quarta-feira, 25 de novembro de 2015

uma voz só uma voz




Um incompleto. Sensação escavada de um manto. Uma voz só uma voz sem palavra ou canto. Nem um grito nem um falar ou murmúrio. Uma voz só uma voz sem nenhuma matéria. Só o timbre de um sustenido da artéria. Uma voz que se entoa sem canto. Vertente estéril. E nenhum passo a mais. Só o que seja o medo o arrepelo da pele ou que outro sentido se possam dizer as coisas. Metade nem quarto nem meio. Uma voz que se entoa sem canto uma oitava abaixo da nota menor. Vertente sem corpo. Só o oco do pescoço que se deixa escapar pelas frestas.

(extraído do 'livro' "afeto confesso".)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

consistir outro



Um grito um berro num finalmente entoar da voz o canto. Aquilo. O canto aquilo. Canto que estava que era aquilo. Um só sol lá maior agora de um mim sem mais nenhum atino. Um sol lá outro aqui por um mim uma voz uma voz que ouvida era doce era doce cantada e vibrada. Um soar no ar som nas cordas no corpo coral da Terra. Ganhar corpo com o corpo sonoro daquilo. Ganhar o estar de viver existir e ver em e envolver tudo aquilo.

(extraído do 'livro' "um a um - os poros da paisagem pólen".)

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

este é o fim o começo



Este é o fim do livro. Este é o fim de tudo. Finda estrada. Findo caminho. Findo horizonte. Depois disso não tem mais nada. Não teve mais nada. Não tem mais em que acreditar portanto. Não tem nada em que se apoiar portanto. Não tem pra onde seguir não tem onde mais queira chegar. Este é o fim de toda a luz apesar de ainda haver luz. Este é o fim de toda a coragem. Apesar de que para viver isso seria bom que houvesse alguma coisa que pudesse ter esse nome coragem. Esse é o fim daquilo que dizem haver. Esse é o fim de todo nome. Esse é o fim do que julgam ser adequado como sendo o que seja lá o que possa ser. Nas mãos de ninguém mais. No cérebro de ninguém mesmo. Nada que se possa falar. Nada que se possa dizer. Nada que nem mesmo por isso se possa calar. Esse é o fim do livro. Esse é o fim desde o começo. Esse é o topo onde só quem chega é que sabe que chega. O alto da torre. O abismo sem fim. O suspiro final pautado no fim que havia de ser o primeiro. Este é o fim. Este é o lugar nem um pouco solene. Onde ninguém quer chegar. Onde não há coragem que chegue. Onde só de se chegar já deixa de ser lugar. Já deixa de ser o que for. Este é o fim da linha. O ponto final. O verso da folha. O fim da tinta da caneta da mão que já nem sabe por que ainda se agita.

(extraído do 'livro' "um a um - os poros da paisagem pólen".)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

um em cheio



Trepidação da atmosfera. Caldo do passado entornado no futuro. O prisma desconcertado que se aqui orienta o pensamento ali desgoverna o sentir. Veia do modo ocupado. O que faz sentido e o que é objetivo. A natureza o cálculo o porvir a dor e o pé que anda no asfalto na lama e por aí.
Lampião aceso. Querosene até o meio. Da madeira escura por onde veio saem os frisos do frio e do úmido que fica primeiro. Da pá e da enxada recostadas na parede ninguém faz caso nesse momento. Ali aliás não tem ninguém para testemunhar esse experimento. Só um sentir que toma toda a sala a bacia da cozinha a madeira de tábua corrida que dá no pequeno corredor. Ali de uma janela de uma mesa e mesmo do encontro entre a parede e o teto exalam os vapores daquele sismo que ficou dito desde o começo.
Mas não é que não tinha ninguém tinha um eu ali. Mesmo que isso não conte é o que limita entre o que se vislumbra e o que se põe aqui. Isso era o de menos. Menos do que um mim. Menos do que um supremo. Era um pouco ocupado corpo estar sentado ou em pé preparando a sopa cortando os legumes esquentando a água.
Nada de sangue na pia. Só vegetais era o que hoje se fazia. E mesmo que só o lampião aceso a enxada e a pá ali num de lado recostadas. Mesmo que de madeira e frisos frios e umidade mesmo que de bacia mesmo que tudo isso o de que não se fala de modo nenhum porque não se tem língua é o de que fazia tudo isso estar inscrito lentamente neste texto que se imprime na retina na tela no em cheio do cerne de alguém que por ele se arrisca.
A madeira que não era do piso. A fresta que não era parede. A janela que não estava fechada e tudo o que fica pelo meio. Era assim um modo em abismo de dizer tudo de dizer tanto que ninguém ninguém nessa vida pode entender o que afinal se passava por ali naquele lugar estreito naquele casebre sem jeito naquele escuro cantinho que se tem escuro não tem ângulo nenhum só tem curva vazia e sem recheio.

(extraído do 'livro' "afeto confesso")