Daí o salto sentada. O sentimento a acordava. O sobressalto era resultante do escoar do sentimento no tempo. Do deixá-lo tomar o corpo, chegar ao pensamento. O sentimento. Um sentimento silêncio. Instante contido todo no corpo. No cerne de sua carne, sob a pele, subcutâneo aquietar dos movimentos todos do corpo. Era um pairar. Sobrepairar. Então vinha o peso. O sentimento cárneo que a compelia. Pensava, muitas vezes, em poder parar nesse instante físico. Mas tudo era num átimo. Vinha o gesto da paralisia final. O congelar das vistas. O corpo tornado pedra. Instante em que o instante cessa.
Certa noite, foi acometida de um modo diferente. Essa experiência ela guardara. Mas contar para quem? Quem poderia sentir próximo o que dela se aproximara? Dessa vez fora diferente. Seu corpo estava deitado de costas na cama. Isso pôde ver mais do que sentir. Ela sabia-se deitada porque se via de fora. Por trás. Por baixo, além do colchão. Sentia-se um instante para fora, de modo a ver-se deitada de costas. Pelas costas. Via com clareza sua nuca, seus cabelos, seu pescoço. Via seu corpo deitando e deitando sobre inúmeros colchões ou sobre o chão ou sobre a terra ou sobre o mato ou sobre a maca ali do hospital. Sentimento vivo da agonia. Aos poucos se foi dando conta de que estava testemunhando muitos morreres havidos. Pareciam-lhe seus. Parecia-lhe ser ela mesma morrendo muitas inúmeras diversas incontáveis vezes. Muitas mortes como se os corpos que morriam penetrassem o seu corpo ali deitado na cama. Muitas mortes como fotogramas passados a espaços esparsos sobre a tela. Como se houvesse um intervalo entre um fotograma ou uma seqüência de fotogramas e outra. E no entanto sentia esses instantes na instância do corpo. Via-se e ao seu corpo ao mesmo tempo que sentia como que o seu corpo deitar-se deixar-se jazer sobre o seu corpo. Era uma forma de ver de inúmeros lados. Ver e sentir. De dentro, de fora, do fora, do ausente, de baixo, de cima, de muitos ângulos via, melhor, sentia suas inúmeras mortes. Isso de saber-se morta muitas vezes era um além de si mesma no agora de todos os dias. Agora queria experimentar o mais que havia por trás dessas inúmeras mortes. O mais de sentir como a morte é. Continuava contudo sendo acometida pelos instantes da agonia final. Tempos. Diferença pequena de tempos que produziam diversos sentires. O cessar da respiração e a consciência física do corpo sem vida. Vento que se aproxima. Hora suprema. O medo da morte, o medo da extrema.
Como viver descrito esse medo imenso? Escrever da treva. Escrever cravado na ponta da caneta, na ponta do dedo sobre a tecla. Escrever tremido, traçado, curtos enlaces de letras que se enovelam teimosos em querer viver da trama cerzida da agora morte expressa pela expressão premida. Escrever à pressa, ligeira mão não contida pelo arestar dos nervos. Escrever aos borbotões de medo. Escrever dos medos. Olhar no olho da agonia e ver aqui fincado em mim o momento extremo. O medo da angústia do momento. A cara feita em máscara mortuária. A cara arrebatada do último gole de saliva. A baba escorrida pelo lábio cinza. O olhar tornado vidro. Arrancar das massas do ventre, do cerne da carne. 

(extraído do livro uns tantos outros.)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

a força que tem o gesto



Carnar toda a mão no ato sem pensar o que dele resulta o que nele exulta o que nele é somente feito pela força de um afeto. Desgarrar deslocar descarrilar. Descarrilar sem obedecer mais a nenhum vínculo a nenhuma compreensão do que deva ser do que se prescreve como sendo da lei do habito com outros esse mundo. Esperei pelo mundo mil anos e ele não veio. Ele nunca veio. Nada veio do mundo. Cansei de tudo. Cansei de dizer eu. Cansei dele eu e de seus gestos.
Agora será o quê? Meio sem marca. Meio água que não se abala. Meio que nada ou ninguém abarca. Meio em cava. Só a metade? Nem um pedaço. Uma pequena brecha. Só uma fresta. Meio no nada. O pequeno de estar ali. Meio que do que veio o que veio só veio como o que é vácuo o que não é mais do que intermezzo.
(extraído do livro "um a um - os poros da paisagem pólen.")

terça-feira, 20 de novembro de 2012

grito grito




EU GRITO TERRA
EU GRITO TERRA QUIMERA E OCASO
EU GRITO COR
EU GRITO COR DE CORDA
EU GRITO GRITO GRITO GRITO GRITO
EU GRITO DE DENTRO DE TUDO
EU GRITO DO INVERSO E DO MUDO
EU GRITO DO QUE SE PODE E DO QUE NÃO SE PODE FAZER
EU GRITO DE DENTRO DO GRITO QUE NÃO SE PODE DAR
          DE DENTRO DO GRITO QUE NÃO SE PODE SENTIR
         DE DENTRO DO GRITO QUE NINGUÉM SABE SE É GRITO
         DE DENTRO DO GRITO O GRITO QUE NINGUÉM DEU

vigiar as órbitas


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ao contrário



Pelo fim. Pelo vértice. Pelos pés. Contravento. Da superfície ver o avesso. Sorver a árvore pela raiz. Escorrer pela vala crescer em direção ao dentro. Escavar os sete palmos. Habitar o grão a grão. Pelo veio. Intumescência em meio à terra ao solo ao seco. Cavar um túnel na dimensão do escuro. Do núcleo ocluso. Do cavado. Do recavado.
Núcleo furo u do fio não-luminoso
do todo todo todo o globo oculante
o do centro o cerne
o do entre o u
o dentro o
interior absconso
de onde não há onde
de onde não há onde
de onde só há onda
reverberando
o um
do fundo um
do mundo.

(extraído do livro onde houver vida a vida haverá de vingar.)