não é poesia. não é prosa. não é literatura. não é filosofia. texto. palavra. traço. ponto a linha. entrelinha.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
terça-feira, 10 de julho de 2012
sexta-feira, 6 de julho de 2012
flash!
Ontem mesmo eu estava
sentado na varanda do meu apartamento, quando senti um vento estranho. Aos
poucos fui-me dando conta do quanto não se pode segurar um vento quando ele vem
sobre as nossas coisas. E era uma situação aparentemente simples: eu estava ali
semidespido na varanda. Havia tirado a camisa e jogado sobre a grade. Havia
espalhado sem perceber os cadernos do jornal. De repente, uma rajada forte de
vento arremessou minha camisa para fora e num ato reflexo eu tentei pegá-la.
Quando vi estava com meio corpo pendurado para fora da grade. Olhei para o chão
dali do nono andar. Nunca tive medo de altura em toda a minha vida, mas naquele
instante imprevisto eu senti meu corpo em
vertigem, a possibilidade da queda. Medo. Fisgada de medo que se alojou
no estâmago, digo, ômago. Ômega.
Parado ali, tendo a
altura e o vento a me circunscrever, fiquei em pêndulo de pernas e tronco com a
grade pelo estômago com medo. Instinto rápido, algo em mim moveu o peso interno
do corpo e pude novamente sentir os pés e colocá-los peso sobre o chão. Por
momentos, resgatado do arremesso involuntário, senti um alívio de autocontrole.
Segundos, átimos, depois, senti novamente o vento em meu cabelo, o vento sobre
as folhas do jornal que se desprendia leve do chão e voava à altura da grade da
varanda. Estiquei novamente o corpo sem pensar para agarrar a folha de um
encarte desses com ofertas de supermercado. Antes da grade pude segurá-lo,
porém a essa altura aquilo tudo começou a representar um perigo imenso de atos
reflexos. Catei o que pude e entrei para a sala de estar, fechando a porta de
vidro. Fiquei ali em pé, olhando o vento carregar de um lado para o outro as
folhas do jornal que deixei de catar. Olhando o céu se armar de preto para a
tempestade. Ar de sombra chegando na tarde.
Ali parado em pé, o
estranho era a sensação de vertigem que não havia se desfeito, ainda. Pelo
contrário, antes localizada em frio no estômago, a vertigem parecia ter-se
instalado no coração. Batidas fortes, vendo o vento, que aumentavam,
avolumavam-se em coração. Ataque cardíaco? Idade eu tenho para isso, pensei.
Aumento de um tum-tum que escuro e forte batia duro dentro do peito. Ataque!
Ridículo, não pode ser.
Aquilo era o ver o vento
jogando árvores, assobiando a tempestade, trazendo o escuro para dentro daquela
tarde e talvez a lembrança ainda próxima da altura não calculada encarada há
minutos. Um quase nada que me fazia ali geléia humana, ainda bem que desacompanhado.
Medo da morte. Não que nunca tenha sentido. Mas, assim parado, congelado nos
órgãos, o friozinho do que será, eu nunca tinha sentido. Em seguida a esses
instantes nada se acalmou em mim. Nada. Eu nunca havia me detido a pensar na
morte, em como poderá ser o momento da morte. Naquele instante, trazido por um
arremesso, o pensamento da morte tomou conta de mim. E agora, como é que vai
ser?
O tudo simples, prático
e objetivo que havia vivido até então, desapareceu num minuto diante daquele
vento. A iminência. Em instantes, comecei a imaginar uma catástrofe natural se
aproximando com aquele vento. Imaginei um ciclone arrancando árvores,
arrancando carros do chão, arrancando pessoas da calçada. Ali, passando na rua,
uma senhora arremessada contra o muro do prédio em frente. Placas de luminosos
voando ainda mais leves e desgovernadas que minha camisa ou as folhas do
jornal. Postes de fios balançando, eletrocutando tudo aquilo em que encostam.
Horror do descontrole, do não-seguro, do impossível de se conter.
Inadministração.
Legumes vivos, alvo
exposto: a incomensurabilidade do diminuto.
Negar três vezes de nada
adianta, Pedro, a morte há de vir, e já que virá por que não deixar-se digno
levar em seu momento? Nada, há sempre o antes. Terror premonitório. Todas as
possibilidades. Cada passo que se dá nas ruas. O em pé na plataforma do metrô,
esbarrão, corpo no vão dos trilhos, esmago eletrocutado. Tudo é ataque, cair de
escada, degrau de escada-rolante que come o corpo do caído, rasgo, dilaceração.
Tudo é acidente, imprevisto, impredito, descrever encenar em mente o indizível.
Varandas que desabam, canos de gases que explodem, asfaltos que se abrem em
gretas e levam corpos humanos para o fundo correr do esgoto. Nada escapa, tudo
escorrega, espatifa, espirra, esbarra, esparrama, esvai. Expande explode
escapole extrai. Predição.
Nunca mais tive paz,
depois de ontem à tarde na varanda; em que cheguei mais cedo do trabalho.
(extraído do livro babel, é claro, 2002.)
quarta-feira, 4 de julho de 2012
terça-feira, 3 de julho de 2012
poças no asfalto
Alma
presa na caneca e vou ver o romper do dia. Com a camisa empapada, molhado o
linho branco. Abri a porta da cozinha e olhei para fora. Desci os degraus. À
direita o terreiro de galos. À esquerda o pasto malcuidado. Em frente ainda o
pasto malcuidado e as montanhas. Montanhas azul-marinho e a luz irrompendo ao
final dos olhos, no horizonte. Abordava já a abóbada da Terra a luz clara
esmaecida de um sol cor de prata que nascia para um dia cinza. E o latir de um
cão ao longe. A caneca com o líquido quente e preto feito tinta preta a pintar
papel com a ponta da caneta. O dia nascia e eu ali com a caneca quente de ágata
na mão. Mugido, patas de cavalo ao chão. Migalhas e patos e galinhas se
aproximam da porta da cozinha ao perceber movimento. Eu estava lá. E era plena
manhãzinha o começar do dia era a aurora a aurora era um quase-clarão. Ao final
daquela noite horrível em que tive de admitir para os meus filhos que não tinha
mais de onde tirar o pão. Sair matando gente isso nada dissolveria a situação.
Eu estava ali presa do dia sem nada poder fazer. A fazenda aos pedaços. As
vacas todas a adoecer. As contas. Água que não era mais potável. Água que não
se bebia. Que não se podia mais beber. Eu estava ali com a camisa de linho
empapada de suor ao romper resoluto de mais um dia e era dia a ver o que me
restava era ver o dia nascer.
E não
era isso tudo no fundo falso? E não era mudo esse começo de um dia após uma
noite com todas essas felpas de luminosidade da percepção? Não era tudo escrito
com a tinta da caneca o café preto que da ágata esquentava minha mão? Era tudo
um pouco me lixando para os meus filhos para o pasto para as galinhas para a
pouca de água potável que ainda havia. No fundo do poço eu não tomava um só
gole aflito daquele café. Eu estava era vendo o nascer de um dia que se fazia
nesga de preto e prata no rasgo laminar de um horizonte estalado nas minhas
retinas. E nada de tirar o pão que nem de filhos que nem de leite que nem de
vaca que nem de pasto dei conta não. Era tudo com o único fito de viver fugido
idílio. Isso que da sensação da alma presa na caneca empapada camisa de lindo
linho vinha. Isso de não dar conta, o que no fundo não veio não vindo um movimento
de me fazer. Vala da inundação de dizer para os meus filhos que não tenho de
onde tirar o pão é o que nascia naquele esgar de dia que se erguia. Filhos
aflito eu a dizer e o dia que nasceu depois disso.
Um
misturar de camadas. Desde que eu decidira que iria morar na fazenda. Desde que
eu decidi que ia levar meus filhos comigo. Desde que eu decidira que
abandonaria tudo porque a fazenda ia a todo vapor era só uma questão de manter.
Depois
o desmazelo e a impraticidade. O estar perplexo ante cada complicação. As
visitas ordinárias do veterinário. O leite que não verte. O mato que crepita
bordeja espraia avulta e toma conta de todos os caminhos. A cerca que apodrece.
Os funcionários que não sei o que é que eu sempre digo nunca é o que eles
conseguem ouvir. O não infinito, tudo de quina, tudo tropeço, tudo uma peça
errada no lugar errado no dia errado no gesto errado a falta completa de jeito.
E eu de camisa de linho apoiando os braços agora na cerca. Era fugir dali e
encontrar de novo o asfalto a poça o nunca chegar na água o nunca aportar
seguro. Alma presa na caneca e o líquido que ali havia agora frio, caldo do
denunciar do equívoco.
Eu não
pude ver como foi que cheguei aqui. Eu não pude ver o que foi que me fez
chegar. Eu não pude ver um só minuto o corredor extenso que me trouxe para
isso. Nada aconteceu comigo. Tudo foi devido, porque afinal agora eu vejo era
eu que estava completamente distante do que era preciso. Deflagrar fracasso um
esperar do alvorecer à meia-noite. Uma parede por onde me escoro. O centro
agora é deixar vir toda essa modorra.
O dia
morno irrompendo na retina. Ardia ali aquela prata preta de céu que se fazia e
carregava ainda mais meu senso de peso. Imersão num sentimedo de ver o mundo
sob uma atmosfera escura como se o dia o que me acontece sempre virá bordado de
uma sombra de breu. E aquele céu ardido que se fazia me submergia no mais
profundo ar fechado, canto opaco, tapado. Mas ainda assim não se podia dizer
que não se tratava de um novo dia.
Não
tinha mais como, porém, porque não tinha mais pão. Não arrumava mais nada. Era
guiar o carro pela estrada a carregar as malas e me devolver à cidade, à casa,
às paredes de verdade.
Tudo
foi um delírio deflagrado de um gesto feito olho do que se inscreveu imagem. A
fazenda. Como se o gerúndio do substantivo tivesse me sufocado o gesto. Estava
e sempre esteve ali e o meu fracasso acabara sendo um triunfo o de desfazê-la.
A fazia, mas o gesto era sempre antes, ou fora. Como se numa esteira circulante
o instante preciso fosse sempre perdido. A falta de ritmo. Afasia.
Agora
era entrar no carro, na casa, no martírio do novo dia a dia. En la masmorra.
(extraído do livro uns tantos outros.)
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)





